domingo, 27 de dezembro de 2009

Reciclagem e afins



Olá pessoas;

Vocês já pararam para pensar sobre o lixo que produzimos?

Para onde ele vai? Etc...

Bem...Também não sou entendida no assunto...

Somando as coisas e percebendo que cada um de nós precisa contribuir com alguma ação solidária, resolvi pesquisar sobre reciclagem.

E não é que descobri algumas possibilidades de aproveitar materiais que jogamos no lixo para motivar as aulas de leitura?

São ideias simples, que somadas a mais ítens do tipo: boa vontade, paciência e pesquisa podemos elaborar trabalhos artísticos.
Fiz experiências neste ano com os alunos do Tempo Integral da Escola Estadual Coronel Casimiro Osório, de Itajubá, Minas Gerais e gostei do resultado.

Aqueles alunos sem auto-estima, sem aprendizagem satisfatória, que causam indisciplina se revelaram no artesanato.

Minhas aulas não foram nada tradicionais, destas que lemos, interpretamos, produzimos textos, etc. Partindo de um gênero literário, busquei uma atividade artística compatível para fechamento de cada tema.

O resultado foi excelente, pois na sala do tempo integral existem possibilidades mais abrangentes que no ensino regular, além do material escolar disponível, que facilita bastante.

E então pensei: se tivesse mais materiais recicláveis estaria incutindo esta prática saudável nos alunos, além de fazer bem para o nosso planeta.

Portanto neste próximo ano, minha bandeira será esta: de estocar sucatas. Indo mais além, eu poderia pedir colaboração aos amigos, não? Afinal, todo mundo produz lixo diariamente. O que custaria reservarem algumas garrafas ou potes de margarina?

Dá um certo trabalho...
Mas final de ano, nós todos nos vestimos e nos comportamos com motivos natalinos. Enviamos mensagens de paz, amor, saúde e até dinheiro no bolso para as pessoas. Entregamos abraços aos familiares com presentes, depois degustamos pratos saborosos e bebemos delícias, dividimos lembrancinhas de amigo oculto e tantos outros pacotes materiais. Até existe aquele desabafo desagradável do tipo: “eu compro qualquer coisinha da loja 1,99. È só uma brincadeirinha natalina, o que vale é o espírito de confraternização.”

Mas não quer ganhar um também desta loja, não é? Ai...Ai.

Pois bem, é hora também das famosas retomadas de decisões, avaliações, prescrições para o ano novo, promessas futuras.

É aí que quero chegar:
Q
ue tal agir de forma consciente e colaborar nesta empreitada escolar comigo?

È simples: nas suas festividades, lembre-se de reservar sucatas para estes trabalhos recicláveis.
Vou dar exemplos ótimos: garrafas de vidro (vinho, champanhe, etc);
Potes de doces, azeitonas e demais conservas;
Papéis de presente, sacolinhas de papel, fitas de embrulhos;
Caixas de sapatos e outras de qualquer porte, até caixas de fósforo.

Existem tantas possibilidades, vocês nem imaginam...

De repente estarei ensinado uma profissão para estes alunos “difíceis”, que acham?

Conto com sua solidariedade, compreensão e Deus permita que eu atinja seu coração bondoso.

Encerrando meu discurso, vale à pena contar a vocês que colecionei na minha memória, alguns dizeres sábios, de pessoas, que convivi durante o ano.

Por exemplo: “Sossego”. Esta palavra eu ouvi no final de uma consulta médica, ao me despedir do médico. Achei diferente a saudação dele, de forma muito entusiasta, não concordam? Ao invés do famoso “até logo”, ou “prazer em te conhecer”, ele me disse de forma radiante, com uma energia magnífica.

“Nós temos dois remos em nossos barcos e usamos os dois para deslocarmos. É o remo pensar e o remo agir. Então, sistematicamente: pensamos e agimos, pensamos e agimos.”
A pessoa que me disse isto nem imagina a importância que isso me causou. Imaginem vocês, remando e dizendo estas palavras. Depois me contem o efeito imaginativo que surgiu.

“Vamos tocar o barco”. São palavras sagradas para mim. Vindo de um amigo que sem pedir licença, foi-se embora desta vida, tão repentinamente. Serão lembradas por mim a tempo e a hora, sem dúvida.

Noutro dia, assistindo televisão, ouvi esta pérola: ”somos buscadores de nossos caminhos, porém é sabido que não vamos chegar ao ponto final, pois assim acomodaríamos. O interessante é estar eternamente buscando. Podemos aquietar-nos em alguma estância, mas nunca desistirmos da busca.” Nossa, isso me fez aliviada, porque não podemos parar. Obviamente podemos mudar de direção, tomar outro caminho, mudar de idéia, enfim, mas nunca estacionar definitivamente num ponto.

Para sair das costumeiras mensagens natalinas, deixei para o final os meus votos de que tenham um santo Natal no dia 25 de dezembro, lembrando do aniversariante deste dia.

Não se esqueçam de vivenciar o natal nos próximos 365 dias. Afinal, precisamos do espírito natalino todo dia!

Krika
(observação: pedidos de sucatas para os cidadãos in loco)
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sábado, 19 de dezembro de 2009

Alguns dias na estrada

A Torre, depois de quase dois anos de postagens semanais ineterruptas, por obra e graça do corcundinha Quasímodo, do gaúcho Juca ou da amiga Krika, de repente, sem aviso prévio, interrompe a sequência. Não... Não foi por motivos de força maior, coisa grave, colapso no sistema cibernético ou coronário.

Recebi visita. Esperada visita. Adorável visita.

E então, com a visita, visitamos outros cantos. Lugares e amigos que há muito queria ver ou rever.

E assim fomos. Foram dias memoráveis. Inesquecíveis.

Dentre tantas imagens que vimos e registramos, centenas delas, separei alguma para compartilhar com vocês.

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Fim de tarde em União da Vitória, Paraná.


As árvores secas parecem erguer os braços para o céu revolto, em súplica.













Ainda no Paraná. Esse moço aí não quis pousar de perfil.










Este é um lugar abençoado... De muita paz e morada de uma amiga linda. Vivem anjos aqui.





















O anoitecer no oeste de Santa Catarina nos presenteia com imagens bonitas.







À beira da estrada... À caminho para Nova Teutônia, distrito de Seara, onde fomos ver as borboletas do museu entomológico Fritz Plaumann.














Museu Fritz Plaumann. Agradabilíssima recepção pela Sra. Edeltraudt, simpática e zelosa guardiã deste verdadeiro templo.




Uma foto do acervo. São mais de 80.000 exemplares catalogados e identificados, de cerca de 17.000 espécies, mantidos em urnas de vidro, com o clima e iluminação controlados, o que dificulta o registro fotográfico, pois não é permitido usar flash e as luzes do teto se refletem no vidro que proteje os insetos. Mesmo assim, Marta se esmerou.





Barragem de Itá.

Fomos lá para ver os resquícios da cidade velha que foi inundada pela barragem. Ficou as duas torres da igreja. Mas logo o tempo fechou, como se pode perceber na foto. E uma tempestade, que tem se tornado comum aqui no sul, se abateu sobre nós. Tivemos que sair dali rapidinho.






Ponte sobre o rio Uruguai, entre Concórdia e Erexim, na divisa dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

O destaque negativo foi a degradação das margens. Muito lixo, que registramos.








Entre Lagoa Vermelha e Sananduva, no Rio Grande do Sul. Logo ali adiante, dobramos à esquerda para Tapejara, onde fomos prestar a última homenagem à um primo.











Lagoa Vermelha, interior. Essa foi suplantada pelo trator. Jaz ali, esquecida.











Esta é uma foto de uma sequência que Marta tirou. Esta vespa construiu sua casinha na parede... botou seus ovos... Trouxe uma lagarta e introduziu na casinha, para que, quando o ovinho eclodir, os filhotes tenham alimento. É uma das mais lindas sequências que já vi.






No RS, na saída de Ibiraiaras para São Jorge.










Ponte sobre o rio das Antas, próximo à Bento Gonçalves.

