domingo, 19 de dezembro de 2010

Fechando a porta


Queridos amigos e amigas.

Desde o mês de setembro de 2008, quando por incentivo da Lu esta Torre foi erigida, e pelas mãos mágicas da Anne ganhou o layout que se mantém até hoje, procurei trazer a vocês e também descobrir com vocês, um pouco da cultura e do que se passava pelo mundo.

Através do Juca, personagem imaginário, espero ter levado ao conhecimento de mais gente um pouco da cultura, da história e das tradições do gaúcho.

Pude contar desde a lenda do boitatá até a história dos balseiros do rio Uruguai, pincelando, aqui e ali, a Guerra do Contestado e histórias pessoais, como a lembrança da Siá Olímpia e do tio, centroavante empalhado.

A querida amiga Cristina, a Krika, muito contribuiu em vários momentos com suas postagens de caráter pedagógico, educacional e artístico.

A Torre foi e é, para mim, sobretudo uma válvula por onde podia aliviar as pressões que se acumulavam durante o dia. Um espaço onde pude me arriscar nas letras. Letras, aliás, que procurei tratar com carinho e harmonizá-las de forma tal que ficassem agradáveis aos mais de trinta mil visitantes que me honraram. Sinceramente, espero ter conseguido.

Hoje a Torre se despede. Fechará suas portas.

Não sei ainda se será uma despedida definitiva. Espero que não.

Há momentos na vida da gente em que é preciso tomar decisões que, mesmo sem querer, acabam por respingar em atividades paralelas e que, mesmo que prazerosas, precisam ser sacrificadas.

É preciso sair da inércia, ir em busca dos sonhos sob pena de criamos limbo, como as pedras inertes dos rios.

Quando possível, e assim que as condições permitirem espero voltar.

Por hoje, deixo meus agradecimentos a todos os que prestigiaram este espaço, com visitas, comentários e críticas. Fiz muitos amigos aqui. Através daqui fiz muitos amigos e amigas na vida real.

Quero mantê-los, alargar e aprofundar essas amizades. É no coração de cada um de vocês que deposito a chave da Torre.

Feliz Natal e um novo ano de muita luz, saúde e felicidade a todos.
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Recebi da amiga Beta, a mensagem abaixo, que Juca quer apropriar-se para transformá-la na sua mensagem de Natal para todos os nossos amigos e amigas em comum.

Tchê,
numa dessas
tardes em que
o sol tava se indo
embora, e eu no meu
matear solito, comecei a pensar.
Estamos botando mais uma marca
na existência da vida. Então decidi que
deveria mandar uma tropilha de palavras
pra ti, assim, poderia dividir com meus amigos,
esses devaneios de saudades desse tempo que já se
foi, pois já estamos no fim dessa etapa chamada de 2010.
Nisso me lembrei dessa tal de INTERNETCHE, achei que
seria fácil, era só camperiar por alguns SITES e já de pronto
acharia o que estava por campear. Me deparei com muita coisa da
buena, mas nada daquilo que eu queria te dizer, pois descobri que não
havia ali as palavras puras que minha xucra alma sente para falar contigo. Por isso vivente te digo, com esse meu jeitão rude, que fiz tudo que pude.Pra te dizer o que minha alma sente, queria ter te encontrado todos os dias, ter te dito, buenos dias, buenas tarde, buenas noite e tudo mais, mas, talvez
nos vimos tão depressa, no afazer das nossas tarefas, que nem isso aconteceu,
pois o ano recém nasceu, e já está para acabar. Mas peço ao Tropeiro do Universo, sim,
Ele que tudo pode, que nos traga sentimentos nobres, de amor e amizade. Que tenhas lembranças boas, por tudo que te aconteceu. Que o Menino que nesta data nasceu, nos ilumine todos os dias. Que renasça a alegria, para quem à perdeu. Que se a caso não te aconteceu, tudo aquilo que queria. Que não percas a alegria, o entusiasmo e a coragem, avida é uma viagem, mas é nós que escolhemos
o caminho,
espere mais
um pouquinho,
e tudo vai
acontecer. Um novo ano
vai nascer,
deposite
nele tua
esperança,
quem espera
sempre alcança,
diz o velho ditado.
Então, te desejo parceiro(a), junto com tua gente, um Novo Ano maravilhoso, de conquistas, alegrias e realizações. Mas para que tudo aconteça, antes, se agarre na proteção do céu, agradecendo ao Pai Soberano,
pois assim a cada ano, será feliz o teu viver, e em cada amanhecer,Será como um NOVO ANO !!!Feliz Natal!!!
E um baaaaaaaita 2011!!!!

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domingo, 12 de dezembro de 2010

A cabeça de pedra



Eu sou um cara feliz. Mesmo nas adversidades, assim me considerava. Pelos lugares onde andei, sempre fiz e deixei muito mais amigos que desafetos. Posso afirmar, com orgulho, que, se eu precisar de um socorro em Bagé, São Luiz Gonzaga, Porto Alegre ou na linda Santa Cruz do Sul, tenho a quem recorrer. Assim como em Vacaria, Passo Fundo, Lagoa Vermelha, Guaporé, Putinga... E também em Santa Catarina, desde Dionísio Cerqueira até Balneário Camboriú.

Se não sou o que se possa chamar de um Cidadão do Mundo, o sou, pelo menos, de uma boa parte dele.

Foram anos e anos de trabalho em contato com esses lugares e pessoas. Quem já trabalhou com vendas externas sabe bem do que estou falando.

Uma nova dimensão de amizades abriu-se para mim através da Internet. Foi nesse ambiente que conheci, igualmente, pessoas maravilhosas, que, quando possível, fui visitar pessoalmente.

Foi o caso da Lu.

Quando, há cerca de três anos sofri um acidente grave que me reduziu a mobilidade e encerrou minha carreira de peregrino, Lu foi uma das pessoas que ficava conectada comigo nas madrugadas frias, quando os enormes parafusos que me implantaram na perna me impediam de dormir com um cobertor por cima.

Foram mais de dois anos, emendando os caquinhos de ossos, como num quebra-cabeça. Cirurgias sem conta.

Especialmente em uma delas, fiquei com medo de não voltar. Era mesmo de alto risco. Aí pensei... Deus do céu, se eu não sobreviver, meus amigos internéticos ficarão sem saber. Pensarão que os estou ignorando.

Então forneci a ela um número de telefone e uma data para ela ligar, com a recomendação de avisar os amigos do desfecho. Felizmente não foi preciso. Sobrevivi e entrei em contato com ela antes da data aprazada.

Mas ficou gravada entre nós essa cumplicidade, quase mórbida.

Quando me recuperei razoavelmente, fui visitá-la. Era o que, pensei, ser uma forma mínima de retribuir a sua amizade e as preocupações que certamente lhe causei.

É uma pessoa linda. De um caráter invejável. Um ser humano maravilhoso que se divide entre os cuidados com os filhos e o belo jardim que cultiva. E que, acima de tudo, ama.

Então, eis que, ela botou a minha cabeça lá, no jardim. De pedra. Ela diz que é um busto. Nem é. É uma cabeça que ela encontrou em um artesão do interior e que achou parecida comigo.

Sabedor que sou de seus cuidados com cada raminho de grama, com cada galinho de flor, com cada pedrinha de seu jardim, fico mesmo embevecido por estar lá, representado por uma cabeça de pedra.

Por isso repito: Sou mesmo uma pessoa feliz. Desconheço alguém que tivesse o privilégio de ter, em vida, sua imagem a dividir com as borboletas, os passarinhos e as flores, um lugar tão lindo, tão cuidado e tão especial.

Comovente, Lu.


Gente, é a minha cara.

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sábado, 4 de dezembro de 2010

Censos & Contrassensos*



Descobri, consternado, que não existo.

Não!... Não é uma reedição do “Buraco Negro” que escrevi aqui há alguns anos.

Talvez aquele texto tenha sido um prenúncio, uma antecipação do que viria acontecer.

