terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Padre de Fronteira

 Padre Alípio Servo não era Servo antes do seminário, quando ainda caçava passarinhos no pouco de folga que o pai lhe dava, depois das lidas no parreiral. No tempo do Getúlio e da guerra, quando era proibido e perigoso falar italiano, até se pensou em seguir as recomendações do comissário e mudar de nome.

O padre que vinha oficiar a missa a cada dois meses na capelinha da linha foi contrário: “Si reso Missa Latina, quae etiam Italici, propter nomen tuum debes mutare?”

Assim, tomando os devidos cuidados, o nome permaneceu Schiavo; Alípio Schiavo, embora os irmãos mais velhos o chamassem de “Vernici” por causa de uma mancha preta que ele tinha, desde o nascimento, no lado esquerdo do queixo.

Italiano só se falava em casa, e debaixo das videiras no tempo da colheita, quando se cantava baixinho: Addio mia bella, addio, l'armata se ne va e se non partissi anch'io sarebbe una viltà. E se non partissi anch'io sarebbe una viltà.

Il Duce... Ah, Il Duce!... La redenzione di tutti gli italiani nel mondo, foi o que disseram os rapazes que vieram de Caxias, numa tarde de domingo ensolarado quando estavam jogando bocha. Da linha, só o Pietro, o terceiro irmão, por ordem de nascimento, deixou-se seduzir e foi com os rapazes para Caxias.

Depois a guerra passou. Parece que o Brasil ganhou, mas que importa? É tempo de passar verderame nas parreiras. A terra ficou pouca. O pai comprou umas terras no Barracão e mandou para lá os dois mais velhos, o Genaro e o Giusepe. A irmã Adele estava com casamento marcado e ajudava pouco na lavoura, ocupada com o enxoval. Pietro, depois da guerra, se empregou como alambrador numa fazenda em São Borja, de maneira que escaceou os braços e o serviço se multiplicou para os que ficaram; ele e o pai.

Na colheita Genaro e Giusepe vinham do Barracão ajudar e traziam mais uns quatro ou cinco de lá, gente que não estava acostumada com os morros e por isso rendiam pouco.

 Pietro veio uma vez, fora da época da colheita. Falou maravilhas do campo. Terras a perder de vista, tudo plano, sem pedras e sem peraus. Lá, ele dizia, não precisa se matar na roça. Os bois se criam sozinhos. Pasto é o que não falta.

E tem serviço pra mais gente. Não é serviço pesado, mas como as fazendas são muito grandes, carece de ginetes que as percorra. Chissà se il fratello Alípio non è interessato ad andare a conoscere?

- Ma che? Questo bambino? Lui sa come lavorare sul campo con un bue, solo piantagione, raccolto.

- Só por uns tempos papá. Enquanto o serviço aqui não aperta. Para conhecer. Depois ele volta.

- Va bene, va bene!

E ele foi com a benção do pai.

As terras da fronteira eram mesmo boas. Estabeleceu-se junto com o irmão num galpão e, durante o dia, percorriam as cercas, pregando um grampo aqui, socando um palanque acolá, vez que outra traziam para a mangueira grande uma novilha com suspeita de bicheira, tarefa difícil para ele que estava ainda no aprendizado do manejo das rédeas do cavalo manso que o irmão arrajara para si.

Tudo corria bem até a chegada do “Paisano”, que se estabeleceu no galpão e por lá foi ficando. Era um homem comprido, magro, de cabeleira escorrida que se lhe cobria os ombros. Gavola e contador de causos, viera de Corrientes para se ajustar como peão da fazenda, e ali aguardava a volta do patrão, que estava em São Borja.

Foi na roda do mate, a noitinha que a confusão se deu. O paisano servia a cuia, e passava para os que chegavam do campo e se sentavam ao redor do fogo. Alípio e Pietro, recém vindos, se estabeleceram perto da porta, ainda com o suor do dia. O argentino, que havia enchido a cuia se dirigiu ao Alípio:

- Pega uno, muchacho sucio?

Pietro, sem entender, perguntou a um peão que estava ao lado:

- O que ele disse?

- Chamou teu irmão de guri sujo...

- Ma che?... Mio fratelo non è sporco!...

A briga se formou. Na confusão Pietro cortou o braço do castelhano logo abaixo do cotovelo. Vieram os apartadores e retiraram o cabeludo que ainda tentava argumentar aos gritos:

- Lo dijo “sucio” debido a la pintura en la cara...

Quando o patrão chegou, e mandou chamar o Pietro, já estava com decisão tomada:

- Mandei o clinudo prá outra banda do Uruguai. Não quero desavença na minha estância. Você fica, porque é bom nos alambrados. Nenhuma novilha minha se perdeu nos corredores nos últimos tempos. Mas despache o teu irmão de volta. Não me tem serventia.

E assim ele voltou para a serra.

Quando Genaro casou-se em Barracão, às pressas e contra a vontade dos irmãos da moça e voltou para casa, o pai decidiu que já era hora de encaminhar, a ele, Alípio, segundo o que toda familha italiana e temente a Deus deveria fazer. Mandou-o para o seminário em Garibaldi.