Uma obra de engenharia exemplar. Maior vão livre de uma ponte no mundo. Sobre aqueles arcos, alguns motoqueiros atravessavam de um lado para o outro. Tem cerca de um metro de largura, a mureta. Hoje tem uma cerca de ferro na base para impedir essas tentativas. No passado cheguei a aprumar a minha 125, mas me faltou coragem...




Caxias do Sul...


Aqui encontramos uma amiga linda e seu filhote... Igualmente encantador.





E por hoje é só. Tenham todos um feliz e santo Natal.

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sábado, 28 de novembro de 2009

A GUERRA DO CONTESTADO


Tenho referido aqui na Torre, já por várias vezes, a Guerra do Contestado ou fatos a ela relacionados.

Apesar de sua dimensão e importância histórica, este conflito é pouco conhecido, não só fora das fronteiras onde ele ocorreu, mas também dentro delas.

Não se pode negar que a Guerra do Contestado foi determinante para o estabelecimento do modelo colonizatório do meio-oeste e oeste de Santa Catarina, influenciando a cultura da região e dando origem à muitas cidades, algumas antigos redutos rebeldes, outras antigos povoados erguidos ao longo do trecho em construção da estrada de ferro São Paulo – Rio Grande do Sul, estopim importante, mas não único, para a explosão da revolta.

Recolho aqui, uma síntese do que foi a Guerra do Contestado.

Costumo dizer, (ou repetir, já que a frase não é minha) que não tivemos aqui um Euclides da Cunha, e talvez por isso, essa importante página da nossa história tenha sido relegada à um mero acidente de percurso para a República e para o estabelecimento do modelo exploratório e desenvolvimento capitalista que se implantou.
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A Guerra do Contestado (1912-1916)

Povoamento e Disputa

A ocupação do planalto serrano foi diferente da do litoral catarinense na sua composição de recursos humanos. As escarpas serranas, densamente cobertas pela Mata Atlântica, junto com os povos indígenas, representavam sérios obstáculos para o povoamento da região.

A ocupação se deu através do comércio de gado entre o Rio Grande do Sul e São Paulo já no século XVIII, fazendo surgir os primeiros locais de pouso. A Revolução Farroupilha e Federalista também contribuíram para o aumento de contingente humano, que buscavam fugir dessas situações beligerantes. Em 1853 começa a disputa de limites entre Santa Catarina e Paraná, quando este último se desmembra de São Paulo e firma posse sobre o oeste catarinense.
Com a constituição de 1891, é assegurada aos Estados o direito de decretar impostos sobre as exportações e mercadorias, como também indústrias e profissões, o que acirra ainda mais a questão dos limites, pois a região era rica em ervas.

Em 1904 Santa Catarina tem ganho de causa perante o Supremo Tribunal Federal, mas o Paraná vai recorrer perdendo novamente em 1909 e 1910. Porém a discussão não finda por aqui, sendo resolvida em 1916 quando os governadores Felipe Schmidt (SC) e Afonso Camargo (PR), por intermédio do Presidente Wenceslau Bráz, assinam um acordo estabelecendo os limites atuais entre os dois estados.

Vale lembrar que essa disputa não tinha muita relevância na população, pois o poder era sempre representado pelos coronéis, tanto fazia pertencer a Santa Catarina ou ao Paraná.

O poder dos monges

A figura dos monges teve valor fundamental para a questão do Contestado, sendo mais destacado o José Maria. O primeiro monge foi João Maria, de origem italiana, que peregrinou entre 1844 e 1870 quando morre em Sorocaba. João Maria levava uma vida extremamente humilde, e serviu para arrebanhar milhares de crentes, porém não exerceu influência nos acontecimentos que viriam a ocorrer, mas serviu para reforçar o messianismo coletivo.

O segundo monge, que também se chamava João Maria surge com a Revolução Federalista de 1893 ao lado dos maragatos. De começo vai mostrar sua posição messiânica, fazendo previsões a respeito dos fatos políticos. Seu verdadeiro nome era Atanás Marcaf, provavelmente de origem Síria. João Maria vai exercer forte influência sobre os crentes, que vão esperar pela sua volta após seu desaparecimento em 1908.

Essa espera vai ser preenchida em 1912 pela figura do terceiro monge: José Maria. Surgiu como curandeiro de ervas, apresentando-se com o nome de José Maria de Santo Agostinho. Ninguém sabia ao certo qual a sua origem, seu verdadeiro nome era Miguel Lucena Boaventura e, de acordo com um laudo da polícia da Vila de Palmas/PR, tinha antecedentes criminais e era desertor do exército.

Dentre as façanhas que deram fama ao monge José Maria, podemos destacar a ressurreição de uma jovem, provavelmente vítima de catalepsia, e a cura da esposa do coronel Francisco de Almeida, acometida por uma doença incurável. O coronel ficou tão agradecido que ofereceu terras e uma grande quantidade de ouro, mas o monge não aceitou, o que ajudou ainda mais a aumentar a sua fama, pois passou a ser considerado santo, que veio à terra apenas para curar e tratar os doentes e necessitados.

José Maria não era um curandeiro vulgar, sabia ler e escrever, anotando propriedades medicinais em seus cadernos. Montou a "farmácia do povo" no rancho de um capataz do coronel Almeida, onde passou a atender diariamente até tarde da noite.

As riquezas da região

A região planaltina vai exercer grande cobiça entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, assim como para o Grupo Farquhar (Brazil Railway Company), como veremos adiante, apropriando-se do maior número de terras possíveis.

A vida econômica da região, durante muito tempo, vai girar em torno da criação extensiva de gado bovino, na coleta da erva mate e na extração de madeira, material empregado na construção de praticamente todas as residências. Os ervais encontravam seu mercado na região do Prata.

Nas terras dos coronéis os agregados e peões podiam servir-se das ervas sem qualquer proibição, porém quando o mate adquiriu valor comercial, os coronéis começaram a explorar a coleta abusiva do mate em suas terras.

Como região fornecedora de gado para a feira de Sorocaba e erva mate para os países do Prata, o planalto catarinense inseria-se economicamente em nível nacional, no modelo agrário-comercial-exportador dependente.

Brazil Railway Company

Com a expansão da área cafeicultora brasileira, surgiu a necessidade de se interligarem os núcleos urbanos com a região sulina, para que esta os abastecesse com produtos agro-pastoris. É criada então uma comissão para a construção de uma Estrada de Ferro para ligar esses dois pólos.

A concessão da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, iniciou com o engenheiro João Teixeira Soares em 1890, abandonando o projeto em 1908, transferindo a concessão para uma empresa norte-americana Brazil Railway Company, pertencente ao multimilionário Percival Farquhar, que além do direito de terminar a estrada, ganha também o direito de explorar 15 km de cada lado da estrada.

Farquhar cria também a Souther Brazil Lumber and Colonization Co., que tinha por objetivo extrair a madeira da região e depois comercializá-la no Brasil e no exterior. Além disso, a empresa ganha também o direito de revender os terrenos desapropriados às margens da estrada de ferro. Esses terrenos seriam vendidos preferencialmente aos imigrantes estrangeiros que formavam suas colônias no sul do Brasil.
Para a construção do trecho que faltava da ferrovia, a empresa contratou cerca de 8000 homens da população urbana do Rio de Janeiro, Santos, Salvador e Recife, prometendo salários compensadores.

Ao encerrar a construção da ferrovia, esses funcionários foram demitidos, sem ter para onde ir pois a empresa não honrou o acordo de levá-los de volta ao término do trabalho. Passam então a engrossar a população carente que perambulava pela região do Contestado.

A Brazil Lumber providencia a construção de duas grandes serrarias, uma em Três Barras, considerada a maior da América do Sul, e outra em Calmon, onde se dá início às devastação dos imensos e seculares pinheirais.

A Guerra

A guerra inicia-se oficialmente em 1912, com o combate do Irani, que resultou nas mortes do monge José Maria e também do coronel João Gualberto, e vai até a prisão de Adeodato, último e mais destacado chefe dos fanáticos, em 1916. É também neste ano que é assinado o acordo de limites entre Santa Catarina e Paraná.

Durante esse período, podemos observar uma mudança nos quadros dos fanáticos com a adesão dos ex-funcionários da Brazil Railway Company. Junta-se também ao movimento um expressivo número de fazendeiros que começavam a perder terras para o grupo Farquhar e para os coronéis. Com essas mudanças o grupo vai tornar-se mais organizado, distribuindo funções a todos, utilizando também táticas de guerrilha.

