domingo, 19 de julho de 2009

Gre-Nal e o Centroavante empalhado


Gre-Nal

Hoje foi dia de Gre-Nal.

Para quem mora em outros estados, talvez seja difícil entender a dimensão da rivalidade desse clássico esportivo do Rio Grande do Sul.

Tudo bem que historicamente polarizamos as coisas.

Aqui ou se é Maragato ou se é Chimango, ou se é macho de palitar os dentes com o facão ou se é boiola, ou se é gremista ou se é colorado.

Claro, não tão ao pé da letra assim, ultimamente.

Hoje em dia já se admite o meio-termo.

Pode-se palitar os dentes com um osso fino da costela do churrasco, sem fazer feio. E alguns rebolados estranhos, credita-se à possíveis desvios posturais de coluna, de tanta dedicação aos estudos. Se bem que os birivas tropeavam mulas do Alegrete à Sorocaba e não voltavam rebolando. Enfim...

Mas hoje foi dia de Gre-Nal.

O Grêmio ganhou por 2 x 1, justo quando se comemorava o centenário deste embate tão peculiar. Ontem, dia 18, fez 100 anos do primeiro clássico, vencido também pelo Grêmio pelo modesto placar de 10 x 0.

Isso é história. História que me remete a outras histórias, como esta, que passo a contar.


O Centroavante empalhado


Tio Lorivan é um desses gaúchos sem meio-termos.

Irmão mais novo de minha mãe, e de uma ninhada grande, teve certas regalias na estância. Tinha consciência e usava disso a seu favor. Tirava para si e botava marca, no melhor potrilho recém nascido; escolhia o melhor terreno da lavoura para plantar pipoca; criava porcos-da-índia num cercado de varas de guamirim só para satisfazer sua excentricidade exótica. Que serventia poderia ter aqueles ratinhos lá na estância?...

Trancava as sangas para fazer açudes...

Nada disso ele fazia. Gerenciava!

Convocava a nós, sobrinhos pequenos, sob promessas de não apanhar, para cavoucar banhados, arar a terra, colher pasto na hora certa para alimentar aqueles coelhinhos estúpidos. E aí se algum morresse; e ai de nós se alguma cova de pipoca não vingasse.

Foi um inovador, ele.

Introduziu o esporte bretão, lá naqueles confins de querência, entre vassouras e samambaias das coxilhas, numa época em que nós, bárbaros incultos, só pensavá-mos em caçar passarinho, correr pelos matos e pescar, de vez em quando.

Primeiro ele trouxe uma bola de couro, dura como uma pedra, que dizem, tomou de uns piás da escola.

Nós, os súditos, tinha-mos que mantê-la umedecida com sebo de ovelha.

Era preciso uma técnica especial para chutá-la: arrebitavam-se os dedos e batia com a ponta do pé, pegando mais na sola. Mesmo assim ardia ou destroncava algum dedo.

Tio Lorivan, como dono da bola, do campo, e das bostas de vaca que demarcavam o gol, escalava os times, dentre a gurizada da vizinhança, sempre tendo os mais fortes na sua equipe. De vez em quando ele mudava um jogador de um time para o outro, conforme estivesse o placar.

Foi o primeiro atleta campeiro, pelo que se sabe, a jogar calçado. Não era bem uma chuteira, dessas de marca, que se usa hoje. Ele cortou, à faca, os canos de um par de botas que o tio Severiano tinha deixado a secar ao sol depois de ensebada.

Na ponta, como biqueira, ele pregou um latão dourado, tirado das montarias do vô. Costurou uns meiões de sacos de farinha dos Moinhos Santistas e fez umas caneleiras de ripas de taquara também costuradas, lado a lado, num pedaço de pano em que vinha o açúcar Cristal.

Na primeira apresentação esportiva em que ele se apresentou assim, paramentado, o time dele ganhou fácil. Ele fez vários gols...

Não havia jogador adversário que ousasse enfrentar, numa dividida de bola, aquela fortaleza encouraçada. Alguns jogadores da defesa e até do meio campo, abriam caminho e corriam para o mato ao ouvir o barulho das botas cortadas... plof... plof... plof...

A sua maior contribuição esportiva, no entanto não vingou.

Durante dias de uma semana que chovia, ele se fechou no sótão da casa velha e não permitia que ninguém subisse as escadas.

Escutáva-mos, lá de baixo, o ralar de faca na madeira, barulho de lima afiando, batidas de martelo. Pragas.

De vez em quando ele descia para beber água, suado, nos olhava com olhos ameaçadoramente estanhados...

Bebia a água e subia de novo.

No domingo seguinte não teve jogo. Chovera a semana toda e as carquejas cresceram no campo.