Hoje constato que não existo oficialmente. No “Buraco Negro” era uma inexistência metafórica. Agora ela é real e definitiva. Não existo na minha casa, na minha rua, no meu bairro, na minha cidade, no meu país, na minha terra, no meu universo. Simplesmente não existo.

Não fui contado pelo IBGE.

O mundo não sabe se tenho geladeira, banheiro ou urinol. Nem se a torre em que vivo é própria, já quitada, ou se é do Abade.

Não sabe se os meus dejetos escorrem por encanamentos, pelo meio fio da calçada ou se são simplesmente jogados pela janela. (“Vai água” diriam os portugueses de antanho.)

O mundo ignora quantas refeições diárias eu faço, ou o que como no almoço, ou se requento as sobras da marmitinha para a janta, nem de quanto é meu orçamento familiar. Informações de suma importância para as ações governamentais.

Publicaram que o Brasil tem 190.732.694 pessoas. Mentira. São, pelo menos, 190.732.695. Não me incluíram na contagem.

Desde que iniciou o censo eu vivi em sobressalto, esperando o moço ou a moça do computadorzinho. Até ensaiei e decorei as respostas: não senhor, eu vivo só ... não tenho cachorro nem gato, tenho um ratinho – o Bin, e uma pomba que todos os anos faz ninho na jabuticabeira. Chuveiro? Um só. Computador? Um K6 500 mhz, mas que está com o HD baleado.

E nada!...

Um dia me chamaram do portão. Pensei: é hoje!... Não foi. Eram as Testemunhas de Jeová que seguidamente aparecem para me trazer suas revistinhas, que, aliás, gosto de ler.

Outra vez apareceu uma moça trajando um jaleco azul com uma prancheta na mão. Fiquei feliz; agora vai! Vai nada. Era a moça da saúde. Veio à minha casa para contar os aegyptis. Sobre mim, nem pó.

Então, já que não existo, vou-me embora prá Mantiqueira.

*Contrassenso: grafia alterada pelo acordo ortográfico - contra-senso.
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domingo, 28 de novembro de 2010

A Guerra do Rio


O Brasil e o mundo assistem, estarrecidos, o que se passa no Rio de Janeiro.

Durante toda a semana os veículos de comunicação, especialmente os televisivos, transmitem alguns de forma ininterrupta, outros com intervenções pontuais e edições extraordinárias, a guerra que se passa em seus quintais.

Numa ação, ou melhor, reação, o estado brasileiro uniu suas forças de segurança para a retomada de territórios ocupados por traficantes e bandidos de toda a espécie.

Digo reação porque o que motivou essa operação foi o fato de os bandidos terem invadido o asfalto, incendiando carros e ônibus em protesto contra a transferência de um figurão do crime para uma penitenciária de segurança máxima no interior do Paraná.

Na minha modesta opinião essa afronta, combinada com outros fatores externos convergiram para, pela primeira vez e de forma inédita, com o perdão da redundância, colocar diversos órgãos do mesmo lado da trincheira.

Analisemos, pois.

Durante muito tempo, décadas até, o morro ficou abandonado pelo poder público. Gentes vindas de diversos lugares do Brasil em busca de uma vida melhor, expulsos de seus cantos por conta de revezes diversos, só encontraram os morros para erguerem seus barracos e abrigar os seus.

Áreas pertencentes ao estado foram ocupadas de forma irregular e clandestina e ergueram ali os seus precários abrigos, que só vieram à mídia quando a encosta desmoronava e soterrava pessoas. Era manchete com a certeza de vários pontos no Ibope para o veículo que mostrasse as imagens mais impactantes.

Os ecologistas, e com razão, apareciam e denunciavam a ocupação irregular e a destruição das matas que protegiam o morro. Mas eu pergunto o que faziam antes do morro desmoronar? Protegiam baleias e papagaios? Sou totalmente favorável a que os protejam contra a extinção. Mas sou muito mais favorável a que se proteja o ser humano contra a extinção, embora uma coisa esteja ligada à outra.

Os moradores, ou melhor, os sobreviventes, sabendo da sua situação de irregularidade, temem o estado. Vêm nele uma ameaça aos seus espaços duramente conquistados.

Numa análise psico-sociológica, área em que não me atrevo aprofundar, mas que ouso palpitar, essas gentes se sentem e assumem a sua condição de marginais. Estão à margem da lei.

Quebrada essa barreira moral, fica fácil a aceitação de uma autoridade que se impõe, igualmente consideradas marginais.

Pela ótica dos traficantes, essa situação é a ideal para estabelecerem-se nessas comunidades. A ausência do estado é suprida pela ação dos traficantes. São eles que fazem e executam as leis. São eles que socorrem os moradores, com pequenas atitudes, como o fornecimento de um botijão de gás, uma cesta básica para a família necessitada ou o socorro a uma criança doente.

Coisas que o estado não faz para eles, considerados à margem da sociedade.

Além desse aspecto sociológico, o morro é, estrategicamente, fundamental como base operacional. Dali se tem uma visão privilegiada do que se passa no asfalto lá embaixo. Dali se tem a visão da fuga, caso algo não der certo, como vimos na invasão da Cruzeiro.

E nesse ambiente, crescem as crianças.

Seus heróis não são os homens de farda. Seus heróis são aqueles que estão presentes ao seu lado. Por isso, numa reportagem de televisão, um menino, inquirido por uma repórter sobre o seu futuro, respondeu, sem pestanejar: “quero ser bandido!”. Garantia da continuidade dos quadros do crime.

Triste? Triste sim. Mas é a nossa realidade.

Agora precisamos analisar outro aspecto. Porque só agora agiram? Porque permitiram durante todo esse tempo que a população dos morros vivesse sob o domínio desse poder paralelo? Uma parte da questão, penso, foi respondida acima.

Agora o estado se move. Foi só pelos carros e ônibus incendiados? Penso que não. Já tivemos outros incidentes semelhantes no passado recente e as ações da polícia foram tópicas e ineficazes.

Temos hoje um quadro diferenciado. Politicamente diferenciado.

O Rio e o Brasil se preparam para receber os maiores eventos esportivos da terra. Os jogos olímpicos e a copa do mundo de futebol.

Os novos (novos?) governantes que ascenderam ao poder nas últimas eleições precisam mostrar ao mundo que, soberanamente dominam a situação. A área está limpa, no jargão militar. Coisa para inglês ver? Espero que não.

É preciso que o estado solidifique sua presença nessas comunidades reconquistadas para o Brasil, não só pelo meio militar e repressivo, mas principalmente com o desenvolvimento de políticas públicas que visem à inclusão social de seus habitantes: educação, saneamento, trabalho, saúde.

Eu não me engano, e não se enganem aqueles que pensam que o crime organizado foi desbaratado. O morro e a favela são apenas territorialmente uma zona de operações. Os (poucos) suspeitos presos nada mais são que soldados rasos de coisa muito maior.

Se quisermos verdadeiramente combater o crime, exterminar com ele é preciso atacar quem os sustenta. Gente que se abriga em palacetes e coberturas de luxo. Gente que se esconde atrás de um mandato, de uma toga ou de uma divisa.

Tenho dito.
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domingo, 21 de novembro de 2010

Gerineldo ou o Cusco do Juca


Compadre Juca, depois de uma longa e inexplicável ausência, finalmente apareceu.

Chegou à Torre, como sempre costuma chegar. Ao fim da tarde, carregando os baixeiros, as botas secas, cobertas de poeira vermelha, a mala de brim riscado de listras vermelhas, azuis e brancas, sobre o ombro direito.

Eu distraia-me a regar as pequenas mudas de gerânios que havia, dias antes, disposto de forma irregular, em vasos marrons na parede externa da torre.

Ao olhar para o horizonte, à oeste, assoviando a música “Entardecer”, deparei-me com o vulto a me observar, curioso, estático. Foi preciso colocar a mão sobre os olhos para reconhecê-lo, contra o sol que se despedia.