No episódio em que José Maria monta sua "farmácia do povo" nas terras do coronel Almeida, cresce absurdamente sua popularidade, sendo convidado a participar da festa do Senhor do Bom Jesus, em Taquaruçu – município de Curitibanos. Atendendo ao convite, José Maria participa acompanhado de 300 fiéis, e ao terminar a festa José Maria continuou em Curitibanos atendendo pessoas que não tinham mais aonde ir. Curitibanos era uma cidade sob o domínio do coronel Francisco de Albuquerque que, preocupado com o acúmulo dos "fiéis" manda um telegrama para a capital, pedindo auxílio contra "rebeldes que proclamaram a monarquia em Taguaruçú", sendo atendido com o envio de tropas.

Diante dessa situação, José Maria parte para o Irani com toda essa população carente. Porém na época Irani pertencia a Palmas, sob controle do Estado do Paraná, que via nesse movimento de pessoas uma "estratégia" de ocupação por parte do Estado de Santa Catarina. Logo são enviadas tropas do Regimento de Segurança do Paraná, sob o comando do coronel João Gualberto, que junto com José Maria, morre no combate.

Terminada a luta com dezenas de mortos e com a vitória dos fanáticos, José Maria é enterrado com tábuas para facilitar a sua ressurreição, que aconteceria acompanhado de um Exército Encantado, ou Exército de São Sebastião. Os caboclos defendiam a Monarquia Celeste, pois viam na República um instrumento do diabo, dominado pelas figuras dos coronéis.

Em dezembro de 1913, organiza-se em Taquaruçú um novo reduto que logo reuniu 3000 crentes, que atenderam ao chamado de Teodora, uma antiga seguidora de José Maria que dizia ter visões do monge. Ao final deste ano, o governo federal e uma Força Pública catarinense, atacam o reduto. O ataque fracassa e os fanáticos se apoderam das armas. A partir de então começam a surgir novos redutos, cada vez mais em locais afastados para dificultar o ataque das tropas legais.

Em janeiro de 1914 um novo ataque é feito em conjunto com os dois Estados e o governo federal que arrasa completamente o acampamento de Taquaruçú. Mas a maior parte dos habitantes já estava em Caraguatá, de difícil acesso. No dia 9 de março de 1914 os soldados travam uma nova batalha, sendo derrotados. Essa derrota repercute em todo o interior, trazendo para o reduto mais e mais pessoas. Neste momento, formam-se piquetes para o arrebanhamento de animais da região para suprir as necessidades do reduto.

Mesmo com a vitória é criado outro reduto, o de Bom Sossego, e perto dele o de São Sebastião. Este último chegou a ter aproximadamente 2000 moradores. Os fanáticos não ficam só a esperar os ataques do governo, atacam as fazendas dos coronéis retirando tudo o que precisavam para as necessidades do reduto. Partiram também para atacar várias cidades, como foi o caso de Curitibanos. O principal alvo nesses casos eram cartórios onde se encontravam registros das terras, sendo incendiados. Outro ataque foi em Calmon, contra a segunda serraria da Lumber, destruindo-a completamente.

No auge do movimento, o território ocupado equivalia ao Estado de Alagoas, totalizando 20.000 km2. Até o fim do movimento haviam morrido cerca de 6000 caboclos. (Algumas fontes afirmam terem sido mais de 20.000 o número de mortos N. A.)

O contra-ataque do governo

Com a nomeação do General Setembrino de Carvalho para o comando das operações contra os fanáticos, a guerra muda de posição. Até então os rebeldes haviam ganho grande parte dos combates e as vitórias do governo eram inexpressivas. Setembrino vai reunir 7000 soldados, dispondo também de dois aviões de observação e combate.

Em seguida manda um manifesto aos habitantes das áreas ocupadas garantindo a devolução de terras para quem se entregasse, e tratamento inóspito para quem continuasse. Setembrino vai adotar uma nova postura de guerra, ao invés de ir ao combate direto, cerca os fanáticos com tropas vindas de todas as direções: norte – sul – leste – oeste.

Com esse cerco, começa a faltar comida nos acampamentos, fazendo com que alguns fanáticos começassem a se entregar, mas na sua maioria eram velhos, mulheres e crianças, talvez para que sobrasse mais comida aos combatentes. Começa a se destacar do reduto a figura do Adeodato, o último líder dos fanáticos, que muda o reduto-mor para o vale de Santa Maria, que contou com cerca de 5000 homens.

Na medida em que ia faltando comida, Adeodato começa a se revelar autoritário, não aceitando ser desafiado. Aos que queriam desertar, ou se entregar, era aplicada a pena máxima: a morte.
Em dezembro de 1915 o último reduto é devastado pelas tropas de Setembrino. Adeodato foge, vagando com tropas ao seu encalço, conseguindo escapar de seus perseguidores, mas a fome e o cansaço fazem com que Adeodato se entregue em início de agosto de 1916.

Em 1923, sete anos após ter sido preso, Adeodato é morto numa tentativa de fuga pelo próprio diretor da cadeia. Chegava ao fim a trajetória do último comandante dos fanáticos da região do Contestado.



Fotos: 1: Bandeira dos revoltosos - 2: Região do conflito - 3: Monge José Maria - 4: Construção da Estrada de Ferro - 5: Grupo de caboclos.


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domingo, 22 de novembro de 2009

O Caminho da Felicidade

O HÁBITO SAUDÁVEL DA LEITURA

O CAMINHO DA FELICIDADE

ILAN BRENMAN
LIVRO: AS 14 PEROLAS DA ÍNDIA
EDITORA BRINQUE-BOOK


O deus criador Brahma estava sozinho no universo quando teve a idéia de modelar alguns seres para lhe fazer companhia. Assim que ficaram prontos, os homens encontraram a chave da felicidade e com ela voltaram a fundir-se ao corpo do criador. Novamente Brahma estava sozinho.

O Ser Supremo resolveu tentar mais uma vez: modelou mais homens, mas dessa vez, antes de lhes dar vida, refletiu sobre a chave da felicidade.

- È melhor eu esconder a chave que os traz até mim, porque senão ficarei novamente sozinho.


Brahma começou a pensar no local em que esconderia a chave da felicidade:

- Já sei, jogarei a chave nas profundezas do oceano Índico. Depois de um tempo, refletiu melhor e disse:

- Não, no futuro, com certeza os homens chegarão às profundezas de todos os oceanos. Já sei, eu a colocarei nas cavernas do Himalaia. Mas também não é boa idéia, pois no futuro os homens explorarão todas as cavernas do mundo e a encontrarão.

Depois de refletir mais um pouco, Brahma disse:

- Sim, este lugar é excelente – pensou ele. Esconderei a chave da felicidade num dos planetas do nosso universo.

Depois de um tempo, o entusiasmo do Deus Supremo esvaiu-se.

- No futuro os homens viajarão por todas as galáxias, e com certeza encontrarão a chave da felicidade.

Brahma ficou semanas diante de suas criações de barro. Ele não lhes daria vida até descobrir um lugar apropriado para ocultar a chave.

Numa manhã crepuscular, o Deus Supremo olhou para a fileira de homens de barro e finalmente descobriu o local apropriado para esconder a chave da felicidade.

- È isso! – gritou Brahma. – Os homens nunca vão pensar em procurar a chave no lugar em que estou pensando escondê-la.

Brahma aproximou-se das suas criaturas, pegou milhares, milhões, bilhões de partículas da chave da felicidade e as escondeu no melhor lugar do mundo: DENTRO DO PRÓPRIO HOMEM.

Disse o sábio:
_ Aquele que mergulha para dentro encontra o caminho que leva ao Ser Supremo.

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domingo, 15 de novembro de 2009

Vida Iluminada e "aquilo"...




A Internet nos possibilita uma interação e fontes de conhecimento inimagináveis há alguns anos.



Quando o "Letras da Torre" nasceu não tinha como objetivo (como ainda não tem) nada mais que lançar um "olhar crítico, poético, eqüidistante ou engajado, sobre transeuntes, fatos e mundos". (A manutenção do trema é proposital).


