domingo, 5 de outubro de 2008

Erva Mate e Chimarrão

A postagem anterior, principalmente a letra da música "Um Mate Por Ti", gerou diversas consultas ao Anfitrião da Torre sobre essa tradição. Essas consultas motivaram a que hoje publicássemos esta página exclusivamente dedicada ao assunto.

Digo "publicássemos" pois que Juca Melena trará a sua contribuição singular para o melhor entendimento do tema.

A Erva-mate (Ilex paraguariensis) é uma árvore da família das aquifoliáceas, originário da região subtropical da América do Sul, presente no sul do Brasil, norte da Argentina, Parguai e Uruguai. Os indígenas das nações Guarani e Quíchua tinham o hábito de beber infusões com suas folhas. Hoje em dia este hábito continua popular nestas regiões, consumido como chá quente ou gelado, ou como chimarrão (Brasil - principalmente Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), Uruguai e Argentina e tereré (Brasil (especialmente Paranã e Mato Grosso do Sul) e Paraguai.

Pode atingir 12 metros de altura, tem caule cinza, folhas ovais e fruto pequeno e verde ou vermelho-arroxeado. As folhas da erva-mate são aproveitadas na culinária.

A palavra mate deriva do quíchua mati que designa a Cuia ou seja, o recipiente onde o chá era bebido ou sorvido por um canudo (bomba). O hábito ainda hoje é muito popular em todo o sul da América do Sul, e no Brasil a bebida é chamada de Chimarrão.

As plantas nativas só se reproduziam por meio de pássaros da região que ingeriam o pequeno fruto e defecavam sua semente já escarificada. A plântula é muito sensível ao sol tanto que, mesmo no plantio moderno a técnica exige sombreamento até que a planta atinja alguma maturidade.

Atualmente existem viveiros que produzem mudas de variedades selecionadas, cujo plantio é feito com técnicas especiais em grandes hortos. Para facilitar a colheita anual dos ramos, a árvore é severamente podada para manter-se a não mais de 3,00 metros de altura. Dessa forma evita-se plantas altas que dificultam a colheita das folhas jovens, consideradas nobres na infusão do chá mate.

Outra prática bastante popular no planalto curitibano, um habitát original da erva-mate, é conciliar o plantio da Araucária com o do mate. Técnicas como essa são comuns para um controle ambiental mais rígido, e para evitar o desgaste do solo.

Propriedades:

Estudos detectaram a presença de muitas vitaminas, como as do complexo B, a vitamina C e a vitamina D, e sais minerais, como cálcio, manganês e potássio. Combate os radicais livres.Auxilia na digestão e produz efeitos anti-reumático, diurético, estimulante e laxante.Não é indicado para pessoas que sofrem de insônia e nervosismo, pois é estimulante natural.Pode ser usada verde ou tostada e no preparo de chás e chimarrão.Misturada com extrato de maracuja pode ser usada como bebida quente ou gelada.Misturada com suco de limão natural e bem gelado, torna-se uma bebida muito refrescante para os dias quentes e também nos dias frios.Nos dias frios ou quentes, pode ser apreciada em um chimarrão.

Nomes Populares:

Mate, erva-mate, erveira, congonha, erva, erva-verdadeira, erva-congonha, chá-mate, chá-do-paraguai, chá-dos-jesuítas, chá-das-missões, mate-do-paraguai, chá-argentino, chá-do-brasil, congonha, congonha-das-missões, congonheira, mate-legítimo, mate-verdadeiro, chimarrão, terere, chá verde nacional.Outras denominações menos comuns são: erva-de-são bartolomeu, cu-de-boi, orelha-de-burro, chá-do-paraná, congonha-de-mato-grosso, congonha-genuína, congonha-mansa, congonha-verdadeira, erva-senhorita. Denominações indígenas para a erva-mate são caá, caá-caati, caá-emi, caá-ete, caá-meriduvi e caá-ti.Em outros idiomas temos: Yerba maté ou maté tea (inglês), maté vert (francês), yerba mate (espanhol), malté (italiano), Matetee ou Mate paraguaensis (alemão), mate-tchá (japonês), mateo (esperanto).