Então larguei o afazer e fui cumprimentá-lo. Ele estendeu-me a mão sem entusiasmo, olhos fixos nos gerânios, com indisfarçável esgar de reprovação.

Depois de alguns instantes, finalmente disse a frase costumeira, que esperava ouvir, mas desta vez sem entusiasmo:
- Buenas, cumpadre, vim prá pousar...

Notei imediatamente, pela entonação do cumprimento, que algo não ia bem.

Talvez o cansaço da viagem. Tentei animá-lo, e abracei-o efusivamente. – Que surpresa, compadre, há quanto tempo!... Vamos, vamos, passe prá diante!... Vou preparar o mate. Ainda tenho da erva que me trouxestes da última vez.

Ele deixou-se levar pela minha mão em seu ombro, olhando de soslaio para os gerânios como se fossem alguns animais de peçonha.

Lá dentro, como de costume, largou a mala a um canto e sentou-se no degrau da escada, enquanto eu retirava os apetrechos do armário para fazer o chimarrão. Com o canto do olho observei que ele não estava se sentindo à vontade. Bem, pensei, esclareço isso enquanto mateamos.

- Ainda sabe fazer mate, estrupício? - Rosnou de lá. É, pensei; algo não ia mesmo bem.

- Claro que sei, compadre. Um gaúcho nunca esquece. Mas por que da pergunta?

- Cumpadre tem andado esquisito nos últimos tempos.

(Eu? Esquisito? Na verdade sempre o fui, mas compadre Juca estava acostumado com isso.)

- Não estou lhe entendendo, compadre Juca. Continuo sendo o que sempre fui.

- Não. Desta feita é grave. Por primeiro fez campanha pruma china. Lugar de china é nos pelegos, dengueando seu homem, não nos gabinetes dos palácios.

Ah, começo a entender. Deve ser difícil para um homem como Juca, com a formação que teve, aceitar uma mulher no mais alto cargo da nação.

- Mas compadre, lá mesmo, no Rio Grande, teve a Ieda, uma mulher governadora.

- Pois então... Viu a bosta que deu?

Melhor não polemizar, pensei.

- E agora chego aqui e te acho acarinhando mato. Onde se viu? Te afrescalhastes? Se fosse ainda uma arve de serventia. Uma guabiroba, um guabiju, um araçá do campo...

Fiquei em silêncio e servi-lhe a cuia.

Sorveu do mate em silêncio, devagar, meditativo. Só ao me devolver a cuia retomou a palavra.

- Me adesculpe, cumpadre. Ando meio acabrunhado. Não foi pela mulher aquela que vim. Nem porque virastes fresco ou não. Tenho andado receoso com as tuas amizades. Me dá cuidado tuas prosas com aquele tal de Gilead. Não gostei do boi. Me dá gana.

- Mas que boi, vivente? Retorqui verdadeiramente surpreso.

- Aquele com nome de gente e sobrenome correntino. Onde se viu um boi macho se batizar de Gerineldo? Boi, lá em São Luis Gonzaga, no Alegrete, no Quaraí, é boi, e só!... Quando era de canga, até se permitia umas extravagâncias prá mode entender o comando da ranjeira. Mimoso, Vaqueano, Baíto. Mas qualquer boi fronteiriço se apinchava nas pedras do Salto Grande se fosse chamado de Gerineldo. De vergonha, cumpadre, de vergonha!...

Fiquei perplexo. Então o motivo de tanta indignação era, nada mais, nada menos que o nome dado pelo amigo Gilead à um terneiro Jersey de sua fazenda? Que coisa!...

- Compadre... É só um nome, compadre. Gilead é um amigo escritor. Ele poderia ter colocado qualquer nome. Tem ele o direito de homenagear quem quiser, colocando o nome em seus animais. Veja você compadre, não deu nome ao seu cavalo, seu cachorro...

-Êpa lá... Não misture as coisas. Não meta meu cusco nessa cachorrada. Além do mais ele é só Cusco. Não tem nome. Do outro lado da fronteira, as chinas chamam de “Cusco do Juca”, quando ele vai prá lá, negaciar as cadelinhas. A nado, cumpadre, a nado.

Tirou do bolso da bombacha uma fotografia amarelada pelo manuseio, e entregou-me com a recomendação:

- Mostre para esse teu amigo, cumpadre, o que é um bicho macho. E é só Cusco, cumpadre... Só Cusco.


Achei melhor não comentar. Disfarcei e fui virar a erva.


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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Proclamação da República



A própria forma pela qual em geral nos referimos aos eventos ocorridos em 15 de novembro de 1889 - a "Proclamação da República" - já incorpora algumas idéias importantes. Em primeiro lugar, a de que ocorreu uma "proclamação". Mas o que é "proclamar"?

É apenas anunciar publicamente algo - no caso, que a Monarquia fora substituída pela República. Logo surgem outras idéias, como a de que a República no Brasil teria sido algo inevitável, uma etapa necessária da "evolução" da sociedade brasileira. Mais ainda, podemos imaginar que o fácil sucesso do golpe de Estado - que, tecnicamente, foi o que aconteceu no 15 de Novembro- seria resultado de um consenso nacional, e que os militares, os principais protagonistas do movimento, teriam atuado de forma unida e coesa.

Não é essa a visão que hoje podemos ter desses fatos. Não havia uma maioria republicana no país e nem mesmo unidade entre os militares. De fato, apenas uma pequena fração do Exército, e com características muito específicas, esteve envolvida na conspiração republicana.

O golpe de 1889 foi um momento-chave no surgimento dos militares como protagonistas no cenário político brasileiro. A República então "proclamada" sempre esteve, em alguma medida, marcada por esse sinal de nascença (ou, para muitos, pecado original). Havia muitos republicanos civis no final do Império, mas eles estiveram praticamente ausentes da conspiração. O golpe republicano foi sem dúvida militar, em sua organização e execução. No entanto, ele foi fruto da ação de apenas alguns militares. Quase não houve participação da Marinha, nem de indivíduos situados na base da hierarquia militar (as "praças", como os soldados ou sargentos). Mas isso não significa que o movimento foi promovido por oficiais situados no topo da hierarquia. Dos generais, apenas Deodoro da Fonseca esteve presente. Os oficiais superiores podiam ser contados nos dedos, e o que mais se destacou entre eles não exercia posição de comando de tropa: trata-se do tenente-coronel Benjamin Constant, professor de matemática na Escola Militar.

Quem foram, então, os militares que conspiraram pela República e se dirigiram ao Campo de Santana na manhã do dia 15 de novembro de 1889 dispostos a derrubar o Império? Basicamente, um conjunto de oficiais de patentes inferiores do Exército (alferes-alunos, tenentes e capitães) que possuíam educação superior ou "científica" obtida durante o curso da Escola Militar, então localizada na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Na linguagem da época, a "mocidade militar".


Essa versão dos acontecimentos difere em alguns pontos importantes das opiniões disponíveis nos livros de história. Em alguns desses relatos, Deodoro aparece unindo simbolicamente todo o Exército; em outros, representando apenas os oficiais mais ligados à tropa, que eram chamados de "tarimbeiros", geralmente não tinham estudos superiores e constituíam a maior parte da oficialidade. Minha visão de Deodoro é a de um chefe militar levado ao confronto com o governo motivado pelo que imaginava ser a defesa da "honra" do Exército e por algumas particularidades da política do Rio Grande do Sul, que havia chefiado pouco tempo antes. Foi somente nas vésperas do golpe que se reuniu em torno dele um grupo muito pequeno de oficiais de patentes médias.