No que tange ao engajamento, a Torre procurou abraçar algumas causas. Sem buscar a polêmica desnecessária, desgastante e na maioria das vezes estéreis, não deixou de se posicionar, sempre com o devido respeito ao contraditório.


É nesse contexto que acolheu a grande amiga e colaboradora Krika, pelo seu trabalho de resgate e estímulo à leitura desenvolvido no interior de Minas Gerais. Seu projeto ganhou corpo e visibilidade. Não que a Torre tenha algo a ver com isso, mas pelos seus méritos e dedicação. É dela a colaboração final da postagem de hoje. "Aquilo" foi ela quem enviou. Krika hoje fala ou melhor, escreve sobre seu projeto e trabalho no site "Linguagem e Afins" sem deixar de colaborar com a Torre e com o "Projetos e Idéias", seu blog inicial que criaram juntamente com a Géssica, outra educadora comprometida.


Hoje, no entanto, quero falar de outro exemplo de dedicação, carinho e amor ao próximo.


Trata-se do Coral Vida Iluminada, formado por deficientes visuais em Mogi Mirim, cidade do interior de São Paulo.


A querida amiga Neuza, a Girinha de tantas trocas e intercâmbios, passou a fazer parte dele. Penso que ela aliou o seu amor ao canto, que já desenvolvia em outro coral, infelizmente extinto por falta de apoio, à sua dedicação ao próximo consubstanciado em seu envolvimento com as casas lar, que acolhem idosos.


É um exemplo de vida e superação este coral. Mesmo para mim, um sujeito já bastante rebenquiado (para usar um termo gaúcho) pela vida, não tenho como não me sentir tocado pelo canto e pela visão (parece contraditório) de esperança e fé demonstrado pelos membros do coral.


O coral leva seu canto e mensagem de vida à hospitais, creches, casa de idosos e outros tantos que os queiram ouvir.


Para conhecer mais, acessem o site: http://amuvidailuminada.blogspot.com/


Trancrevo um pequeno trecho do site:


"Surgiu em agosto de 2005 com o objetivo da inclusão social dos deficientes visuis através da música. Apresentando-se em hospitais, asilos, eventos beneficentes, tem como objetivo, cantar para fazer o bem! Onde através do SOM DO CORAÇÃO, os cantores transmitem diretamente as emoções ao público, intensificando o contato com a platéia."


Vida longa, amigos. Obrigado por renovarem a minha esperança num Brasil possível, num mundo possível.




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Aquilo



Quando aquilo apareceu na cidade, teve gente que levou um susto.
Teve gente que caiu na risada.
Teve gente que tremeu de medo.
E gente que achou uma delícia.
E gente arrancando os cabelos.
E gente soltando rojões.
E gente mordendo a língua, perdendo o sono, gritando viva, roendo as unhas, batendo palma, fugindo apavorada e ainda gente ficando muito, muito, muito feliz.
Uns tinham certeza de que aquilo não podia ser de jeito nenhum.
Outros também tinham certeza.
Disseram: - Viva! Que bom! Até que enfim!
Muitos ficaram preocupados.
Exigiram que aquilo fosse proibido.
Garantiram que aquilo era impossível.
Que aquilo era errado. Que aquilo podia ser muito perigoso.
Outros, tranqüilos, festejaram, deram risada, comemoraram e, abraçados, saíram pelas ruas, cantando e dançando felizes da vida.
Alguns, inconformados, resolveram perseguir aquilo. Disseram que aquilo não valia nada. Disseram que era preciso acabar logo com aquilo ou, pelo menos, pegar e mandar aquilo para bem longe.
Muitos defenderam e elogiaram aquilo. Juraram que aquilo era bom. Que aquilo ia ser melhor
para todos. Que esperavam aquilo faz tempo.
Que aquilo era importante, bonito e precioso.
Alguém decidiu acabar com aquilo de qualquer jeito.
Mas outro alguém disse não! E foi correndo esconder aquilo devagarinho no fundo do coração.

Caro leitor: aquilo pode ser muitas coisas.
Se sentir vontade, pegue um lápis e uma folha de papel e escreva sobre aquilo: diga, em sua opinião e em seu sentimento, o que é aquilo, como é aquilo, o que aquilo faz, de onde aquilo veio, para onde aquilo vai e que sentido, afinal, aquilo tem. Se quiser, desenhe aquilo também.

Conto de Ricardo Azevedo, extraído do livro Se Eu Fosse Aquilo...· (publicado pela Editora Ática), ilustrado por Mauro Nakata

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domingo, 8 de novembro de 2009

O Negro Bonifácio


(À querida amiga Lu, que gosta do sotaque e dos causos.)

Se o negro era maleva? Cruz! Era um condenado!... mas, taura, isso era, também!
Quando houve a carreira grande, do picaço do major Terêncio e o tordilho do Nadico (filho do Antunes gordo, um que era rengo), quando houve a carreira, digo, foi que o negro mostrou mesmo pra o que prestava...; mas foi caipora.

Escuite.

A Tudinha era a chinoca mais candongueira que havia por aqueles pagos. Um cajetilha da cidade duma vez que a viu botou-lhe uns versos mui lindos - pro caso - que tinha um que dizia que ela era uma chinoca airosa lindaça como o sol, fresca como uma rosa!...

E o sujeito quis retouçar, porém ela negou-lhe o estribo, porque já trazia mais de quatro pelo beiço, que eram dali, da querência, e aquele tal dos versos era teatino...

Alta e delgada, parecia assim um jerivá ainda novinho, quando balança a copa verde tocada de leve por um vento pouco, da tarde. Tinha os pés pequenos e as mãos mui bem torneadas; cabelo cacheado, as sobrancelhas finas, nariz alinhado.

Mas o rebenqueador, o rebenqueador..., eram os olhos!...

Os olhos da Tudinha eram assim a modo olhos de veado-virá, assustado: pretos, grandes, com luz dentro, tímidos e ao mesmo tempo haraganos... pareciam olhos que estavam sempre ouvindo.., ouvindo mais, que vendo...

Face cor de pêssego maduro; os dentes brancos e lustrosos como dente de cachorro novo; e os lábios da morocha deviam ser macios como treval, doces como mirim, frescos como polpa de guabiju...

E apesar de arisca, era foliona e embuçalava um cristão, pelo só falar, tão cativo...

No mais, buenaça, sem entono; e tinha de que, porque corria à boca pequena que ela era filha do capitão Pereirinha, estancieiro, que só ali, nos Guarás, tinha mais de não sei quantas léguas de campo de lei, povoado, O certo é que o posto em que ela morava com a mãe, a sia Fermina, era um mimo; tinha de um tudo: lavoura, boa cacimba, um rodeíto manso; e a Tudinha tinha cavalo amilhado, só do andar dela, e alguma prata nos preparos.

Parecenças, isso, tinha, e não pouco, com a gente do capitão...

O velho, às vezes, ia por lá, sestear, tomar um chimarrão...

Pois para a carreira essa, tinha acudido um povaréu imenso.

E ela veio, também, com a velha. Velha, é um dizer, porque a sia Fermina ainda fazia um fachadão...

E deu o caso que os quatro embeiçados também vieram, e um, o mais de todos, era o Nadico.

E sem ninguém esperar, também apareceu o negro Bonifácio.

É assim que o diabo as arma...

Escuite.

O negro não vinha por ela, não; antes mais por farrear, jogar e beber: ele era um perdidaço pela cachaça e pelo truco e pela taba.

E bem montado, vinha, num bagual lobuno rabicano, de machinhos altos, peito de pomba e orelhas finas, de tesoura; mui bem tosado a meio cogotilho, e de cola atada, em três tranças, bem alto, onde canta o galo!...

E na garupa, mui refestelada, trazia uma chirua, com ar de querendona...

Eta! negro pachola!

De chapéu de aba larga, botado no cocuruto da cabeça e preso num barbicacho de borlas morrudas, passado pelo nariz; no pescoço um lenço colorado, com o nó republicano; na cintura um tirador de couro de lontra debruado de tafetá azul e mais cheio de cortados do que manchas tem um boi salino!
E na cintura, atravessado com entono, um facão de três palmos, de conta.

Na pabulagem, andava sozinho: quando falava, era alto e grosso e sem olhar para ninguém.