Na quarta-feira, já com sol a pino, recebemos a convocação sutil dele para preparar o palco do espetáculo: “Vão lá, arrancar as carquejas prá domingo, se não quiserem levar uma sumanta de fivela”. Fomos.

No domingo o campo estava bonito. Tinha até goleira com trave em cima das forquilhas que meu irmão mais velho trouxe do mato. As carquejas arrancadas na quarta, demarcavam, já meio amareladas, a linha lateral.

As equipes se formavam naturalmente, conforme o costume; os Fracos (nós) jogavam sem camisa. Os Fortes (eles) jogavam de camisa de cores, feitio e panos variados, a maioria de “riscado”.

Estáva-mos lá, desde as 9 horas, chutando aleatoriamente aquele couro duro, e nada do tio aparecer. Impensável iniciar qualquer partida sem ele.

Lá pelas 9:30 ele surge por entre os sinamomos da mangueira, devidamente paramentado; as botas sem cano do tio Severiano, a meia de algodão, a caneleira de taquara... mas parecia mais ereto, mais duro, mais mecânico...

Os puxa-saco de sempre o rodearam, logo que ele adentrou ao gramado.

Orgulhoso ele apresentou o seu novo invento.

Transformara uma gamela velha da vó em uma peiteira que cobria, desde perto do pescoço até as proximidades do umbigo. Moldara com faca e formão a velha vasilha de cedro, adaptando-a, rudemente, ao seu formato anatômico.

O artefato era preso por duas tiras de couro que passavam pelos ombros, formando um X nas costas e se afivelavam, assim, cruzadas, em outra tira de couro que vinha pela barriga e prendia a gamela na parte de baixo.

Era para “melhor matar a bola no peito”, dizia...

A invenção não vingou.

Primeiro porque não houve, durante o jogo, nenhuma bola alçada na altura adequada para submeter o invento à prova.

Segundo porque a mobilidade do atleta ficou bastante prejudicada, nos lances em que se exigia maior velocidade e penetração na área adversária.

E por último, não se mostrou suficientemente resistente.

Numa falta ocorrida pela meia-direita, à favor do nosso time (os descamisados) o tio foi para a barreira e estoicamente esticou o peito engamelado.

O negro Lúcio tomou distância, arrebitou os dedos e soltou a bomba.

A bola bateu bem no peito do tio, provocando um estalo seco, como o estalo de um porongo verde, jogado na fogueira de São João.

O tio caiu de costas e ficou na grama, gemendo.

Alguém chegou com uma faca e cortou as tiras de couro.

Com a força da bolada a madeira tinha se partido, e na volta, talvez com a queda de costas, ela se contraiu novamente, apertando o couro do peito, desde a teta esquerda até o vazio.

Ficou um vergão feio e saia sangue em algumas partes.

A vó curou com banha de porco, em algumas semanas.

Nunca mais teve jogo de bola.

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7 comentários:

uns... disse...

coitado do tio. fiquei morrendo de dó.
ainda bem que tinha vó e banha de porco.
que bom que ele não jogava no grêmio!
delícia de história, quasí...
amei!
beijos meus

krika disse...

Agora entendi seu sumiço ontem!
Era por causa da tradição masculina (não só masculina agora)......Aquela de ficar olhando 20 jogadores correndo atrás de uma bola e mais dois nas laterias, esperando o adversário manda-la de presente...
Amigo, hoje é dia do amigo...Ofereço-lhe minha mascote krika que está lá no Linguagem. E mais o meu selinho cativa-me,que vc bem sabe seu significado,nem preciso repetir a ladainha.Beijos.

Lu disse...

kkkkkkkkkkkkkk eu chorei de rir!

Conta mais essas passagens de antigamente, tá?

Ah, esqueci: Viva o Grêmiooooooooooooooooooooooooooo!!!

Obrigada pela sua amizade, de todos os dias!
Abraço, do tamanho do Rio Grande!

Géssica disse...

Oi, Clovis.
Tem selinho pra vc no Projetos.
Beijos

Milly disse...

Fiz cia pra Prima...rs
Me virei do avesso de tanto rir!
Ô,família,heim?
Vou te contar...acho até que já contei antes...
Adoro teus textos!!!
Neste,te superaste!!
rs
.
Beijos!!
.
.

Fátima N. disse...

____deliciosa a leitura, um momento em que viajei na sua história.
sempre um deleite, ler você!
meu camaradinha tão querido.
"não deixar pegadas, não significa ausência"
e eu amei isso e acredito exatamente assim.
.
beijos.

Fátima N. disse...

____deliciosa a leitura, um momento em que viajei na sua história.
sempre um deleite, ler você!
meu camaradinha tão querido.
"não deixar pegadas, não significa ausência"
e eu amei isso e acredito exatamente assim.
.
beijos.

 
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