Todas as fontes disponíveis sobre o 15 de Novembro destacam a liderança que Benjamin Constant exercia sobre a "mocidade militar" formada na Escola Militar da Praia Vermelha, por ter sido durante muitos anos seu professor de matemática. Ele seria o "mestre", "líder", "catequizador" ou "apóstolo" desses militares. Para vários autores, principalmente os vinculados à tradição positivista, Benjamin Constant e seus jovens liderados teriam sido o principal elemento na conspiração. Minha perspectiva, no entanto, focaliza não o "líder" ou "mestre", mas seus pretensos "liderados" ou "discípulos". Quando examinamos com atenção as fontes documentais disponíveis, ao invés de assistirmos a Benjamin Constant catequizando os jovens da Escola Militar, encontramos justamente a "mocidade militar" seduzido-o e convertendo-o ao ideal republicano. Atribuo à "mocidade militar", portanto, o papel de principal protagonista da conspiração republicana no interior do Exército.


Formados pela Escola Militar da Praia Vermelha, esses jovens contavam com dois poderosos elementos de coesão social: a mentalidade "cientificista" predominante na cultura escolar e a valorização do mérito pessoal. Esses elementos culturais informaram a ação política que levou ao fim da monarquia e à instauração de um regime republicano no Brasil.


A supervalorização da ciência, ou "cientificismo", expressava-se na própria maneira pela qual os alunos se referiam informalmente à Escola Militar - "Tabernáculo da Ciência" -, deixando desde logo evidente a alta estima que tinham pelo estudo científico. É importante observar que a Escola Militar foi durante muito tempo a única escola de engenharia do Império. Como a Escola Militar não era passagem obrigatória para a ascensão na carreira militar, havia um fosso entre os oficiais nela formados e o restante (a maioria) da oficialidade do Exército, sem estudos superiores, mais ligado à vida na caserna, com a tropa.


Por outro lado, durante todo o Império, foi clara a hegemonia dos bacharéis em direito no interior da elite. Enquanto o status social dos militares era baixo, os jovens bacharéis tinham caminho aberto para cargos e funções públicas em todos os quadros administrativos e políticos do país. Os jovens "científicos" do Exército tinham que lutar para situar-se melhor dentro de uma sociedade dominada pelos bacharéis.


O republicanismo da "mocidade militar" era oriundo da valorização simbólica do mérito individual somada à cultura cientificista hegemônica entre os alunos e jovens oficiais. A "mocidade militar" era francamente republicana desde muito antes da "Questão Militar" de 1886-1887, geralmente considerada um marco da radicalização política dos militares ao final do Império. A partir de 1878, alunos da Escola Militar criaram clubes secretos republicanos e, em diversas ocasiões, cantaram ou tentaram cantar, desafiando seus superiores, a Marseillaise, o hino revolucionário francês. É notável o radicalismo de sua atuação e o fato de que, nos escritos e nas memórias dos jovens "científicos", não apareçam referências a professores ou políticos convertendo-os ao republicanismo. As referências a esse respeito levam sempre a livros por eles adquiridos e devorados e, principalmente, à influência de outros jovens "científicos" agrupados em associações e clubes de alunos.


Entre a "mocidade militar" não havia clareza a respeito de como a República vindoura seria organizada. Parece ter sido suficiente saber que se tratava da única forma "científica" de governo, aquela onde reinaria o mérito, ordenador de toda a vida social. A falta de definição a respeito de como seria a República facilitou, por um lado, a unidade de pensamento e ação da "mocidade militar" antes do golpe de 1889; por outro lado, ajudou a apressar sua fragmentação tão logo a República foi instituída.


Foi com esse espírito "científico" e republicano que a "mocidade militar" participou ativamente da conspiração que levou ao fim da monarquia no Brasil. Nesse processo, esses jovens conseguiram atrair alguns oficiais não politizados - como Benjamin Constant - e outros de perfil mais troupier, como Deodoro. Apesar de poucos, esses oficiais mais graduados foram importantes para passar à Nação e ao Exército a idéia de que representavam a "classe militar".


Fonte: www.cpdoc.fgv.br
Texto e imagens extraídos do Portal São Francisco:
http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/proclamacao-da-republica/proclamacao-da-republica-4.php

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domingo, 7 de novembro de 2010

Puxirão



Puxirão... Sim, era assim que chamavamos.
Puxirão.

Em alguns outros lugares do Brasil, se usa “mutirão”, o que é a mesma coisa.

Segundo o que dizem os dicionários é “ (Gauches-Portugues) auxílio mútuo que se dão aos vizinhos para as lides da roça, ou derrubadas de matos, colheita, raspagem da mandioca para o fabrico da farinha. O puxirão é uma reunião alegre, em que cada um leva os instrumentos que lhe pertencem para auxiliar o seu vizinho, que retribui tal auxílio com festas, bailes, comidas fartas, etc. é um procedimento que está na índole do povo. O mesmo que muxirom.”

A Wikipédia diz que é “(termo de origem tupi de etimologia obscura) é o nome dado no Brasil a mobilizações coletivas para lograr um fim, baseando-se na ajuda mútua prestada gratuitamente. É uma expressão usada originalmente para o trabalho no campo ou na construção civil de casas populares, em que todos são beneficiários e, concomitantemente, prestam auxílio, num sistema de rodízio.

Atualmente, por extensão de sentido, "mutirão" pode designar qualquer iniciativa coletiva para a execução de um serviço não remunerado, como um mutirão para a pintura da escola do bairro, limpeza de um parque e outros.

Para nós, guris da roça, era “Puxirão”.

Se originava de várias formas. Por iniciativa do dono da roça, que, ajudara outros em outros puxirões, ou por iniciativa de algum vizinho que, percebendo a dificuldade momentânea de um amigo, por causa de doença ou outra desgraça, convocava os amigos para ajudar àquele a tirar a roça do mato.

Era sempre uma festa. Já de madrugada chegavam os primeiros roceiros. Alguns faziam uma fogueira no pátio, cantavam o Chico Mineiro e coavam o café na pixorra de lata de óleo Primor. Outros traziam a erva e a cuia para o mate.

Alguns passavam a lima na enchada ou na foice, sentados no travesseiro do lenheiro.

Logo iam par o eito. O morro mudava de cor como se houvesse um fogo a queimá-lo, desde baixo até descambar do outro lado, deixando pequenos pontos verdes enfileirados a balançar ao vento. Milho, feijão, cana.

Pelo meio da manhã, chegavam as mulheres e as moças. Algumas também iam para a roça, ajudar na lida, mas a grande maioria ia para a cozinha e para as panelas. Algumas iam ao galinheiro escolher as penosas mais gordas. Outras preparavam o arroz no panelão de três pernas na trempe do fogo de chão.

Lá no eito, se cantava. Um que outro, por alguma desavença havida no passado, procurava ficar pelas beiras, bem longes um do outro para evitar algum enroscar de foice. As moças chegadas, ombreavam ao lado do pretendente num esforço de demonstrar serventia. Os mais arredios aos calos, buscavam água na sanga.

Mas o eito andava. A roça ficava limpa lá pelas duas horas da tarde. Então se voltava para casa. O almoço estava pronto.

Depois da purinha e da bóia, alguém tirava do saco a viola ou a gaita, e se arranjavam casamentos ou divórcios.

Até um outro puxirão, na vizinhança.

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domingo, 31 de outubro de 2010

Agora é Dilma



Mantive a Torre, à custos, isenta das discussões políticas partidárias. Como se Quasímodo e Juca Melena fossem seres a viver na distante Paris de Notre Dame ou num rancho barreado num fundo de campo, num mangrulho qualquer, às costas do Uruguai.

Mas não!...

Quasímodo e Juca vivem aqui, neste Brasil varonil dos tempos de hoje.

Viveram, ambos, outros tempos. Trazem as marcas, os sinais dos manotaços das ferraduras dos cavalos dos generais.

Levam tatuados na alma as chagas da fome e o choro dos filhos nas noites frias de desesperança, quando a perspectiva do dia seguinte era uma incógnita.

Seguiram, a cabresto, o voto do senhor da estância, dono da vida e da morte, porque este lhe dissera que peão não tem vontade nem querer. Submissos, obedeceram ao patrão, para garantir-lhes a condição de escravos ignorantes.