Era um governo, o negro!

Ora bem; depois de se mostrar um pouco, o negro apeou a chirua e já meio entropigaitado começou a pastorejar a Tudinha... e tirando-se dos seus cuidados encostou o cavalo rente no dela e aí no mais, sem um - Deus te salve! -sacudiu-lhe um envite para uma paradita na carreira grande. A piguancha relanceou os seus olhos de veado assustado e não se deu por achada; ele repetiu o convite da aposta e ela então - depois explicou - de puro medo aceitou, devendo ganhar uma libra de doces, se ganhasse o tordilho. O tordilho era o do Nadico.

Ficou fechado o trato.

O negro - era ginetaço! - deu de rédea no lobuno, que virou direito, nos dois pés, e já lhe cravou as chilenas, grandes como um pires, e saiu escaramuçando, meio ladeado!
Os quatro brancos se olharam… o Nadico estava esverdeado, como defunto passado...

A Tudinha pegou logo a caturritar, e a cousa foi passando, como esquecida.

Mas, quê!... o negro estava jurado...

Escuite.

Entraram na cancha os parelheiros, todos dois pisando na ponta do casco, mui bem compostos e lindos, de se lavar com um bochecho d'água.

Fizeram as partidas; largaram; correram: ganhou, de fiador, o do Nadico, o tordilho.

Depois rompeu um vozerio, a gente desparramou-se, parecia um formigueiro desmanchado; as parcerias se juntaram, uns pagavam, outros questionavam.... mas tudo se foi arreglando em ordem, porque ninguém foi capaz de apontar mau jogo.

E foi-se tomar um vinho que os donos da carreira ofereceram, como gaúchos de alma grande, principalmente o major Terêncio, que era o perdedor.

E a Tudinha lá foi, de charola.

No barulho das saúdes e das caçoadas, quando todos se divertiam, foi que apareceu aquele negro excomungado, para aguar o pagode. Esbarrou o cavalo na frente do boliche; trazia na mão um lenço de sequilhos, que estendeu a Tudinha: havia perdido, pagava...

A morocha parou em meio um riso que estava rindo e firmou nele uns olhos atravessados, esquisitos, olhos como pra gente que já os conhecesse.., e como sentiu que o caso estava malparado, para evitar o desaguisado, disse:

- Faz favor de entregar à mamãe, sim?!...

O negro arreganhou os beiços, mostrando as canjicas, num pouco caso e repostou:- Ora, misturada!..., eu sou teu negro, de cambão!... mas não piá da china velha! Toma! E estendeu-lhe o braço, oferecendo o atado dos doces.

Aqui, o Nadico manoteou e no soflagrante sopesou a trouxinha e sampou com ela na cara do muçum.

Amigo! Virge' nossa senhora!

Num pensamento o negro boleou a perna, descascou o facão e se veio!...

O lobuno refugou, bufando.

Que peleia mais linda!

Vinte ferros faiscaram; era o Nadico, eram os outros namorados da Tudinha e eram outros que tinham contas a ajustar com aquele tição atrevido.

Perto do negro Bonifácio, sentado sobre um barril, sem ter nada que ver no angu, estava um paisano tocando viola: o negro - pra fazer boca, o malvado! - largou-lhe um revés, tão bem puxado, que atorou os dedos do coitado e o encordoamento e afundou o tampo do estrumento!...

Fechou o salseiro.

O Nadico mandou a adaga e atravessou a pelanca do pescoço do negro, roçando na veia artéria; o major tocou-lhe fogo, de pistola, indo a bala, de refilão, lanhar-lhe uma perna.., o ventana quadrava o corpo, e rebatia os talhos e pontaços que lhe meneavam sem pena.

E calado, estava; só se via no carão preto o branco dos olhos, fuzilando...

Ai!...

Foi um grito doido da Tudinha... e já se viu o Nadico testavilhar e cair, aberto na barriga, com a buchada de fora, golfando sangue!...

No meio do silêncio que se fez, o negro ainda gritou:- Come agora os meus sobejos!…Depois, roncou, tal e qual como um porco acuado... e então, foi uma cousa bárbara!...

Em quatro paletadas, desmunhecando uns, cortando outros, esgaravatando outros, enquanto o diabo esfrega o olho, o chão ficou estivado de gente estropiada, espirrando a sangueira naquele reduto.

É verdade também que ele estava todo esfuracado: a cara, os braços, a camisa, o tirador, as pernas, tinham mais lanhos que a picanha de um reiúno empacador: mas não quebrava o corincho, o trabuzana! Aquilo seria por obra dalguma oração forte, que ele tinha, cosida no corpo.

A esse tempo, era tudo um alarido pelo acampamento; de todos os lados chovia gente no lugar da briga.

A Tudinha, agarrada ao Nadico, com a cabeça pousando-lhe no colo, beijando-lhe ela os olhos embaciados e a boca já morrente, ali, naquela hora braba, à vista de todo o mundo e dos outros seus namorados, que se esvaíam, sem um consolo nem das suas mãos nem das suas lágrimas, a Tudinha mostrava mesmo que o seu camote preferido era aquele, que primeiro desfeiteou e cortou o negro, por causa dela...

Foi então que um gaúcho gadelhudo, mui alto, canhoto, desprendeu da cintura as boleadeiras e fê-las roncar por cima da cabeça… e quando ia a soltá-las, zunindo, com força pra rebentar as costelas dum boi manso, e que o negro estava cocando o tiro, de facão pronto pra cortar as sogas... nesse mesmo momento e instante a velha Fermina entrou na roda, e ligeira como um gato, varejou no Bonifácio uma chocolateira de água fervendo, que trazia na mão, do chimarrão que estava chupando...

O negro urrou como um touro na capa...; a rumo no mais avançou o braço, e fincou e suspendeu, levantou a velha, estorcendo-se, atravessada no facão até o esse...; ao mesmo tempo, mandado por pulso de homem um bolaço cantou-lhe no tampo da cabeça e logo outro, no costilhar, e o negro caiu, como boi desnucado, de boca aberta, a língua pontuda, mexendo em tremura uma perna, onde a roseta da chilena unia, miúdo...

Patrício, escuite!

Vi então o que é uma mulher rabiosa...: não há maneia nem buçal que sujeite: é pior que homem!...

A Tudinha já não chorava, não; entre o Nadico, morto, e a velha Fermina estrebuchando, a morocha mais linda que tenho visto, saltou em cima do Bonifácio, tirou-lhe da mão sem força o facão e vazou os olhos do negro, retalhou-lhe a cara, de ponta e de corte... e por fim, espumando e rindo-se, desatinada - bonita, sempre! - ajoelhou-se ao lado do corpo e pegando o facão como quem finca uma estaca, tateou no negro sobre a bexiga, pra baixo um pouco - vancê compreende?... - e uma, duas, dez, vinte, cinqüenta vezes cravou o ferro afiado, como quem espicaça uma cruzeira numa toca... como quem quer estraçalhar uma causa nojenta... como quem quer reduzir a miangos uma prenda que foi querida e na hora é odiada!...

Em roda, a gauchada mirava, de sobrancelhas rugadas, porém quieta: ninguém apadrinhou o defunto.

Nisto um sujeito que vinha a meia rédea sofrenou o cavalo quase em cima da gente: era o juiz de paz.

Mais tarde vim a saber que o negro Bonifácio fora o primeiro a... a amanonsiar a Tudinha; que ao depois tomara novos amores com outra fulana, uma piguancha de cara chata, beiçuda; e que naquele dia, para se mostrar, trouxera na garupa a novata, às carreiras, só de pirraça, para encanzinar, para tourear a Tudinha, que bem viu, e que apesar dos arrastados de asa daquela moçada e sobretudo do Nadico, que já a convidara para se acolherar com ele, sentira-se picada, agoniada da desfeita que só ela e o negro entendiam bem...; por isso é que ela ficou como cobra que perdeu o veneno...

Escuite.

Até hoje me intriga, isto: como uma morena, tão linda, entregou-se a um negro, tão feio?...

Seria de medo, por ele ser mau?... Seria por bobice de inocente?... Por ele ser forçudo e ela, franzina?... Seria por...

