domingo, 12 de julho de 2009

A Ausência do Livro


O HÁBITO SAUDÁVEL DA LEITURA



Vamos “re” Refletir:
Nossa amiga Suely do Ufa!Bloguei!, publicou-o no dia 13/01/09.
Suely diz: “O relato da história de leitura de Maria me deixou bastante sensibilizada… Nele reconheci as histórias de outras Marias, de outros Joões da vida real, com que convivemos nas escolas. Transcrevo o texto na íntegra, para que, a partir dele, façamos uma reflexão sobre como podemos mudar essas histórias.”


A ausência do livro

De Ana Miranda, publicado no número 138, de setembro de 2008, da revista Caros Amigos.


Maria é uma estudante brasileira. Gosta de ler, mas não tem o hábito da leitura. Ouve os pais, os professores dizerem que ela precisa ler, portanto sabe que precisa ler, mas não sabe muito bem o motivo. As escolas fazem um esforço para que ela leia, os governantes adquirem livros aos milhões e sustentam ou criam bibliotecas, mas Maria não lê. Ela já leu alguns livros na escola, orientada pelos professores, foi à biblioteca da escola e leu, teve dificuldades para ler um ou outro livro, mas dos livros “fáceis” ela gostou.

Maria até gosta de ler, porém não lê. Acha que é porque não tem tempo, ou porque não tem dinheiro, porque não sabe se concentrar, porque não entende… Simplesmente não adquiriu o hábito de ler. Não lê direito nem mesmo as placas de rua, as legendas de filmes, erra muito e sua mente fica confusa. Maria tem agora dezessete anos e vai fazer o vestibular, entende as matérias, mas erra nas respostas porque não sabe ler o enunciado. Não sabe ler o que encontra no computador, apenas copia e cola. Não sabe ler nem mesmo aquilo que escreveu. Não sabe escrever uma redação.


Maria cresceu distante dos livros, em sua casa jamais teve uma biblioteca na sala, nem uma pequena estante de livros, nem uma prateleira de livros no quarto, nunca viu seus pais lendo, sua mãe jamais a levou a uma livraria ou a uma biblioteca, nas salas de aula Maria jamais teve uma estante de livros, os passeios escolares jamais foram a uma livraria ou biblioteca ou editora ou impressora de livros, nos fins de semana a escola lhe oferece esporte, jamais Maria teve um horário de leitura no seu cotidiano, nem na escola nem em casa, ouviu a professora lendo livros para as crianças, encantou-se com contadores de histórias, mas jamais lhe ensinaram o hábito de ler e escrever diariamente, embora lhe tenham ensinado o hábito de tomar banho, escovar os dentes, amarrar os sapatos, fazer o dever de casa cotidianamente.


Maria percebe um esforço dos professores para que ela leia livros, mas o livro é retirado de sua vida, sua cartilha não tem o formato de livro, na escola os livros têm formato de apostila, mais parecida com revista, na igreja ela recebe um folheto. Maria nunca vê alguém lendo, o livro está fora de seu percurso diário, ela não sabe nada a respeito do livro, não sabe distinguir um bom livro de um livro ruim, os professores dão um tema que Maria vai pesquisar na Internet, e não exigem a leitura de um livro, um capítulo que seja, os professores dizem que é preciso ler, mas Maria recebe apostilas, jornais, onde se encontram os caminhos para evitar a leitura de um livro, que reproduzem trechos ou resumos de livros, e perguntas e respostas, o livro jamais fez parte da vida de Maria, ela não tem nenhum amor pelo livro, nem mesmo apreço, ou interesse, o livro não lhe diz nada, apenas ela sabe, de forma meio vaga, que precisa ler…


“E, então, o que fazer para que o livro esteja presente na vida de nossos alunos?
Quais são as ações para a construção de uma escola leitora? Deixe aqui tua contribuição.”