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Buenas, compadre. Tem bóia?... Vim prá pousar.

Hoje te trouxe umas cevas, da boa, lá da Palmeira. Da outra feita, quando por aqui me arrachei, andavas nas economias. Era falta de plata, compadre?... Não?... Então. Pensei que fosse. Por isso vim prevenido. Queres causos do mate?... Da erva?... Pois conto.

Quando o tempo desenha com sua pena o ano de 1554, o General Irala, boleou a perna na região de Guairá, situada à oeste do atual território do Paraná e encontrou lá uma tribo de guaranis pacíficos e hospitaleiros. Um dos hábitos destes indígenas lhe despertou muita curiosidade. Tratava-se do uso generalizado de uma bebida feita de folhas picotadas, tomadas dentro de um porongo, por intermédio de um canudo de taquara. Ao indagar sobre a origem daquela bebida, responderam os índios tratar-se da "caá-i", um hábito que teria sido inicialmente de uso exclusivo dos pajés em suas práticas de magia, mas que foi estendido aos outros guerreiros, em virtude de seus diversos benefícios.

E, mesmo depois do término das guerras, o seu uso continuou, pois seus efeitos estimulantes, fortaleciam tanto o corpo quanto a alma.

"Caá" era o nome da ervateira e a "caá-i" era a bebida do mate. Esta bebida nativa foi um estrondoso sucesso entre os soldados de Irala. E, quando retornaram a Assunção, levaram um carregamento da erva para apresentá-la aos amigos.

Esta bebida impressionou tanto os espanhóis por sua natureza curativa e revitalizante, que despertou o interesse dos comerciantes de Assunção que visavam antes de tudo, o lucro financeiro. Foi uma correria doida até os ervais e em pouco tempo, a cidade duplicou de tamanho e sua população de riqueza. Entretanto, tal consumo foi condenado pela Igreja Católica, em plena Inquisição, em função dos índios lhe atribuírem poderes mágicos que apontavam sua origem à deuses pagãos. Mas tal proibição, acompanhada de multas, prisão e queima da erva, não impediu que o hábito se disseminasse.



O MATE NO RIO GRANDE DO SUL

Se os soldados de Irala estivessem se dirigido para o atual Rio Grande do Sul e não para Guairá, aqui, teria ocorrido a descoberta do uso do mate pelos europeus.Um expressivo número de tribos guaranis viviam ao longo dos Rios Ijuí, Jacuí e Camaquã. Para a colheita da erva mate, eram empreendidas expedições à serraria vizinha da Lagoa dos Patos, no vale do Rio Pardo e nos descampados do Planalto.

Acredita-se que os carijós, no litoral, assim como os guenoas da Campanha, também fossem apreciadores de um gostoso mate, mas inexistindo nestas redondezas, bosques de "caá", este hábito somente poderia ser mantido por intercâmbio com os guaranis. "Sem esta erva", testemunhou o Pe. Nusdorffer, no século XVII, "o índio não pode viver".

Enquanto os índios do Guairá empreendiam suas viagens aos ervais subindo o Paraná em grandes embarcações, os ervateiros das Missões rio-grandenses iam montados a cavalo, levando uma boa provisão da erva, além de quinhentas a mil reses, para seu sustento naquela viagem de cento e tantas léguas. E, depois de cumprida a tarefa, retornavam eles, acompanhados por toda a população, procuravam a Igreja para agradecer o sucesso do empreendimento.

Os ervais missioneiros faziam parte do Tupambae, um campo comum, cujos produtos adviriam em proveito da coletividade. "Cada dia, depois de ouvirem a missa e igualmente depois do rosário que se reza pela tarde, os que acudiram ao templo vão receber o mate, uma onça e meia pelo menos para cada pessoa, o qual lhe dá o mordomo em presença do cura e do corregedor.

