domingo, 21 de novembro de 2010

Gerineldo ou o Cusco do Juca


Compadre Juca, depois de uma longa e inexplicável ausência, finalmente apareceu.

Chegou à Torre, como sempre costuma chegar. Ao fim da tarde, carregando os baixeiros, as botas secas, cobertas de poeira vermelha, a mala de brim riscado de listras vermelhas, azuis e brancas, sobre o ombro direito.

Eu distraia-me a regar as pequenas mudas de gerânios que havia, dias antes, disposto de forma irregular, em vasos marrons na parede externa da torre.

Ao olhar para o horizonte, à oeste, assoviando a música “Entardecer”, deparei-me com o vulto a me observar, curioso, estático. Foi preciso colocar a mão sobre os olhos para reconhecê-lo, contra o sol que se despedia.

Então larguei o afazer e fui cumprimentá-lo. Ele estendeu-me a mão sem entusiasmo, olhos fixos nos gerânios, com indisfarçável esgar de reprovação.

Depois de alguns instantes, finalmente disse a frase costumeira, que esperava ouvir, mas desta vez sem entusiasmo:
- Buenas, cumpadre, vim prá pousar...

Notei imediatamente, pela entonação do cumprimento, que algo não ia bem.

Talvez o cansaço da viagem. Tentei animá-lo, e abracei-o efusivamente. – Que surpresa, compadre, há quanto tempo!... Vamos, vamos, passe prá diante!... Vou preparar o mate. Ainda tenho da erva que me trouxestes da última vez.

Ele deixou-se levar pela minha mão em seu ombro, olhando de soslaio para os gerânios como se fossem alguns animais de peçonha.

Lá dentro, como de costume, largou a mala a um canto e sentou-se no degrau da escada, enquanto eu retirava os apetrechos do armário para fazer o chimarrão. Com o canto do olho observei que ele não estava se sentindo à vontade. Bem, pensei, esclareço isso enquanto mateamos.

- Ainda sabe fazer mate, estrupício? - Rosnou de lá. É, pensei; algo não ia mesmo bem.

- Claro que sei, compadre. Um gaúcho nunca esquece. Mas por que da pergunta?

- Cumpadre tem andado esquisito nos últimos tempos.

(Eu? Esquisito? Na verdade sempre o fui, mas compadre Juca estava acostumado com isso.)

- Não estou lhe entendendo, compadre Juca. Continuo sendo o que sempre fui.

- Não. Desta feita é grave. Por primeiro fez campanha pruma china. Lugar de china é nos pelegos, dengueando seu homem, não nos gabinetes dos palácios.

Ah, começo a entender. Deve ser difícil para um homem como Juca, com a formação que teve, aceitar uma mulher no mais alto cargo da nação.

- Mas compadre, lá mesmo, no Rio Grande, teve a Ieda, uma mulher governadora.

- Pois então... Viu a bosta que deu?

Melhor não polemizar, pensei.

- E agora chego aqui e te acho acarinhando mato. Onde se viu? Te afrescalhastes? Se fosse ainda uma arve de serventia. Uma guabiroba, um guabiju, um araçá do campo...

Fiquei em silêncio e servi-lhe a cuia.

Sorveu do mate em silêncio, devagar, meditativo. Só ao me devolver a cuia retomou a palavra.

- Me adesculpe, cumpadre. Ando meio acabrunhado. Não foi pela mulher aquela que vim. Nem porque virastes fresco ou não. Tenho andado receoso com as tuas amizades. Me dá cuidado tuas prosas com aquele tal de Gilead. Não gostei do boi. Me dá gana.

- Mas que boi, vivente? Retorqui verdadeiramente surpreso.

- Aquele com nome de gente e sobrenome correntino. Onde se viu um boi macho se batizar de Gerineldo? Boi, lá em São Luis Gonzaga, no Alegrete, no Quaraí, é boi, e só!... Quando era de canga, até se permitia umas extravagâncias prá mode entender o comando da ranjeira. Mimoso, Vaqueano, Baíto. Mas qualquer boi fronteiriço se apinchava nas pedras do Salto Grande se fosse chamado de Gerineldo. De vergonha, cumpadre, de vergonha!...

Fiquei perplexo. Então o motivo de tanta indignação era, nada mais, nada menos que o nome dado pelo amigo Gilead à um terneiro Jersey de sua fazenda? Que coisa!...

- Compadre... É só um nome, compadre. Gilead é um amigo escritor. Ele poderia ter colocado qualquer nome. Tem ele o direito de homenagear quem quiser, colocando o nome em seus animais. Veja você compadre, não deu nome ao seu cavalo, seu cachorro...

-Êpa lá... Não misture as coisas. Não meta meu cusco nessa cachorrada. Além do mais ele é só Cusco. Não tem nome. Do outro lado da fronteira, as chinas chamam de “Cusco do Juca”, quando ele vai prá lá, negaciar as cadelinhas. A nado, cumpadre, a nado.

Tirou do bolso da bombacha uma fotografia amarelada pelo manuseio, e entregou-me com a recomendação:

- Mostre para esse teu amigo, cumpadre, o que é um bicho macho. E é só Cusco, cumpadre... Só Cusco.


Achei melhor não comentar. Disfarcei e fui virar a erva.


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7 comentários:

Quasímodo disse...

Antes que alguém me pergunte, esta foto recebi por e-mail, enviada por uma amiga. Não conheço o autor (a). Marta editou-a, retirando alguns elementos não muito honrosos para um exemplar deste verdadeiro ícone campeiro, o cusco, tais como uma coleira, uma corrente e uma dona a conduzí-lo.
Se alguém souber, e quiser acrescentar os devidos créditos, agradeço.

Lu disse...

Hum... quer dizer que a torre vai ficar florida agora?
Mas bah! Se não é o Juca levar erva, não sai mate!
Ameeeei o causo!
Deixo um abração pro Juca, e pra ti vivente!

Gilead Maurício disse...

Adorei! Muito bom, muito bom!

Quasímodo disse...

Lu... Querida amiga.

A erva que o Juca me trouxe de Palmeiras das Missões, eu guardo para momentos especiais, como a visita dele, da Xirua, e guardo um pouco para, pelo menos, uma ceva, quando vieres também.

Nos dias normais, tem aquela do zinco, lembra?

Beijo, amiga.

Quasímodo disse...

Gilead, Obrigado.

Juca é bastante passional. Pau, pau, pedra, pedra.

Mas é um bom sujeito.

Grande abraço.

uns olhos... disse...

já há muito, juca me conquistou com esse seu jeitinho de bicho chucro.
beijos aos dois...

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Clóvis, amigo, que delícia, o
Juca, que figaraça, o Cusco, não
aguento segurar a risada.
Só há uma palavra: genial!

Beijos

 
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