Eis a minha contribuição:


Trouxe de volta este assunto porque também queria encontrar soluções... Obviamente todos nós deveríamos ter o hábito de leitura, e consequentemente, sendo pais ou professores deveríamos dar exemplos aos jovens. Mas isso basta? Não estamos também pecando na ausência de leitura por falta de dinheiro? Não sei quanto a vocês amigos, mas quando eu vou a uma livraria, fico doida! Quem dera pudesse comprar tudo!


Além deste fato crucial, os jovens não gostam de ler. De fato! O que podemos fazer, é levar um pouco deste hábito para as aulas de literatura. Não sei se vale a ideia, mas eu estou tentando unir a leitura e a arte, na tentativa de resgatar os alunos que “odeiam” ler, para nosso mundo das “letras”. Quem sabe tenho sorte?


Não consigo imaginar resgate do hábito à leitura sem trabalho e mão de obra, ou seja, aquele professor que percebe que seus alunos precisam de um empurrão, ou de estímulos novos, que não arregaçarem as mangas com projetos inovadores, aulas mais dinâmicas voltadas para artes plásticas ou cênicas não vai sair do lugar comum. Quer coisa mais monótona do que ouvir o professor ler uma história? E desde quando os alunos estão ouvindo? Já é difícil mantê-los sentados, imagine atentos a uma voz única na sala de aula? E quando o aluno “tem” que ler e fazer a famosa ficha do livro? Será este é o caminho correto para adquirir o gosto pela leitura?Importante também é mostrar o livro (pelo menos um exemplar), falar dos autores, ilustradores, editora, para que valorizem aquela obra. Nada vale na vida sem apreciação.


Falando do lúdico (adoro por sinal!), os alunos querem é brincar e divertir... Então vamos deixar as aulas “clássicas” e investir no imaginário, na arte, na possibilidade de fazê-los mergulhar nas histórias com vontade e não por obrigação. Por isso sou a favor das revistas em quadrinhos, pequenos contos e similares, por causa da descontração de seus textos, de suas cores e fantasias. Se seu aluno habituar-se aos livrinhos e revistinhas a chance dele chegar a ler Dom Casmurro será maior ,não ? Claro, seu objetivo será este: trazer boas histórias, de vários tipos literários, viajando pelas fabulosas possibilidades de produções de textos e até interpretações teatrais, correto? Sem dúvida, as “Marias” que gostam de ler e não sabem para quê ler, vão ter mais facilidades, respostas e estímulos para avançarem no universo literário.


E por acréscimo, sonhe que nossos salários serão acessíveis e compraremos muitos livros e mais ainda: nossos alunos também comprarão, porque seus pais terão empregos ótimos e salários melhores ainda!


__Postagem de Krika, a professora__


Krika é a professora Cristina, de Minas Gerais. Desde os meados de 2008 ela posta aqui suas experiências. A Torre abriu-lhe espaço depois de conhecer seu trabalho e seu esforço de levar aos alunos, principamente carentes, o hábito da leitura, contrariando, em muitas vezes, o curriculum oficial.

Timidamente ela começou aqui procurando sensibilizar as pessoas para a necessidade de abrir horizontes novos para as crianças que vão para a escola, muitas vezes não por gosto, mas por falta de alternativa até mesmo de alimentação e afeto.

O seu projeto de estímulo à leitura, já se percebeu por depoimentos de alunos, reverteu, em muitos casos essa situação.

Despertou o prazer em ler, o prazer em estudar, o prazer em crescer. Abriu horizontes. Criou perspectivas de futuro, para muitas crianças que não tinham nem mesmo perpectivas de presente.

Hoje ela divide suas experiências em dois blogs que faço questão de recomendar à quem, de alguma forma, tem preocupações com o futuro desta geração. Um deles, já vem de algum tempo, foi criado junto com outra educadora, não menos dedicada e comprometida; a Géssica. Trata-se do blog Projetos e Idéias http://nossosprojetoseideias.blogspot.com/

Outro, é de sua própria lavra e igualmente interessante e bonito a cada dia que passa: Linguagem e Afins http://www.linguagemeafins.blogspot.com/

Ambos estão em destaque, de onde avisto da Torre, para facilitar o acesso.