Os tempos mudaram. Um operário retirante, com um dedo mutilado por uma máquina de enriquecer os expropriadores da mais-valia, virou presidente. Eu, modestamente, ajudei.

Deixamos de ser gado e aprendemos a ser gente. Juca e os compadres já podem comer o que plantam e colhem. Já encilham seus próprios cavalos e galopam livres, sem cabrestos, por um pampa com menos aramados e maneias.

Os guris só lavam as virilhas na sanga por gosto. Lá no rancho tem luz elétrica e chuveiro com água quente. Para aqueles que changueavam algum eito, para o prato minguado, sem conseguir, veio o Bolsa Família, que a elite chama de assistencialismo. Que seja o nome que for. Mas o fato é que esse arrego, que os críticos não fizeram quando podiam fazer que permitiu que os piás pobres crescessem e pudessem lidar com as letras nas escolas.

Quiseram, de novo, nos engambelar. Encheram-nos de mentiras e ameaças. Fizeram a campanha do ódio. A imprensa criava, divulgava e incentivava os factóides. Mas nossos guris estavam espertos. Lá no rancho tem computador e internet. E principalmente inteligência para separar o joio do trigo. A cada mentira espalhada, vinha um, sem raiva e com coerência, desmentir com fatos e provas.

Foi essa rede que deu a vitória à Dilma. Um grande abraço à camaradinha Fá, e à companheira Mariza, para mim os símbolos maiores de todos os brasileiros que fizeram esse trabalho de formiguinha.

Agora temos uma presidenta. Uma mulher que tenho a certeza zelará pelo nosso bem.

Mas tenha cuidado, Dilma. Já vimos que os urubus estão a postos.
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Tenho um profundo respeito pelas pessoas que, sinceramente, defendem idéias diferentes das minhas.
O que não aguento e já não tenho mais paciência para aguentar, são os papagaios que pulularam aos bandos nesta campanha eleitoral. Gentes que encheram minha caixa postal com baboseiras, desreipeitando a minha modesta inteligência. Gente que cuspiu no prato que comeu.
Vou reavaliar minhas amizades.
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Gilead Maurício e os Herdeiros do Contestado



Gilead Maurício é natural de Natal, Rio Grande do Norte. Hoje radicado em Florianópolis, Santa Catarina, é administrador e jornalista.

Gilead não é daqueles jornalistas de bancada, de gabinete e estúdio. Não é desses engravatados que a gente vê na tela da televisão, lendo as reportagens que os outros fizeram. Gilead bota o pé no barro, literalmente.

Pessoa de convicção, firmeza de propósitos e comprometido com causas sociais, ecológicas e ambientais. E com a verdade. É o que se depreende com a leitura continuada de suas crônicas, reportagens e cordéis, postados assiduamente em seu blog, que recomendo a ter nos favoritos, como um livro de cabeceira. Eu já o fiz:
http://www.gileadmauriciojornalista.blogspot.com/

“Conheci” Gilead por conta de um questionamento que ele me fez, nesta Torre, um tanto quanto extemporâneo em relação à data em que abordei o assunto A Guerra do Contestado.

Embora em forma de letras, percebi nas entrelinhas certa indignação de sua parte. Queria ele saber em qual fonte me baseei para afirmar que o Monge João Maria era fugitivo do Exército. Tratei de responder-lhe imediatamente, informando a fonte, e acrescentando minha opinião sobre o assunto: de que a fonte se baseara em informações que poderiam ter sido forjadas, para denegrir a imagem dos caboclos revoltos e de seu líder. No que, aparentemente ele concordou.

Devido a essa troca de missivas eletrônicas, vim, a saber, que Gilead estava finalizando os preparativos e detalhes logísticos para realizar uma expedição à região central do conflito. E um detalhe: de motocicleta.

E o fez. Durante dias, estabeleceu seu Quartel General na cidade de Caçador, de onde partia em incursões seletivas aos principais pontos históricos da refrega.

Seu olhar crítico e seu caráter humano se dedicaram a focar, especialmente, as condições sociais dos que ele denominou “Os Herdeiros do Contestado”.

Tenho dito aqui, em mais de uma oportunidade, de que a Guerra do Contestado não teve a sua dimensão histórica devidamente reconhecida, sendo lembrada, às vezes, por alto, nos livros escolares, como um mero entrave ao estabelecimento da República. E insisto: A Guerra do Contestado foi tão ou mais importante que a Guerra de Canudos. Apenas não tivemos aqui, ainda, um Euclides da Cunha para imortalizá-la definitivamente. Talvez, e torço para isso, Gilead seja esse Euclides, nordestino/barriga-verde.

Porque, se depender das autoridades, melhor seria sepultar definitivamente esse episódio, como muito bem Gilead relata em suas memórias da viagem.

Lançou ele, também, um grito de alerta, que já venho fazendo e ao qual me associo: a expansão da monocultura do pinus em todo o meio-oeste de Santa Catarina. Essa árvore de folhas espinhentas e palitosas, de crescimento rápido, importada de alhures de clima frio, tomaram o lugar das imbuias, do cedro e das araucárias, (assunto que abordo em “Os Balseiros...) para alimentar as fábricas de celulose e de compensados, a maioria delas com um pé aqui e o corpo e a cabeça (e principalmente o cofre) lá fora, nas estranjas.

O relato dessa expedição, Gilead publicou em seu blog, especialmente criado para ela. http://herdeirosdocontestado.blogspot.com/

Recomendo que leiam a partir da postagem mais antiga, para melhor entendimento da seqüência.

Não publico fotos hoje, por não ter tido a oportunidade de pedir permissão ao Gilead, que, com certeza não se negaria a dá-la. Elas poderão ser vistas no link acima.
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A Torre já recebeu mais de 30.000 visitas. Obrigado, amigos.
Vamos ter segundo turno para Presidente. Tomara que as propostas se aclarem.
Semana que vem estarei ausente.
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domingo, 19 de setembro de 2010

Hino do Rio Grande do Sul



Composição: Francisco Pinto da Fontoura / Joaquim José de Mendanha



Como a aurora precursora
Do farol da divindade
Foi o 20 de Setembro
O precursor da liberdade


Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra
De modelo a toda Terra

Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra


Mas não basta pra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo


Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra
De modelo a toda Terra

Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra





Ouça o Hino e imagens, na voz de Wilson Pain, clicando aqui: http://letras.terra.com.br/wilson-paim/253572/
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Deixo um abraço hoje para a amiga Neuza, de Mogi Mirim-SP, e para o amigo Henrique, de Lisboa, com os comprimentos, com u, pelos seus 69 aninhos bem vividos e bem contados.
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domingo, 5 de setembro de 2010

Do Baú - Para além do fim do beco


Neste domingo fiz o que, imagino, todos fazem algumas vezes ao longo da vida: revirei velhas caixas de papelão.

O objetivo era jogar fora coisas inservíveis.

Mas como também imagino acontecer com todos que reviram baús antigos, quase todas as coisas voltam para seu lugar, com menos traças e menos pó.

Encontrei este texto amarelado, com data de 25 de Dezembro de 1979, e que, por alguma razão desconhecida me acompanhou nas muitas andanças que fiz, como me acompanham as lembranças e as saudades.

Tiro da escuridão do baú, para a penumbra da Torre.


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PARA ALÉM DO FIM DO BECO


As luzes da cidade ainda estavam apagadas. Na praça os cordões de lâmpadas ornamentais teciam reflexos cruzados refletindo a fraca luminosidade que vinha do oeste. Alguns conjuntos enfileirados se estendiam paralelos à linha da rua, outros cortavam-na transversalmente.

Pessoas apressadas esbarravam nele enquanto praguejavam na tentativa de manter os pacotes sobrepostos equilibrados.

Na calçada o movimento era grande.