O tempo de estudo passou rápido. Fora ordenado padre numa cerimônia na Igreja Matriz, em que vieram os parentes.

- Padre Alípio Servo – recomendara o Frei Anacleto. Servo ficará melhor que Escravo. Servo do Senhor. Ele o marcou desde o nascimento. Servo.

O episódio de São Borja teria se perdido na memória se, depois do seminário os Capuchinhos não o tivessem mandado novamente para a fronteira, como pároco numa comunidade entre Uruguaiana e Quaraí.

Recebido com festa, já nos primeiros dias, inclinou-se gradativamente a favor das queixas dos residentes, em detrimento dos argentinos e uruguaios que atravessavam a fronteira nos domingos para abastecerem-se nas lojas e armazéns do lado de cá. O câmbio ajudava. E ficavam para a missa das 10, enchendo a igreja com seus sotaques.

- Sucio, sucio!... parecia ouvir do púlpito.

A princípio ele pregava a palavra sem distinções. Mas aos poucos, sem mesmo perceber, começou a introduzir alguns termos que não se encontravam originalmente na Bíblia, como, por exemplo, durante o sermão em que condenava o homicídio:

- "Em certa ocasião, Abel apresentou ofertas que foram agradáveis ao Senhor. Mas da oferta do seu irmão, o “castelhano” Caim, Deus não se agradou e com ciúmes, o “castelhano” Caim matou o seu irmão Abel."

O turco Mansur, dono da loja A Barateira veio a ele, certa manhã:

- Padre, Patrício... Meu loja tem prejuízo. Povo não vem comprar por causa do sermon do rio.

Dias antes tinha ensinado sobre o Êxodo:

-“ Então Moisés, tocando as águas, assim, como as águas do Uruguai, elas se abriram e seu povo passou. Mas quando os seus perseguidores estavam no meio, as águas se fecharam novamente, matando um monte de castelhanos afogados.”

As reclamações dos comerciantes chegaram até o prefeito.

- Padre, é preciso que modere os seus sermões. Eu mesmo não simpatizo com os castelhanos, desde os tempos do Solano Lopes, mas mesmo naqueles tempos eles estavam do nosso lado. E agora eles gastam bastante aqui.

- Mas eu só faço é exempleficar, para que o povo entenda...

O delegado, também procurado, tratou logo de se eximir.

- Não podemos misturar os assuntos, prefeito. Se nos metermos, os eleitores ficarão do lado do padre. E isso não será bom, a oposição vai se aproveitar.

- A saída é mandar um próprio até a Cúria. Ou melhor, eu mesmo vou.

Na Sexta-feira Santa, ainda antes da procissão, o Vigário chegou de Uruguaiana.

- Padre Alípio Servo.Vim acompanhá-lo nas cerimônias religiosas de hoje. Temos recebido reclamações das forças vivas da cidade. Consta que o senhor tem usado termos depreciativos para com os nossos irmãos castelhanos. Isso pode até gerar um incidente diplomático, além de indispor a igreja contra o estado e as autoridades. Não estou em missão oficial da igreja, mas estarei atento, no meio do povo.

A procissão transcorreu sem sustos.

Na missa das 10, o sermão foi assim:

- Estando Jesus, reunido com seus apóstolos para a ceia da Páscoa, disse: - Um de vós há de trair-me. E os apóstolos, um por um responderam: - Certamente não serei eu, Senhor.

- Mas quando chegou a vez do...

Estava prestes a dizer: “do castelhano Judas”, quando viu, no meio do povo o Vigário, observando atento e emendou-se a tempo.

- E quando chegou a vez do Apóstolo Judas, este lhe disse:

- Por supuesto que no soy yo, Señor!...

Tres dias depois recebeu uma carta do Bispo, comunicando que lhe fora designada uma nova Paróquia, em Nova Bassano.

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A todos os amigos e amigas, leitores do "Letras da Torre" que me acompanharam durante o ano que finda, desejo um Natal de renovação e alegria. Que o ano que se inicia seja rico em realizações e que possamos continuar juntos.

Estarei indo para o sul, rever minha terra, amigos e parentes. Talvez até assista à Missa do Galo na Paróquia do Padre Alípio.

Até a volta...
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3 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Clóvisamigo

Servo é servo, gato é gato. E judas foi Judas, mas levou pra contar, suicidaram-no e ponto. A figueira éke não tinha culpa nenhuma, ni hablaba castellano,tanto meno parlaba italiano.

Gostei; gostei muito; gostei muitíssimo; gostei muitissimérrimo!

E boa viagem, caté

Abç

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Gosto muito de histórias de padres, contada por você, ficam adoráveis.
A gente vai lendo e sente que é real (poderia ser inventada, né?)

Padre Alípio, lembra o Padre Verdexa ou o Padre Quinderá, daqui do Ceará. Desse último, sei anedotas hilárias, que papai contava.

Obrigada, pela mensagem natalina e de bom ano novo.
Desejo-lhe o mesmo,com carinho.
Aproveite bem, em sua terra!

Um abraço.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Que férias tão longas!
A Torre tá tão vazia...quero LETRAS!

Um abraço, de ano novo, não tão novo assim, já se foram 10 dias....

 
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