Que, de qualquer forma, ela vingou-se, isso, vingou-se...; mas o resto que ela fez no corpo do negro? Foi como um perdão pedido ao Nadico ou um despique tomado da outra, da piguancha beiçuda?...

Ah! mulheres!...

Estancieiras ou peonas, é tudo a mesma cousa... tudo é bicho caborteiro...; a mais santinha tem mais malícia que um sorro velho!...
De João Simões Lopes Neto em Contos Gauchescos
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domingo, 1 de novembro de 2009

“Siá” Olímpia

Siá Olímpia era uma mulher misteriosa.

Talvez menos para nossos pais, já mais vividos e conhecedores do mundo, mas para nós, pirralhos, cujo mundo se limitava ao café da manhã com ovo frito, revirado de feijão e um dia inteiro de muito mato pela frente.

Encontrar amoras maduras, guabirobas, era a nossa missão. Empanturráva-mos de frutas, mas sempre guardáva-mos a maior e mais bonita para levar para a mãe.

Siá Olímpia chegava sem avisar, vinda não se sabe de onde. Simplesmente chegava e se estabelecia.

Miúda, carregava pouco. Um ou dois sacos surrados com poucos pertences dentro; uma muda de roupa invariavelmente preta como a que vestia e ervas colhidas no caminho para fazer chá para qualquer cura, desde lombrigas a mau olhado.

De fala mansa, com leve sotaque lusitano, junto com as ervas para os chás, trazia rezas e benzas. Dizia ter aprendido com um tal de “Jujo Idéia!”.

(Um parêntese: já agora, conversando com um casal de idosos do lado catarinense do rio Uruguai, numa pesquisa de campo para a história dos balseiros, ouvi novamente referência à Jujo Idéia. Não consigo ainda entender bem, pois há uma mistura nos relatos simples, de fatos históricos que envolvem Jesus Cristo, Dom Sebastião e o Espírito Santo, e João (ou José) Maria, líder dos caboclos pobres na guerra do Contestado).

Voltemos ao relato...

Siá Olímpia falava de João Maria e Jujo Idéia como se reverenciasse um santo. (Seria ele o mesmo da guerra do Contestado?).

Ela ficava dias lá em casa. Às vezes meses. Ajudava a mãe nas fainas domésticas, buscava água, escolhia feijão, lavava roupas... e depois se ia, tão misteriosamente quanto chegara.

Quando o pai comprou um rádio, um dos primeiros da região, (Scala... do tamanho de uma vitrola que vocês, os mais antigos, conhecem) a família e alguns vizinhos se reuniam na noite de domingo, para ouvir o “Grande Rodeio Coringa” transmitido pela Rádio Farroupilha, de Porto Alegre.

Depois desse programa tinha uma novela radiofônica.

Os vizinhos penetras eram incentivados a irem embora por causa da roça no mato, e nós, pequenos, com chineladas a ir para a cama.

Ficavam lá os adultos, pai, mãe e Siá Olímpia a escutar a rádio-novela. Mas o cansaço e o sono abatiam Siá Olímpia ainda no meio do enredo. A mãe então a acordava e a levava para a cama.

No dia seguinte, curiosa, ela perguntava sobre as duas únicas possibilidades de final da novela:

- Casou ou morreu?...
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Sonhei com Siá Olímpia esta noite.
-0-

Numa tarde, já distante no tempo, um tio, o João Pinto, ao passar por uma estrada poeirenta, encontrou-a morta encostada ao barranco.

Tinha ao seu lado o saco de ervas e vestia a roupa preta de sempre. Mortalha que carregara em vida.
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domingo, 25 de outubro de 2009

Aos “Meus Favoritos”

Coalvorecer”, “ato primeiro”, faço “projetos e idéias” de como poderia retribuir o carinho, a presença e o incentivo dos amigos.


Como uma “nova águia” renascida das escarpas, sobrevôo o dia cibernético que se desnuda.


Levo debaixo das “asas (de um louco?)” o "meu diário de bordo” para nele registrar “pedaços de mim”. Talvez um dia esses “fragmentos” possam me ajudar a desvendar “o x da questão” sobre os “laços do meu infinito”.


Ainda recoberto de “poeira estelar”, cheio de “feitiço” e magia, vejo do alto, refletida no mar de “águas cristalinas”, “uns olhos” onipresentes a me observar.


Henke” pese meu recente despertar, tento ficar alerta no meu “posto de sentinela” espacial para não perder nenhum “retalho”. Assumi o compromisso de registrá-los, e se não o faço periodicamente, haverão de dizer que tomei “chá de sumiço”...


Vago sobre o velho continente. Reconheço a velha catedral e recebo o olhar enigmático “da Mona Lisa” como a perguntar por onde andei. Ouço um fado, “música sob medida”, vinda da “Travessa do Ferreira” que realimenta e aviva a minha “alma lusa”. E penso: “virinha” a calhar um bom tinto do Porto!


Só então me recolho ao meu canto, repleto de “encantos e desencantos”, meu “refúgio”, e rabisco, numa “linguagem e afins” as minhas modestas e despretensiosas “letras da torre”.
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domingo, 18 de outubro de 2009

O que é indisciplina?

Hoje é um dia especial, diferente.

Temos uma hora a menos do dia no Brasil.

Temos a volta da amiga Krika ao Blog, ela que por motivos de atribulações em seu trabalho, esteve por algumas postagens ausente. Bom retorno, amiga. O texto abaixo foi enviado à Torre na véspera do dia dedicado em homenagem aos professores. Vai aqui, então, com um pouco de atraso. Ele também está publicado em seu Blog "Linguagem e Afins".
E por último, a Torre homenageia a querida Marta, presença frequente por aqui e que no sábado, 17, colou mais uma estrelinha em sua vida luminosa.

Muitas felicidades, querida.

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O HÁBITO SAUDÁVEL DA LEITURA E DA REFLEXÃO


Amanhã é o dia do professor. Além dos vitoriosos parabéns, deixo aqui minha opinião em relação à reportagem da Revista Nova Escola deste mês: “ O que é indisciplina?”

A matéria em questão, autoria de Beatriz Vichessi, é bem pertinente. Aproveitando o “gancho”, penso em algumas questões, do outro lado, ou até refazendo perguntas em cima das que ela citou.

Sem dúvida a adequação das estratégias de ensino e falta de conhecimento sobre o tema é grave. Creio que isso já está sendo debatido, pois a formação pedagógica de estudantes que escolhem esta área, dos últimos tempos, é bem duvidosa. Haja vista o número crescente de cursos à distância, inclusive na internet, que surgiram. Hoje é comum dizer que tal curso tem aulas “presenciais”. Não vou enveredar neste item, pois o assunto é indisciplina.

Realmente a garotada entra na classe e coloca até o ventilador do teto em rotação contrária. Trabalho em escola pública e creio que a questão primordial é a de resgatar valores, e inclusive, preservar o patrimônio público. Porém, convenhamos e eis minha primeira pergunta: Qual aluno deseja que o seu professor fale de regras? Promover uns “combinados” com eles? Dar liberdade para que elaborem uma lista de atividades de literatura?

Solicitar que, em grupo façam uma produção de texto sobre um tema? Promover debates sobre um filme interessante, que eles assistiram na famosa sala de vídeo? Imagina, eles só desejam fazer bagunça e destruir o DVD!

Aqui em Minas Gerais, temos os dias escolares marcados em calendário escolar, para que os pais e alunos se reúnam com os professores e funcionários da escola, justamente para elaborarem democraticamente estas, entre outros assuntos importantes da vida escolar. Se há democracia e se há consenso de idéias por parte da direção da escola? Eu vejo que sim. Faço questão de observar as reações dos pais, nestas oportunidades. A velha balança pende pro lado que você representa, ou seja: o professor diz que a formação de valores é feita em casa e os pais dizem que a escola é responsável pela educação. Notaram a diferença? Formação de valores e educação escolar não tem aspectos diferentes? No meu vocabulário tem.

Formação de valores se traz da família e educação escolar busca-se na entidade escolar, através do ensino e aprendizagem. Esta é responsabilidade do professor: ensinar e proporcionar uma bagagem cultural adequada. Claro! Precisam andar juntas! È fato! Professores e pais são responsáveis, pela educação dos jovens.

