quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Gaúcho Que Laçou Um Avião

 Quando contei esta história para um grupo de amigos paulista, me arrependi.

As reações foram as mais diversas, majoritariamente de incredulidade. Alguns me reprovaram com o olhar, mas sei que no íntimo queriam gritar “mentiroso!...”

Outros se entreolharam com pena, como a combinar: “é melhor não contrariar; nessa idade os sintomas poderão piorar”.

Como, no momento, eu não estava municiado de elementos comprobatórios, só me restou emudecer arrependido. Levei comigo a gana de ir à forra e ao chegar a casa me pus a pesquisar afoitamente.

Para comprovar a veracidade da história e resgatar a minha credibilidade, conto aqui hoje como a coisa se deu e cito várias fontes, dentro as quais as insuspeitas revistas Time Magazine e O Cruzeiro da época.

Foi assim:

Irineu Noal, um jovem piloto civil de 20 anos, tinha uma namorada, filha do fazendeiro Cacildo Pena Xavier. Em outras oportunidades já tinha sobrevoado a fazenda, localizada em Tronqueiras, próximo ao vilarejo Arroio do Só, interior do município gaúcho de Santa Maria, para impressionar a moça.

No dia 20 de janeiro de 1952, no entanto, sua missão era outra, bem menos galhofeira do que em vezes anteriores. A moça tinha terminado o namoro e estaria já noiva de outro.

Irineu tinha o propósito de, num primeiro momento tentar o reatamento do namoro e, se seu intento se frustrasse, devolver-lhe as cartas que ela havia lhe enviado.

Naquele domingo de tarde clara, preparou no aeroclube de Santa Maria, o teco-teco de prefixo PP-HFP batizado de “Manuel Ribas” em homenagem ao antigo prefeito da cidade (e posteriormente governador do Estado do Paraná), e rumou para a fazenda.

Lá, o peão Euclides Guterres, de 24 anos, cuidava de uma novilha no campo, quando o avião começou a fazer manobras rasantes sobre a sua cabeça. Empunhou o laço trançado de couro cru, armou a laçada e jogou para o alto. Três ou quatro vezes, errou o alvo, e o avião subia em direção às nuvens, para, em seguida fazer nova revoada, cada vez mais ousada.

Numa passagem muito baixa sobre o rebanho, o peão mirou o avião e jogou o laço, e desta vez a corda se enrolou numa hélice e foi-lhe arrancada das mãos. Por sorte do piloto a lâmina da hélice cortou o laço próximo à presilha, livrando-o de um golpe mais forte pois a outra ponta estava presa à sela sobre o cavalo.

O avião começou a trepidar e a perder altura e Noal teve que aumentar a rotação do motor para evitar a queda iminente, e conseguiu chegar ao aeroclube.

Assustado, mas já em segurança, percebeu o pedaço do laço preso ao nariz do avião. Temendo reprimendas, escondeu-o entre as vassouras que circundavam a pista. Em vão; o pessoal de terra já havia visto o laço e os danos na hélice e Noal foi obrigado a contar o acontecido.

Cinco dias depois a diretoria do aeroclube caçou a licença de Irineu Noal e obrigaram-no a pagar uma multa pelo ato, considerado uma transgressão. O prejuízo foi de 2 mil cruzeiros com a troca da hélice, que hoje se encontra exposta na loja de ferragens da família de Noal, na rua Dr. Bozano, em Santa Maria, segundo matéria do jornal “Correio do Povo” de 29 de janeiro de 2007.

O peão Euclides Guterres, depois da proeza ficou com medo de ter cometido um crime e fugiu para o mato e só voltou para a fazenda 3 dias depois, quando o patrão Cacildo Xavier foi buscá-lo.

O Jornal “Correio do Povo” de Porto Alegre promoveu um encontro entre os dois protagonistas na sede da fazenda, cenário do episódio, quando foram mutuamente apresentados.
Euclides Guterres
Foto: Ed Keffel
O Cruzeiro
 Euclides, de chapéu de aba quebrada, confessou ter ficado temeroso quanto à sorte do piloto: “Eu não fiz por maldade. Pura brincadeira. Para falar a verdade eu não acreditava que pudesse pegar um aviãozinho pelas guampas num tiro de laço, mas aconteceu. Depois que o laço agarrou o avião, eu pensei que ele viesse abaixo. Quando ele se endireitou e subiu, tive uma grande alegria. Seria um desastre e o pobre moço não tinha culpa”, declarou.
Euclides Guterres faleceu em 1981, vítima de leucemia.

