sábado, 4 de julho de 2009

Culinária Gaúcha - Final

As faces do Rio Grande



Falar em um Rio Grande do Sul como um estado único é quase que uma força de expressão. Porque aqui existem muitos Rio Grandes diferentes, cada qual com sua cultura, com seus rostos e falas. São as faces do Rio Grande - que são muitas.
Há um Rio Grande açoriano, nas pequenas cidades do vale do Jacuí, que atualmente vivem suas pacatas vidinhas de interior, mas que já formaram a linha de defesa deste continente de São Pedro. Há um Rio Grande também português, mas com um rosto diferente, na região da Fronteira, conquistada a ferro e fogo pelos milicianos. Esses dois Rio Grandes, um de bombacha e outro em meio a procissões, têm em comum a origem - portuguesa - e a linguagem.
Mas existe outro, em que as exclamações de "tche" se misturam aos "porca miseria". É o dos italianos, nas terras quebradas, com seus parreirais subindo e descendo pelas pirambeiras. Perto dali, tanto em zonas mais baixas - do vale do rio dos Sinos e outros próximos -, como mais altas, no Planalto, está o Rio Grande dos kerbs, das oktoberfests, dos alemães. Esse mesmo Rio Grande, de gente clara e fala arrevesada, tem uma pequena "ilha" em uma região tipicamente portuguesa - são os pomeranos da região de São Lourenço, que formam uma ilha dentro de uma ilha, uma vez que se trata de uma cultura de origem alemã, mas inteiramente diferente desta.
Espalhado por todo o estado está também o testemunho de um Rio Grande sofrido. São os descendentes de negros, trazidos contra a vontade, oprimidos, e que, apesar disso, conseguiram manter traços de sua cultura. Assim como no passado não tinham propriedade, atualmente não têm sua região definida. Estão entre todos, mas com uma história construída de lágrimas que é só deles.
Também de lágrimas é a história de um outro Rio Grande, o dos judeus. Concentrados em Porto Alegre - especialmente no Bom Fim -, vieram para cá fugindo da fome, da discriminação e, a partir do final da década de trinta, da exterminação pura e simples.
Fugindo da dominação de outros países, vieram os poloneses, que entre 1795 e o final da Primeira Guerra Mundial não existiam como nação: tiveram sua pátria dividida entre a Rússia, a Prússia e a Áustria. Assim, muitos desses imigrantes chegaram aqui sob outras nacionalidades. Mas, com a teimosia dos povos que não perdem sua identidade, sempre fizeram questão de frisar que eram poloneses - o povo da pátria retalhada.
Se a Primeira Guerra devolveu aos poloneses o direito de serem nação, a Segunda criou as condições para que o Rio Grande recebesse um novo fluxo migratório. Dessa vez, vinham de uma cultura totalmente diversa, tão diversa que provocava espanto inicialmente. Mas, calados e trabalhadores, esses novos gaúchos de olhos puxados marcaram sua presença na economia do estado: em 1956 começaram a chegar os japoneses.
Esses são alguns dos que vieram. Outros povos, outros sangues, também estão presentes, embora em contingentes não tão significativos. Como se vê, não há um único Rio Grande, mas muitos Rio Grandes. Só que, assim como as pessoas, que são diferentes ao longo do dia, ao longo da vida, esse Rio Grande político, que é a soma de todos os Rio Grandes concretos, existe como unidade.
E a culinária gaúcha é a mescla dessa diversidade integrada, harmoniosa e, sobretudo saborosa.

Os textos desta série foram extraídos, intepretados e por vezes comentados e complementados especialmente de RS Virtual: www.riogrande.com.br

Imagens: Internet - Google - Diversas fontes de uso não restrito

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Com esta postagem, finalizamos, Quasímodo e Juca, a série de artigos sobre a culinária gaúcha.
Mais que falar de comidas, procuramos trazer aos amigos leitores um pouco da história dos povos que ajudaram a formar este belíssimo Estado.
É importante, no entanto ressaltar que não existe um lugar ou uma região onde a culinária seja exclusivamente desta ou daquela tipicidade.
Existem, sim, os pratos típicos de acordo com a hegemonia dos povos que as habitam. Podemos, no entanto, saborear polentas na fronteira, em acompanhamento à um suculento churrasco, ou a sobremesa de um quindim na serra, depois de uma bela macarronada, ou ainda, se quisermos, um chucrute picante nas zonas de pescadores em Pelotas ou Rio Grande, depois de uma taínha na telha.
Como foi dito no início, esta série foi dedicada à amiga Beta, de Pelotas onde se realiza anualmente, a Fenadoce, Festa Nacional do Doce. Quem puder ir, não perca.

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2 comentários:

Kaie disse...

Estranho? Fiquei é feliz em ver um homem frequentar o meu blog e deixar um comentario! Isso é realmente raro...risos. Vim agradecer a visita, a Lu me disse que tu é amigo dela, então deve ser uma pessoa mto bacana (pq ela é bem exigente...risos).
Fiquei feliz por ter te ajudado a lembrar de uma coisa tão bonita. Engraçado como coisas tão pequenas podem trazer lembranças tão doces. Achei mto lindo!

Aliás, lindo aqui o seu cantinho, voltarei para ler mais vezes. Obrigada pela visita!!!

Bjos

BETANIA MARIA disse...

Querido e antigo amigo, fico emocionada em ser alvo de uma homenagem de alguem tão especial como tu.Muito obrigada! Que continues sempre sendo essa pessoa maravilhosa que tu és.
Beijão
beta

 
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