Se você solicita gentilmente disciplina em suas aulas e seus alunos não correspondem, após as inovações de estratégia adequadas de motivação, com textos de assuntos do universo deles, (inclusive) o que fazer?

Tenho a oportunidade de fazer um trabalho diversificado, pois estou colaborando na escola, com a turma de Tempo Integral. São alunos privilegiados, que diariamente preciso resgatar tudo do dia anterior. Eles são defasados e apresentam dificuldades na sala regular. Inclusive, é proibido repetir as aulas do professor. Então, através das atividades artísticas tenho levado a linguagem para “pintar o sete”. Pensam que é fácil distribuir pincéis e tintas para 20 alunos? Se você vira as costas para um, este já dá um jeito de quebrar o pincel ou derrubar a tinta no chão ou no colega próximo. Pelo que li, meu procedimento é o de não dar bronca, não falar alto, não desrespeitar o aluno. Pergunto: quando o aluno deve respeitar- me? Quando ele vai entender que o projeto existe para o bem dele? E que aquele material que o governo “deu” é para usufruirmos de forma positiva? Alguns dizem: “não vou fazer esta atividade, a não ser que eu possa levar para casa.” O que eu digo? Sorrio e digo, olha meu bem... Faça se você quiser...

Não está faltando aí o valor familiar? A intervenção dos pais? Porque somente eu devo respeitá-los? Não é uma via de mão dupla? Já faz tempo que a escola precisa dos pais e que os pais precisam dos professores. Isto não é novidade. Também não é novidade que o respeito mútuo é primordial.

Quanto à falta de autoridade do professor na classe: se ele diz que vai mandar o aluno pra diretoria, está equivocado. Porém, se ele toma uma decisão com seu aluno, dentro dos padrões de consenso, esta decisão deve acatada e respeitada por todos. Ocorre, às vezes, que diante dos pais,a direção pende pro lado dos pais e o professor fica sem autoridade, embaraçado e ofendido.

Também, não vejo erro, quando, se tiver oportunidade, chamar alguém da diretoria ou secretaria, ou supervisão para fazer uma visitinha em sua aula, naquele momento de indisciplina. Que tal o recurso da frase estimuladora: “Olha, diretor, nosso trabalho de artes, não ficaria mais “fera” (palavra do vocabulário deles) se todos colaborassem? Poxa, poderíamos fazer muito mais, não acham?

Regras morais: Hoje se um colega vê uma intervenção destruidora de outro colega, e delata, está jurado até de morte na rua... As ofensas e promessas são feitas ali, na frente de qualquer pessoa. Estes jovens estudantes destemidos ainda dizem para você, que frequentam a escola por que eles têm direitos e os pais recebem bolsa escola. Acreditam? Pergunto: onde estão os deveres destes supostos necessitados de escola pública? Obviamente, para este fim, eles lêem e interpretam a lei direitinho, que obriga (com imposições equivocadas, que tal exigir aprendizagem razoável?) sua frequência diária.

Quanto a este trecho: “Falta sensibilidade moral aos professores que tiram sarro do aluno, uma situação, infelizmente, bem comum.” Sei que existem estas situações, porem vou refazer a afirmativa: Falta sensibilidade moral aos alunos que tiram sarro do professor, uma situação, infelizmente, bem comum.

Acredito no resgate dos valores e virtudes, afinal, fui educada a dar valor e agradecer, principalmente a Deus, pelas minhas conquistas, tanto que elaborei um pequeno projeto chamado “Pequenas Ternuras”. Confesso que às vezes tenho vontade de chorar, pelo fracasso, na prática. Também me questiono, reflito e ainda busco novos caminhos. Incentivar e respeitar a autonomia do aluno, sim, mas desde que eles também cumpram sua parte.

Nós todos temos direitos, mas não podemos jamais, esquecer nossos deveres.
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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Aparecida



História da Nossa Senhora Aparecida


(Em memória do meu pai, seu devoto).

Há duas fontes sobre o achado da imagem, que se encontram no Arquivo da Cúria Metropolitana de Aparecida (anterior a 1743) e no Arquivo Romano da Companhia de Jesus, em Roma. A história foi primeiramente registrada pelo Padre José Alves Vilela em 1743 e pelo Padre João de Morais e Aguiar em 1757, registro que se encontra no Primeiro Livro de Tombo da Paróquia de Santo Antônio de Guaratinguetá.

A Pescaria Milagrosa

A sua história tem o seu início em meados de 1717, quando chegou a Guaratinguetá a notícia de que o conde de Assumar, D. Pedro de Almeida e Portugal, governador da então Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, iria passar pela povoação a caminho de Vila Rica (atual cidade de Ouro Preto), em Minas Gerais.

Desejosos de obsequiá-lo com o melhor pescado que obtivessem, os pescadores Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves lançaram as suas redes no rio Paraíba do Sul. Depois de muitas tentativas infrutíferas, descendo o curso do rio chegaram a Porto Itaguaçu, a 12 de outubro. Já sem esperança, João Alves lançou a sua rede nas águas e apanhou o corpo de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição sem a cabeça. Em nova tentativa apanhou a cabeça da imagem. Envolveram o achado em um lenço. Daí em diante, os peixes chegaram em abundância para os três humildes pescadores.

Início da Devoção

Durante quinze anos a imagem permaneceu na residência de Filipe Pedroso, onde as pessoas da vizinhança se reuniam para orar. A devoção foi crescendo entre o povo da região e muitas graças foram alcançadas por aqueles que oravam diante da imagem. A fama dos poderes extraordinários de Nossa Senhora foi se espalhando pelas regiões do Brasil. Diversas vezes as pessoas que à noite faziam diante dela as suas orações, viam luzes de repente apagadas e depois de um pouco reacendidas sem nenhuma intervenção humana. Logo, já não eram somente os pescadores os que vinham rezar diante da imagem, mas também muitas outras pessoas das vizinhanças. A família construiu um oratório no Porto de Itaguaçu, que logo se mostrou pequeno.

Basílica de Nossa Senhora Aparecida

A Basílica de Nossa Senhora Aparecida, também conhecido como Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, fica localizada na cidade de Aparecida, no interior do Estado de São Paulo, Brasil. É o terceiro maior templo católico do mundo. Foi inaugurada em 4 de julho de 1980 quando João Paulo II visitou o Brasil pela primeira vez. Em outra de suas visitas, passando por Aparecida, abençoou o Santuário e, em 1984, a CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, elevou a Nova Basílica a Santuário Nacional. Localiza-se no centro da cidade, tendo como acesso a “Passarela da Fé”, que liga a basílica atual com a antiga, ambas visitadas por romeiros.
Nossa Senhora


A imagem retirada das águas do rio Paraíba em 1717, é de terracota e mede quarenta centímetros de altura. Em estilo seiscentista, como atestado por diversos especialistas que a analisaram (Dr. Pedro de Oliveira Ribeiro Neto, os monges beneditinos do Mosteiro de São Salvador, na Bahia, Dom Clemente da Silva-Nigra e Dom Paulo Lachenmayer), acredita-se que originalmente apresentaria uma policromia, como era costume à época, embora não haja documentação que o comprove. A argila utilizada para a confecção da imagem é oriunda da região de Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo. Quando foi recolhida pelos pescadores, o corpo estava separado da cabeça e, muito provavelmente, sem a policromia original, devido ao período em que esteve submersa nas águas do rio.

A cor de canela com que se apresenta hoje deve-se à exposição secular à fuligem produzida pelas chamas das velas, lamparinas e candeeiros, acesas pelos seus devotos.
Em 1978, após sofrer um atentado que a reduziu a quase duzentos fragmentos, foi encaminhada ao Prof. Pietro Maria Bardi (à época diretor do Museu de Arte de São Paulo (MASP), que a examinou, juntamente com o dr. João Marinho, colecionador de imagens sacras brasileiras. Foi então totalmente restaurada, no MASP, pelas mãos da artista plástica Maria Helena Chartuni.
Embora não seja possível determinar o autor ou a data da confecção da imagem, através de estudos comparativos concluiu-se que ela pode ser atribuída a um discípulo do monge beneditino frei Agostinho da Piedade, ou, segundo Silva-Nigra e Lachenmayer, a um do seu irmão de Ordem, frei Agostinho de Jesus. Apontam para esses mestres as seguintes características:
- forma sorridente dos lábios;
- queixo encastoado, tendo, ao centro, uma covinha;
- penteado e flores nos cabelos em relevo;
- broche de três pérolas na testa; e
- porte corporal empinado para trás.
Aparecida

Aparecida é um município brasileiro do estado de São Paulo, na microrregião de Guaratinguetá. Sua população estimada em 2004 era de 35.754 habitantes. Possui uma área de 120,9 km² e uma densidade demográfica de 294,92 hab/km².