O piloto Irineu Noal, comerciário aposentado, aos 68 anos, em 1999, perguntado sobre o fato, não se sentia muito a vontade. “Foi uma brincadeira de guri” resumiu. E tripudiava sobre a habilidade do peão: “Foi pura sorte. Aquele não laçava nem vaca.”

O responsável por tornar esta façanha mundialmente conhecida, foi o jornalista Cláudio Candiota, que na época era diretor do jornal “A Razão” de Santa Maria. Encontrando-se em sua sala no jornal, foi procurado pelo comandante do aeroclube da cidade, Fernando Pereiron, preocupado com a divulgação da notícia, temendo prejuízos à imagem do estabelecimento que dirigia.

Quando soube do que se tratava, Candiota teve uma reação diametralmente oposta à pretendida por Pereiron. “Deixa comigo. Vou tornar este aeroclube famoso em todo o mundo. É a primeira vez que acontece uma coisa como essa.”

Como também era correspondente no Rio Grande do Sul da revista “O Cruzeiro”, o jornalista telefonou para a direção no Rio de Janeiro, que mandou, já no dia seguinte para Santa Maria, o seu melhor fotógrafo, o gaúcho Ed Keffel. Na edição número 19 da revista, em 23/02/1952 aparecia com exclusividade, a reportagem em cinco páginas, amplamente ilustrada.

Antes disso, devido provavelmente às datas em que as revistas eram lançadas, a americana Time Magazine, de 11 de Fevereiro de 1952 publicou a história com o título: “The Cowboy & the Airplaine”.

Outras publicações trataram do tema, como A Razão, Diário de Notícias e Correio do Povo. A Base Aérea de Santa Maria mantém em seu acervo vários jornais e revistas da época relatando a façanha de Euclides Guterres.

Viram como não menti?


Fontes: Revista O Cruzeiro n. 19 de 23 de fevereiro de 1952 / Time Magazine, de 11 de fevereiro de 1952 / Jornal Zero Hora, de 13 de junho de 1999 / Jornal Correio do Povo, de 29 de janeiro de 2007.

Da Internet:
HTTP://paginasdiversas.blogspot.com
HTTP://baraodecotegipe.blogspot.com

Foto e ilustração: Ed Keffel

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6 comentários:

Gilead Maurício disse...

Abram o olho, paulistas. Se o Clóvis conta, é porque o fato aconteceu (rsrs).

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Clóvisamigo

Peço-te um favor: podes mandar-me um desses Gaúchos que saiba laçar políticos cretinos? Podes? Então, manda! E depressa...

Abç

Andradarte disse...

Há grande Euclides.....Isso é ser Gaúch
Obrigado pela visita.
Abraço

Severa Cabral(escritora) disse...

Diga ai meu geminiano!
Esse é o meu signo...já sei com quem estou,kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Fico feliz por ter me achado,agora não vamos nos perder,kkkkkkkkkkkkkkk,nunca,kkkkkkkkkk
bjs para aquecer teu dia querido!

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Ô Gaucho, há coisa mais gostosa, do que se ir à forra?

Demoro a vir cá e acho que vale à pena, parece que a história bem "amadurecida" fica bem melhor...

Meu amigo Clóvis, que paulistas!!!
duvidar logo de quem!!!! do Quasímodo!

Que episódio, que gaúcho bom de laço. O final, poderia ter sido trágico mas, também, quem manda um apaixonado perturbar tanto com voos rasantes e exibicionistas!...MUITO BOM!

Grande abraço, amigo!

Quasímodo disse...

Pois é, gente. Laçar avião pelas guampas só no meu Rio Grande. Abraço, Gile, Henrique, Andrade, poetisa Severa e amiga de sempre, Lúcia.

 
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