Ele caminhava lentamente, arrastando os pés, indiferente, em completo desacordo com o corre-corre geral. Era um corpo estranho. Não prestava atenção a quem o olhava curioso e desconfiado, nem a quem apenas se desviava indiferente.

Olhou, sem interesse a moça vestida de Papai Noel que gesticulava na porta da loja de brinquedos, na tentativa de atrair os traseuntes ávidos de gastos.

Aquele mundo não o pertencia, apenas vivia nele.

Era um fim de tarde, semi-noite, diferente da movimentação de outras tardes.

Era véspera de Natal, ele o sabia. Comentara com Júlio, enquanto requentava a panela de comida ao meio-dia, lá na construção, que ao fim da jornada, pediria um vale para o Seu Armando, e compraria uma bola de gomos brancos e azuis que o Pedrinho vira na vitrine da loja, logo ali, na praça.

O vale não saiu, e a bola, via agora, não estava mais no seu lugar. Talvez tenha sido levada por alguém cujo vale saíra, pensou.

Continuou a caminhar em passos lentos, e ao passar pela porta da farmácia, lembrou-se do Melagrião para a tosse do Juliano, que estava nas últimas colheradas no fundo do vidro.

Aos poucos, a noite cobria a cidade à sua volta. As pessoas continuavam a formigar em todas as direções, carregando pacotes.

As luzes agora piscavam azuis, verdes, vermelhas, coloridas. A estrela luminosa no alto da árvore, acendia e apagava em intervalos regulares.

Lembrou-se que era tarde. Maria, por certo, já o esperava no barraco com a bacia de água morna preparada.

Amanhã será feriado. Aproveitaria o dia de folga para arrumar a coberta do barraco que o Chico Preto quebrara ao fugir da polícia durante a última batida realizada nos aterros. Chico Preto tinha coragem, esboçou um sorriso triste, enquanto lembrava da noite em que Chico pulara do barranco da estrada de ferro, para os barracos lá em baixo, e dali para o chão, sumindo na escuridão da noite. Os brigadianos ficaram lá em cima, gesticulando espantados. Agora tinha uma goteira sobre a cama do Pedrinho.

A noite já o envolvia totalmente. Não havia mais luzes coloridas ao seu redor. Ouvia-se apenas o som ôco de seu caminhar cansado, interrompido, de tempos em tempos, pelo badalar dos sinos da Matriz, bem longe, atrás.

Seus passos foram sumindo na noite, para além do fim do beco.

Amanhã será feriado. Será dia de Natal.


25/12/1979
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domingo, 29 de agosto de 2010

Prêmio



O "Letras da Torre" recebeu do blogue Ato Primeiro, http://atoprimeiro.blogspot.com/da amiga Fá o selo "Blog Amigable"

Através deste selo são premiados os blogueiros que transmitem valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. Que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras e imagens.

Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web. É de bom tom que, quem recebe o “Prêmio Muchas Gracias Al Blog Amigable” e o aceita, siga algumas regras:

1-Exibir a Distinta Imagem;
2-Apontar o Blogue pelo qual recebeu o prêmio;
3-Escolher uma quantidade de pessoas de sua preferência e a um blog de cada pessoa escolhida oferecer o “Prêmio Muchas Gracias Al Blog Amigable”.

Dos muitos amigos e amigas que eu considero merecedores, vários já foram homenageados pela Fá. A esses acrescento:
Alma Lusa
Obrigado, Fá.
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Um dos mais completos acervos literários, com obras, desde (em ordem alfabética) Adolfo Caminha a Willian Shakespeare, encontra-se no Portal São Francisco. Além das obras completas, cada autor tem ali publicada a sua biografia. Muito bom mesmo.
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Recebi um comentário, extemporâneo aqui, do Sr. Francisco, na publicação de um trecho do livro de Horácio Nogueira, que eu estava reproduzindo. Diz assim:
"Estava procurando o livro "A Trilha do Grilo" de Horacio Nogueira para meu pai de 95 anos que é sobrinho de Horacio Nogueira e me deparei com seu blog. Gostaria de uma cópia deste livro. Eu posso tentar encontrar o livro O Indio Penhai, junto aos meus parentes. Vovô Horácio como era conhecido por mim, viajava para medir terras para o governo, na região onde nasci - noroeste de São Paulo - Andradina. Ele esteve em minha casa e ainda ganhei dele um presente. Meu nome veio de uma neta dele. Eu fui visitá-lo no Hospital Santa Cruz em Vila Mariana em São Paulo quando ele morreu. Fui vê-lo. A mamãe com papai se hospedaram na casa dele na Praça da Árvore quando minha mãe veio tratar-se em São Paulo. Mamãe admirava muito a esposa dele. Lídia Franco. A casa deles ainda estava em pé até poucos anos e depois eu a via com uma placa de vende-se e agora construiram um prédio no local. "
Pois, bem, amigo. Volte àquela postagem pois tem informações adicionais nos comentários, inclusive contatos com parentes.
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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Quando as coisas não funcionam



Perceberam que as postagens no “Letras da Torre” não foram renovadas com a periodicidade costumeira?

E que não respondi aos e-mails?

Fiquei sem Internet.

Aliás, não só sem Internet. Fiquei também sem chuveiro para o banho. O frio congelou a água no cano. Vi-me na obrigação de trazer água de balde, de uma torneira do outro lado da rua. Água de poço artesiano.

Num domingo, tentei telefonar, como sempre faço aos domingos. Num raio de cerca de um quilômetro, todos os telefones públicos foram depredados. Nenhum funcionava. Roubaram os auto-falantes auriculares. Meu celular (tele-móvel, para os portugueses) está sem crédito, como sempre.

Restava-me voltar para casa. Passei antes pelo restaurante para pegar o almoço. Fechado.

Felizmente restaram três ovos na porta de geladeira e óleo para a fritura.

Pensei em praticar violão à tarde. Uma das cordas estava partida e eu não tinha reposição.

Liguei a TV. Funcionava. Queria assistir ao Gre-Nal. Empate sem gols e sem emoções.

Definitivamente não foi um bom domingo.

Isso tudo me levou a refletir sobre o quanto e como as tecnologias se inserem em nossas vidas de uma forma sutil e progressiva. É como quando nos olhamos no espelho todas as manhãs e não notamos o quanto envelhecemos. Parecemos sempre os mesmos.

Vivíamos bem quando não tínhamos Internet, telefone, água encanada...

Os banhos eram de riacho no verão, e de gamela no inverno. Mais tarde veio um galão, que antes fora de óleo de motor, de vinte litros, em que na parte de baixo fora acoplada, através de solda, uma espécie de chuveiro, e que nada mais era que um recipiente menor, cheio de furos de prego. Enchia-se o galão de água morna, e ascendia-o ao alto através de um sistema de roldana. Tinha que ser rápido o banho, sob pena de ficar ensaboado.

As comunicações eram difíceis e demoradas. Uma carta, para a mãe, no interior, demorava dias para chegar e tinha que ser enviada por um próprio, algum visinho que podíamos encontrar na rua. Às vezes ela, a carta, ficava à espera de um portador por meses.

Quando a notícia era mais urgente, se utilizava da “Hora do Recado”, que a rádio local transmitia diariamente, na hora do almoço, e que, os poucos que tinham receptor no interior sempre ouviam e levavam os recados para os destinatário próximos, muitas vezes bastante deturpados.

Hoje, quando alguns dos recursos atuais falham, percebemos o quanto ficamos dependentes deles.

Agora, as coisas voltaram a funcionar. Talvez tenha contribuído para isso um cartaz que colei no quadro lá da empresa e que dizia o seguinte:

“ Teoria é quando tudo funciona e todos sabem o porque.
Prática é quando tudo funciona e as pessoas não sabem porquê.
Neste ambiente reunimos teoria e prática.
Nada funciona e ninguém sabe porque.”
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Comentário anônimo em “ Espanhóis” da série Culinária Gaúcha postada aqui:

“Ótimo blog, mas não existe cozido espanhol, existe sim o cozido português. Existe o puchero espanhol, a diferença dele para o puchero criolo é o uso do azeite de oliva e do grão de bico. o cozido espanhol é feito com carne suína, enquanto o puchero espanhol é feito com bovina.”