História

Seu território era pertencente a Guaratinguetá, até que no dia 17 de dezembro de 1928, dado o significado popular da figura da Nossa Senhora da Conceição Aparecida (Padroeira do Brasil), foi fundado o município de Aparecida. Ela foi feita em homenagem a imagem de Aparecida que foi descoberta pelos pescadores Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves.
Fonte: Textos e imagens:

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domingo, 4 de outubro de 2009

No Espigão das Marrécas

A verde côma das arvores, mergulhada na tinta preta da noite, particularmente sob aquelle altaneiro tronco de peróba, onde acampáramos, ainda que o albor da aurora não tardasse muito, lembrava a monstruosa copa de gigantesco guarda-sol armado sobre nós. Havia, porém, um rasgo no panno e, pela fresta, a rutilar tremeluzindo, um brilhante solitario apparecia – a estrella-d`alva.


Ainda na rede, mas já acordado, como de costume, áquella hora matinal, eu tirava uma linha do acampamento, por sob a ponta do cobertor erguido um poucochicho.

De um lado, o foguinho – espantalho das onças – conservado acceso noite inteira, crepitava manhoso, agonisante, morre-não-morre, vae-não-vae!

- Tio Noé, bate os tições.

Um clarão opalino, qual o da refração nas forjas, espantou, de subito, o negror das trevas. A claridade, á medida que o lume se animava, ia suplantando, aos poucos, a escuridão em torno.

Parecendo ter sido anesthesiado pela treva, a virgem – Natureza, depois de prolongado lethargo em seu thálamo de verdura, dava os primeiros signaes de volver á vida novamente.

Com os afagos da brisa e os beijos da aurora, seus seios tumidos arfavam de prazer. E Ella, movendo-se, acordava. A escuridão e o somno, symbolos da morte, fugiam espavoridos ao approximar-se o anjo da ressurreição, o mensageiro da vida, encadernado na bemfazeja e doce, na risonha, alegre e esperançosa luz da madrugada.

De formas macabras, esquisitas, qual bando de phantasmas noctivagos, tórtos e direitos, nús e pelludos de musgo, fininhos e grossões, curtos e compridos, altos e baixos, - assim se destacavam das trevas fugidias, surgindo de perfil, de frente e por de trás, os troncos das arvores abatidos pelo clarão do fogo, então reanimado e vivo.

Pouco depois, as três notas agudas, sonoras e compassadas do piar do macuco annunciavam o amanhecer de mais um dia de vida, nesta vida de lutar perenne!... vida amarga de soffrer infindo.!

Notei para logo que uma sombra de desanimo, possivel abatimento, ou um quê de tristeza, anuviava o semblante dos companheiros, de ordinario tão expressivos e joviaes entre si, no viver familiar de cada dia.

Que seria ?! – interroguei-me.

Só a duvida, conclui, a incerteza de alcançar o ponto almejado, tão pertinazmente procurado havia dois longos meses de tremendo labutar por aquelle interminavel espigão, todo cheio de crócas e zigue-sagues sem fim, sobrepondo-lhe, como agravante, a falta de bóia, - seriam capazes de produzir abatimento de animo em homens daquella tempera – o aço batido verga, mas não quebra, - affeitos aos tão rudes quão penosos trabalhos de exploração nas matas.

Pallidos, rostos macilentos, orbitas encovadas devido a série de privações soffridas, cabelleira hirsuta e revolta, cobertos de andrajos, ali estavam elles, emquanto a panella fervia, num circulo, junto ao fogo. Um de pé, outros de cócoras, mas todos em completo silencio, - bussola que norteia os movimentos da alma no encapellado mar da vida – esperavam, pacientemente, sem proferir um queixume, uma palavra, sequer, de revolta, que o dia clareasse de todo, para reencetar a lide quotidiana.

Eram, na verdade, um pugilo de intrepidos heróes dos sertões; porque, se os ha no campo de batalha, empunhando a espada sob o fogo da metralha e o ribombar dos canhões, na defeza dos altos ideaes da Patria e da Humanidade, tambem os ha, posto que obscuros e humildes, por esses sertões adentro, na ingloria conquista do sólo patrio para os grandes da terra. Mas como é essa a ordem commum das coisas da vida, neste ingrato mundo dos mortaes, é contentar-se a gente com o rigor da sorte.
Demais, sendo facto inegavel que todo individuo vem á arena da vida para um fim certo e determinado pelo Creador Supremo, devem, portanto, se considerar mui felizes aquelles que, no desempenho de sua missão terrena, não só colhem alguns frutos dos seus esforços e se nobilitam, mas tambem são uteis á Patria e aos seus concidãos.

Taes foram as reflexões que me vieram ao espirito, identificando-me com o pessoal que compunha minha turma, naquella manhã.

Calado, recebe cada um o seu bocado, pondo-se a devorar, ávidamente, com fome já de dois dias, uma pouca de sôpa de coqueiro – oh! arvore bemdita!... – pintalgada por uns grãozinhos de feijão que sobrenadavam, esparços, aqui e acolá, no meio do caldo, como naufragos perdidos num pélago revolto.

- De tudo que num posso me ageitá é um isto, gente! Só arranjãno úa rede de tarráfa pra pescá estes feijão – disse, em tom de gracejo, um rapazóla.

- E é tomá o gôsto pra certa, proque é o derradêro cozinhadinho que tava no canto do sacco – observou-lhe o cozinheiro.

- É mêmo pras divéra, Chefe? Num me conte o resto!

E acrescentou:
- Logo aqui, neste arto de serra, onde nem macaco se tópa! Desta feita, levo quem trôxe: tãmo no mato sem cachorro!...


- Sem cachorro e sem gato! – emendou o outro dando uma risadinha de troça.

E continuaram a commentar nesse diapasão, a seu modo, o tragicomico da angustiosa situação que, de resto, no momento, não era mesmo lá das muito agradaveis.

Eram chegados os dias das “vaccas magras”!...Tinhamos pela frente este ultimo dilemma: - vencer, não obstante todos os obices, ou morrer.
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Trechos do Livro "Na Trilha do Grillo (... Através das Selvas), de Horácio Nogueira publicado em 1927 pelos Irmãos Ferraz - Editores, e que estou redigitando pacientemente nas horas vagas, cuidando para manter a ortografia original, tarefa nada fácil, visto o meu costume de grafar as palavras automaticamente segundo a ortografia atual.


Alguém poderia perguntar: e porque não o escaneia? Seria tão fácil!... Tentei. Mas como se trata de uma obra rara, antiga e de alto valor sentimental para a pessoa que a emprestou, temi danificá-la no processo.


Horácio Nogueira, pelo pouco que sei, foi um sertanista, desbravador dos sertões brasileiros, além de missionário cristão.


Sabemos da existência de um outro livro dele, cujo título é "O ÍNDIO PENHÁI". Envidamos os maiores esforços para encontrá-lo, infelizmente sem sucesso. Um sinal nos veio de Montevidéu, no Uruguai através de uma Editora de lá. No entanto temos razões para acreditar não ter a autenticidade necessária que buscamos, quanto aos termos e palavras usadas na época.


Apelamos a quem visita a Torre e que, por ventura saiba de alguém que o tenha, que entre em contato conosco. Asseguro que o livro será tão bem cuidado como cuido do "Na Trilha do Grillo" caso alguém se dispuser a emprestar-nos para a sua transcrição. Maiores informações sobre o autor também serão benvindas.


O objetivo é o de resgatar essa obra, antes que definitivamente se perca. E num segundo passo, quem sabe, disponibilizá-la em alguma biblioteca pública e gratuita como o Site "Domínio Público" que pode ser acessado através da coluna ao lado.
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