segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Gilead Maurício e os Herdeiros do Contestado



Gilead Maurício é natural de Natal, Rio Grande do Norte. Hoje radicado em Florianópolis, Santa Catarina, é administrador e jornalista.

Gilead não é daqueles jornalistas de bancada, de gabinete e estúdio. Não é desses engravatados que a gente vê na tela da televisão, lendo as reportagens que os outros fizeram. Gilead bota o pé no barro, literalmente.

Pessoa de convicção, firmeza de propósitos e comprometido com causas sociais, ecológicas e ambientais. E com a verdade. É o que se depreende com a leitura continuada de suas crônicas, reportagens e cordéis, postados assiduamente em seu blog, que recomendo a ter nos favoritos, como um livro de cabeceira. Eu já o fiz:
http://www.gileadmauriciojornalista.blogspot.com/

“Conheci” Gilead por conta de um questionamento que ele me fez, nesta Torre, um tanto quanto extemporâneo em relação à data em que abordei o assunto A Guerra do Contestado.

Embora em forma de letras, percebi nas entrelinhas certa indignação de sua parte. Queria ele saber em qual fonte me baseei para afirmar que o Monge João Maria era fugitivo do Exército. Tratei de responder-lhe imediatamente, informando a fonte, e acrescentando minha opinião sobre o assunto: de que a fonte se baseara em informações que poderiam ter sido forjadas, para denegrir a imagem dos caboclos revoltos e de seu líder. No que, aparentemente ele concordou.

Devido a essa troca de missivas eletrônicas, vim, a saber, que Gilead estava finalizando os preparativos e detalhes logísticos para realizar uma expedição à região central do conflito. E um detalhe: de motocicleta.

E o fez. Durante dias, estabeleceu seu Quartel General na cidade de Caçador, de onde partia em incursões seletivas aos principais pontos históricos da refrega.

Seu olhar crítico e seu caráter humano se dedicaram a focar, especialmente, as condições sociais dos que ele denominou “Os Herdeiros do Contestado”.

Tenho dito aqui, em mais de uma oportunidade, de que a Guerra do Contestado não teve a sua dimensão histórica devidamente reconhecida, sendo lembrada, às vezes, por alto, nos livros escolares, como um mero entrave ao estabelecimento da República. E insisto: A Guerra do Contestado foi tão ou mais importante que a Guerra de Canudos. Apenas não tivemos aqui, ainda, um Euclides da Cunha para imortalizá-la definitivamente. Talvez, e torço para isso, Gilead seja esse Euclides, nordestino/barriga-verde.

Porque, se depender das autoridades, melhor seria sepultar definitivamente esse episódio, como muito bem Gilead relata em suas memórias da viagem.

Lançou ele, também, um grito de alerta, que já venho fazendo e ao qual me associo: a expansão da monocultura do pinus em todo o meio-oeste de Santa Catarina. Essa árvore de folhas espinhentas e palitosas, de crescimento rápido, importada de alhures de clima frio, tomaram o lugar das imbuias, do cedro e das araucárias, (assunto que abordo em “Os Balseiros...) para alimentar as fábricas de celulose e de compensados, a maioria delas com um pé aqui e o corpo e a cabeça (e principalmente o cofre) lá fora, nas estranjas.

O relato dessa expedição, Gilead publicou em seu blog, especialmente criado para ela. http://herdeirosdocontestado.blogspot.com/

Recomendo que leiam a partir da postagem mais antiga, para melhor entendimento da seqüência.

Não publico fotos hoje, por não ter tido a oportunidade de pedir permissão ao Gilead, que, com certeza não se negaria a dá-la. Elas poderão ser vistas no link acima.
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A Torre já recebeu mais de 30.000 visitas. Obrigado, amigos.
Vamos ter segundo turno para Presidente. Tomara que as propostas se aclarem.
Semana que vem estarei ausente.
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2 comentários:

uns olhos... disse...

o pinus... esse parece ser um problema sério. e trouxe-me à memória uma triste lembrança. quando vim p/ pinda (e nem faz tanto tempo assim, são só 14 anos), havia aqui uma mata lindíssima. tudo está sendo tomado pelos eucalíptos... p/ alimentar a indústria dos senhores moraes.
e ainda vemos a propaganda de que há reflorestamento. pergunto eu: com eucalípto?! dá até nó na garganta imaginar o resultado disso tudo. quanta secura!!!
bem, peço perdão pelo desabafo, acho que meio fora do contexto. afinal, a postagem é sobre o contestado.
beijos, corcundinha mais amor...

Quasímodo disse...

Querida Uns.

Nada fora de contexto o seu comentário, pelo contrário.

As razões da Guerra do Contestando ainda persistem, agora mascaradas em outros fatores.

Se os caboclos da época se revoltaram contra a expulsão de suas famílias de suas terras, pela expropriação oficializada e autorizada do grupo econômico que construiu a estrada de ferro São Paulo - Rio Grande do Sul, alías, hoje abandonada, os pobres de hoje são expulsos de suas terras e de seu viver cultural e produtivo histórico, pelas indústrias madereiras.

Já passastes pela região do meio oeste de SC. Ali, onde se vê morros e morros cheios de eucalípto e pínus, já foi morada e fonte de subsistência de milhares de famílias.

Hoje alguns poucos se beneficiam. Os expoliados dessas terras, estão nas periferias das cidades, morrendo à míngua afogados na sua antiga altivez, agora perdida.

É isso o capitalismo.

 
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