Obrigado, amigo, mas “hay” que aprofundar, pois na fronteira, por onde muito andei, alguns amigos diziam: “Vamos hacer un cocido?...”
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Da amiga Luzia, de Lisboa, recebi uma série de 41 fotos, feitas por ela, de um lugar meio perdido no tempo, mas que muito significa para mim, e que foi matéria na Torre: Figueiredo das Donas.

Muito obrigado, amiga. Foi mais que um presente.
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domingo, 25 de julho de 2010

Procissão de São Cristóvão e outros santos


Hoje tinha procissão aqui. Dia de São Cristóvão, padroeiro.

São Cristóvão é aquele santinho que atravessou um rio, com Jesus nas costas. Não está na Bíblia, mas é um santo muito popular, apesar da carequinha que ele tenta disfarçar com a auréola.

Ele é padroeiro de muitas causas: motoristas, agricultores e cidades, como a que vivo.

O Rogério, amigo de Passo Fundo, chamava essas procissões de “perseguição do santo” – ou da santa - dependendo da anatomia do (a) homenageado (a).

Já na semana passada me venderam cinco rifas beneficentes. Mais não comprei porque o pagamento só sai no dia cinco e o santo não vende fiado.

Às seis horas desta manhã acordei sobressaltado com o foguetório. Só então me lembrei da festa.

Às oito e meia começaram a passar aqui na frente de casa os caminhões, com suas buzinas ensurdecedoras. O santo já tinha passado.

Tentei buscar a marmitinha no restaurante, mas não consegui atravessar a rua.

Então voltei para casa, peguei as muletas que, felizmente estão aposentadas, botei uns óculos escuros e uma touca preta, de lã. No espelho me achei parecido com o Stevie Wonder. A estratégia funcionou. Os agentes do trânsito interromperam a carreata e uma bondosa senhora me conduziu pelo cotovelo até a calçada do outro lado da rua.

A volta foi mais tranqüila, já estavam a passar os carros e as motos. Os ouvidos ainda zumbiam no almoço.

Gosto de ver essas manifestações populares de fé e devoção.

O que não entendo é a barulheira toda; bombas, buzinas...

Será que os romeiros pensam que o santo é surdo?

Ou, quem sabe, um vuvuzelófilo enrustido?...
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domingo, 18 de julho de 2010

O vendedor de mel

- Alguém quer comprar mel? É cinco contos o pote!...

O menino magro, miúdo, subia os degraus da escada de cimento anunciando a mercadoria que carregava numa sacola de pano suspensa no ombro direito, para os que estavam do lado de fora do bar, bebericando.

Não esperou resposta.

- Alguém quer comprar mel? É cinco contos o pote!... Falava agora da porta grande, para que os que estavam dentro pudessem ouvi-lo.

O Sargento Nininho, reformado, estava à mesa de sinuca, numa disputa de melhor de três, na bola oito, contra o barbudinho da metalúrgica.

Nininho tinha um ar bonachão. Quem o visse assim, a jogar sinuca, de bermuda, camisa regata, barrigão à mostra, poderia imaginar, no máximo, um vovô a divertir-se. Jamais um ex truculento membro da gloriosa Brigada Militar.

Mas quem prestasse atenção nos músculos das pernas e no rijo do muque, perceberia que tivera uma vida dura, de disciplina, treinamento e ação.

O que destoava era a proeminência abdominal. Culpa da cerveja, alfinetavam alguns...

Quando na ativa, entre uma ronda e outra, nunca deixava de prestigiar os proprietários dos estabelecimentos em que, com seus comandados, realizava visitas preventivas, em busca de algum canivete, uma trouxinha ou qualquer outra substância ilegal. Depois dos devidos procedimentos, quando os suspeitos já estavam confortavelmente alojados no camburão, pagava uma rodada de Brahma.

O comandante tinha conhecimento do seu proceder, por conta de um cabo ciumento que o dedurou. Recomendou moderação, mas não o puniu e nem lhe encaminhou para a Corregedoria. Tinha mais de trinta anos de farda e o respeito da tropa.

O cabo foi transferido para o Pelotão Agrícola.

Por conta do pito do comandante, mesmo que moderado, sem mácula em seu currículum, sentiu-se desprestigiado e encaminhou sua aposentadoria, tão reclamada pela mulher. Tinha tempo de serviço de sobra, contando com os adicionais de periculosidade e os qüinqüênios.

Reformado, tratou de reformar a casa. Passava os dias dividido entre os rebocos das paredes e os netinhos nos joelhos.

Com o passar do tempo, sentia mais aguda a falta da noite e da atividade. Tornou-se cada vez mais freqüente as suas saídas ao final da tarde com a desculpa de comprar laranjas para os netos. A mulher ralhou, quando as laranjas começaram a chegar cada noite mais tarde e, soubera ela, tinha sido visto tomando cerveja no bar do Claudião.

Então comprou o Bar da Escadaria.
- Tava cheio de freguês, mulher. Não posso atropelar.

- Quer comprar mel, senhor? É puro. O pequeno vendedor agora interpelava, num corpo a corpo mais agressivo e individualizado, o pedreiro Mini-Saia, que bebia uma pinga na ponta do balcão, perto da porta lateral.

- Mas é puro mesmo? Duvido!

- É puro sim, veja.

Retirou da bolsa um pote de plástico, transparente, em que se via uma substância de aspecto agradável, consistente, amarronzada.

- Parece mesmo puro, diagnosticou o Mini-Saia, olhando o pote contra a luz. – Dá para provar?

- Não... Não pode, só se comprar o pote.

Nessa altura, alguns fregueses se aproximaram cada um pegando o pote de mel, analisando... É puro, não é, é sim, não é mel, é mel de eucalipto... Não, é de trigo mourisco, por isso é escuro. É falsificado.

- É puro, garantia o pequeno vendedor.

O sargento Nininho, que abandonara o barbudinho da metalúrgica no meio da partida final, para servir uma cerveja ao Padeirinho, requisitou o pote.

- Pois eu te compro, guri. Tá aqui os cinco pilas. Mas se não for puro, eu te enquadro nos artigos. Ainda sou autoridade. Reformado, mas sou.

Até o Toco Xeréca, que fumava um baseado na extremidade do primeiro degrau, lá fora, se aproximou do grupo. Jogou fora a bagana. Sim senhor, sargento, entendo, o bar agora é de respeito. Não pode entrar porcaria aqui. Então não entro, mas lá fora pode? Pode, se o senhor não vir? Então pode...

O pote, agora aberto, circulava de mãos em mãos, cada um lambuzava o dedo e experimentava. É puro... Não é não... É sim... Tem gosto de limão.

- Tem que passar no pão para saber... Tem pão, sargento?... Não tem? Que pena!

- Tem que botar na cachaça, sentenciou o Mini-Saia.

- Tenho bolacha, serve? Anunciou o Toco Xereca, tirando da mochila um pacote de bolachas Maria, já pela metade. Serve. Passe para cá!

O sargento, como dono do bar e autoridade expropriou de um copo de caipirinha que alguém deixara sobre o balcão, uma colher de plástico e recobriu uma bolacha com uma generosa camada de mel.

Expectativa... Todos os olhares se concentraram nas expressões faciais do sargento Nininho. Até que este, limpando o bigode com o pano de passar no balcão, solenemente sentenciou:

- É falsificado.

Olhares ameaçadores recobriam o menino.

Num derradeiro e desesperado esforço mercadológico, ele garantiu:

- É puro sim, “seu” sargento... Lhe juro. Foi a mãe quem fez, ontem à noite!...
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domingo, 11 de julho de 2010

Bolo de Farinha de Milho - Receita.