Não nos esqueçamos porém, que são atitudes individuais e que, na maioria das vezes, são conduzidos com recursos próprios, tirados do próprio bolso para a compra de revistas e livros.

Assim, renovo o apelo. Aqueles que tiverem revistas, livros, gibis, que puderem ajudar a professora Krika no seu projeto, por favor, entrem em contato com ela por um dos blogs indicados.

Não serei eu, nem ela que agradecerão. Será o futuro.

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6 comentários:

Profe Suely disse...

Oi, Krika e pessoal da Torre!!!


Sempre é importante refletirmos sobre a ausência do livro!

Trabalho há mais de vinte anos em sala de aula (em escolas de periferia e até numa escola da unidade da Fase, desde a quinta série até EJA-ensino médio)... posso dizer que nunca encontrei alunos que não gostassem de ler...
O que sempre faltou foi acesso aos livros...
Agora, o governo federal está inundando nossas bibliotecas de obras bastante instigantes... são poucos exemplares ainda, mas dá para começar!!!

Penso que o maior problema está nos formadores: se não sou leitor ou leitora, como irei formar leitores e leitoras?

Nosso salário é curto (que lutemos para transformar isso!), mas não pode servir como desculpa para fazer menos... Basta ver o exemplo da Krika e de outras tantas educadoras...

Esse é o caminho: ler, se encantar e desejar encantar os outros! Essa é a magia das letras!!!

Abraços!

krika disse...

Suely,
Sem dúvida alguma, precisamos de formadores leitores... Eis a questão.
Você comentou tudo exatamente da maneira que penso... Só um detalhe... Quanto aos livros instigantes: certamente são para você que tem o hábito de ler, e pelo visto , você é daquelas ratas de biblioteca, não? Bem saudável aliás...
Mas.. Penso nas escolas que são pobres em tantos aspectos ainda, bem antes de receber do estado livros tão caros e desnecessários... Falo das escolas estaduais mineiras, que têm recebido caixas de livros estigantes,sim,para meia dúzia de professores e olhe lá... Dos tantos milhões de professores restantes, faça uma pesquisa e veja quem lê, o que lê,com que dinheiro compra livros e qual o tempo que tem para ler...
Penso que deveriam analisar as necessidades dos alunos, que nível estão na leitura ( aqui na escola que trabalho, de 6º ao 9°anos, infelizmente não lêem nem um Dom Quixote... Se vc perguntar quem era a Dulcinéia, duvido que saibam!). Imagine então perguntar quem foi a amada do corcundinha, aliás ,Quasímodo é um palavrão para a maioria deles... Portanto, o governo deveria enviar livros para leitores iniciantes e assim progredindo aos poucos.Não adianta o governo fazer propaganda que está cumprindo a parte deles.... Tudo um engôdo, a meu ver.
Quasímodo, qual era o nome da sua amada? Fugiu-me o nome...( não confuda com sapas, ok?)

krika disse...

Acertando a frase:
" faça uma pesquisa e veja quantos lêem, o que lêem, com que dinheiro compram livros e qu etempo têm para a leitura."
Ficou melhor né? Eta "fessora" de português....rs.. È o mundo cibernético....

Quasímodo disse...

Esmeralda, amiga Krika, Esmeralda.

uns... disse...

hummmmm
esmeralda é um belo nome p/ uma sapa.
quem sabe vou adotá-lo ao encontrar uma nova sapa perdida em algum canto por aí?
.
beijos, beijos, beijos...

disse...

Quasímodo e Krika, bons exemplos vocês dão e os questionamentos sobre como e o quanto é possível "estimular leitura" para os alunos são muito reais, aliás, mesmo afastada há tempos do meio acadêmico e tudo, percebo que as Marias são muitas. A Internet trouxe zilhões de informações, até e-books, porém, nada se completa sem o interesse verdadeiro e o encantamento que a leitura pode difundir em cada ser humano. Árdua tarefa, mas, se alguém que não ame a arte arriscar fazê-la, certamente, será mal-sucedido. Despertar essa magia só pode ser por quem acredita nela, de fato, não? Ótima reflexão! Bjins e até!

 
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