Bolo de farinha de milho

4 ovos inteiros
2 xícaras chá de açúcar
2 xícaras chá de farinha de milho
2 xícaras de leite
1 xícara de óleo (- 1 dedo)
1 colher sopa pó royal
150 g queijo ralado

bater tudo no liquidificador.
assar em forma untada e farinhada.


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Esta receita é da Marta. No tempo da ditadura, alguns jornais, censurados, preenchiam seus espaços com receitas. Sabíamos que havia sido censurado.
Não é o caso aqui. É absoluta falta de assunto e inspiração.
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Espanha ganhou a copa. Justo.
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Da amiga Krika recebi este texto, ainda sobre Copa do Mundo. No seu blog tem mais. Vale a pena ler. Confiram. Tem muita coisa boa lá, para quem se interessa por educação.
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O mistério das chuteiras - Por José Roberto Torero

Los Gatos, 17 de julho de 1994

Professora, não sei se a senhora se lembra de mim. Eu sou a Teca, que foi sua aluna na escola aí de Governador Valadares. A de óculos e aparelhos nos dentes, lembra?

Pois é, então, como eu lembro que a senhora gostava de futebol, resolvi contar umas coisas que eu vi aqui.

O aqui que eu digo é nos Estados Unidos, numa cidade chamada Los Gatos. Eu e o meu pai mudamos para cá. Ele conseguiu emprego legal: dirige ônibus para turistas. -
Bom, aí, um dia, falaram que ia ter uma Copa do Mundo aqui.

Eu nem acreditei: "Uai, gente, deve ser mentira. Os americanos nem gostam de futebol". Mas era verdade.

Depois vieram duas boas notícias. Boas, não. ótimas! A primeira era que a seleção ia se hospedar na minha cidade. A segunda, que o meu pai ia dirigir o ônibus do Brasil. Eu pedi para o meu pai me levar nos jogos.

Ele falou que não dava, que não podia,.que onde já se viu. Aí eu armei minha cara de cachorro triste e disse: "Tudo bem, eu fico aqui sozinha ... ".

Esse truque sempre dá certo, professora. Ele me arranjou um cantinho no ônibus, junto com as malas dos jogadores, aquelas onde eles levam as chuteiras. Era um chulé danado, mas tudo bem, porque ia escutando a batucada do pessoal.

Até conheci o Romário, que era só um tiquinho mais alto do que eu.

Na primeira fase, o Brasil não teve problemas: ganhou da Rússia, de Camarões empatou com a Suécia.

Depois ganhamos dos Estados Unidos com um golzinho do Bebeto e derrotamos a Holanda: 3 a 2. Aí veio a chata da Suécia de novo. Parece mentira, mas ganhamos com um gol de cabeça do Romário. Ele é baixinho, mas pula bem alto.

A final ia ser contra a 'Itália. Eu já estava toda feliz, pensando em viajar com os brasileiros, Quando meu pai veio com a bomba: "Filha, fui escalado para dirigir o ônibus da Itália".

Aquilo foi terrível! Nem falei com ninguém no ônibus. Fui lá para o fundo e descontei minha raiva nas chuteiras. Teve uma, coitada, Que sofreu mais Que todas: eu apertei, torci e até mudei as travas de lugar, Fiz o diabo! Bom, como todo mundo sabe, o jogo terminou em O a O, ea decisão foi para os pênaltis.

Então eu olhei para o campo e vi que o Baggio, da Itália, estava trocando de chuteira. E colocando justo aquela que eu tinha maltratado. Depois ele correu, bateu e errou!

Foi bom demais da conta ajudar o Brasil a ser campeão, professora. Mas não conte isso para o Baggio tá? Ele ia ficar o maior bravo comigo.

Um beijo da Teca, que agora é tetra!
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A noite aqui, fria e chuvosa, promete ser nostálgica...
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domingo, 4 de julho de 2010

Lições da Copa



Gosto de esportes. De todas as modalidades.

Já me aventurei até mesmo pelo boxe, até que o Campetti, um menino mau do ginásio me arroxeou um olho.

Gosto de futebol, como a maioria dos brasileiros. Enquanto as pernas me obedeciam, jogava na meia-direita, com a camisa oito. Na época a posição no campo, obedecia alguma lógica. A ponta esquerda era sempre ocupada pelo jogador da camisa onze, a ponta direita com a sete, o centro-avante era o nove. Eu era o oito. Chamavam, na época, de meia-armador. Diferentemente do meia-esquerda, que vestia a dez, o oito, no caso eu, tinha uma dupla função. Precisava voltar para ajudar os zagueiros, inevitavelmente compostos por quatro pesadões, que ocupavam essas posições por falta de opções. Ou por imposição do dono da bola. E depois da bola rebatida pelo paredão, organizar as jogadas de ataque. Era uma tarefa exaustiva, mas na época o fôlego sobrava.

Até fiz alguns gols bonitos e decisivos em torneios pelo interior, quando a partida era dividida em dois tempos de dez minutos cada, e o troféu era uma ovelha miúda. Viva. Ela ficava num cercadinho improvisado na beira do mato. Um pouco preocupada com o movimento e a curiosidade, imagino que se alheava do motivo de tantos marmanjos correrem ao sol de 40 e picos, e os olhares cobiçosos de quem saia do campo vitorioso, até o próximo embate.

Mais que o prêmio, que iria virar um churrasco em algumas semanas, quando se convidava o anfitrião do torneio para uma partida amistosa, agora no nosso campo, o que nos movia era o espírito da competição e a integração que se fazia com as comunidades que encontrávamos na disputa.

Nem sempre eram disputas cordiais. Havia rivalidades históricas, mesmo que na segunda-feira, estivéssemos no mesmo eito, cada um com sua enxada.

O que tem isso a ver com a copa?

Acho que tem tudo.

O esporte, e especialmente o futebol deixou de ser uma atividade lúdica. Passou a ser uma mercadoria. Uma atividade econômica. Os jogadores deixaram de serem jogadores, para virarem empresas cercados de profissionais que os administram. As competições se tornaram mega-eventos. E nos seduzem nos impondo ídolos, para dar audiência às redes da mídia.

Cuba, que nunca teve tradição no futebol, mostrou ao mundo grandes atletas, no vôlei, no basquete ou em competições individuais. E nenhum deles era profissional. Jogavam e competiam pelo esporte, ou quando muito, por uma medalha simbólica, como uma ovelha viva e um nome na história. Alguns, maldosos, dizem que tinham medo do paredón do Fidel. Maldade ideológica.

Nesta copa a empáfia e a tradição foram derrotadas. Restou a Alemanha, para mim a melhor equipe, embora torça pelo Uruguai.

A Argentina soçobrou na megalomania do Maradona.

A grande Itália sucumbiu já na primeira fase, vitimada pela falta de renovação de seus quadros. O mesmo aconteceu com França, agravada pela falta de comando e hierarquia. Ao montarem grandes times em seus países, contratam, à peso de ouro, jogadores de outros países, inclusive do Brasil, fechando as portas para os seus próprios jogadores incipientes. Não lhes dão oportunidade. Então, embora por lá tenhamos o grande Milan, Internacionale, Barcelona, Manchester... na hora de montar uma seleção nacional, o que se vê? Vazio. Os melhores estão fora, representando suas seleções, Brasil, Argentina, Paraguai, Gana.

E esses jogadores, vindos de lá, dessas equipes européias, representaram bem as suas nações? Messi, Cristiano Ronaldo, Kaká (apesar do desconto físico), foram em algum momento decisivos para suas equipes? Melancólicos. Para nós que queríamos vê-los mostrando lances bonitos. Para eles não. São empresas. Valorizaram-se no mercado por terem participado da copa, mesmo que de forma medíocre.

Culpar o Dunga? Seria muito simplismo.

É preciso antes resgatar uma competição por amor ao esporte e não pelos lucros e interesses de quem está envolvido, sejam confederações, países ou jogadores-empresas. É preciso voltar a jogar por uma ovelha e pela honra.
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