Aos que estão ocupados em serviço público, seja em ofícios, seja fora no campo, envia-lhes a quantidade de mate que parece proporcionada ao número de trabalhadores. Igualmente é preciso prover de erva aos que cuidam do gado nas estâncias e nas pastagens; e se alguns índios são enviados de viagem, não há de faltar nunca este artigo em suas provisões".

Quando do Tratado de Madri de 1750 e da sua subseqüente Guerra Guaranítica, o uso do mate já tinha se tornado costume entre os dragões e demais soldados dos quartéis do Rio Grande e Rio Pardo. Depois da Guerra Guaranítica efetuou-se a expulsão da Companhia de Jesus dos territórios europeus e coloniais de Portugal e da Espanha. Deste modo, os Trinta Povos das Missões de Guaranis perderam a unidade, subdividindo-se em quatro grandes províncias. Cada povo passou a ser gerido por uma espécie de administração mista, a cargo de um vigário e de um comandante militar.

Em 1801, como reflexo de nova guerra na Europa, um grupo de aventureiros rio-grandenses pratica a extraordinária façanha de incorporar para o Brasil a região dos Sete Povos. A partir dessa incorporação, normalizou o fornecimento da erva missioneira para a Capitania do Rio Grande do Sul, já sem burlas "aduanas"ou pagar direitos alfandegários, pois tudo agora era Brasil. Por volta de 1820 o hábito do chimarrão já se enraizara definitivamente nas cidades e nos campos da Capitania.

O grande papel que desempenhou a erva-mate na sociedade gaúcha pode der avaliado por sua presença dentre os símbolos nacionais farroupilhas. No brasão da República já encontrávamos ramos de erva-mate contornando o barrete frígio e perdura até hoje no brasão e na bandeira do Estado do Rio Grande do Sul.

Nos dias frios, os índios tomavam o chimarrão e nas estações cálidas bebiam a cada instante o tereré, mistura de erva-mate e água fria.


"Não é a luz bem nascida

Já eu junto do fogão

Me preparo para a lida

Tomando o meu chimarrão.

É ele o constante amigo

Que vem logo ter comigo

De dia ao primeiro alvor.

Da mente as névoas consome,

Mata a sede, ilude a fome

E a todo ser dá vigor."

(Assis Brasil)








VERSÃO INDÍGENA

Há muitos e muitos anos, no tempo dos Tapes, uma grande tribo de fala guarani estava de partida.

Precisavam encontrar um outro lugar para morar onde a caça fosse farta e a terra fértil.

Lentamente os índios foram deixando a aldeia onde haviam vivido tantos anos. Quando não havia mais ninguém, pelo menos era o que parecia, de repente, pássaros voam assustados.

O couro que cobria a entrada de uma cabana foi afastado e surge um velho índio, curvado pelo peso dos anos e com os cabelos completamente brancos. Atrás dele caminha uma linda jovem índia.

Ele é um velho guerreiro sem forças para acompanhar a tribo em busca de novas terras. Ela chamava-se Yari e era sua filha mais nova, que não teve coragem de abandonar seu velho pai, certa que sozinho ele não iria sobreviver.

Numa triste tarde de inverno, o velho entretido colhendo algumas frutas, assustou-se quando viu mexer-se uma folhagem próxima. Pensou que fosse uma onça, mas eis que surge um homem branco muito forte, de olhos cor do céu e vestido com roupas coloridas. Aproximou-se e disse-lhe: - Venho de muito longe e há dias ando sem parar. Estou cansado e queria repousar um pouco. Poderia arranjar-me uma rede e algo para comer?

- Sim, respondeu o velho índio, mesmo sabendo que sua comida era muito escassa. Quando chegaram à sua cabana, ele apresentou ao visitante a sua filha. Yari acendeu o fogo e preparou algo para o moço comer. O estranho comeu com muito apetite. O velho e a filha cederam-lhe a cabana e foram dormir em uma das outras abandonadas.

Ao amanhecer o velho índio encontrou o homem branco e fez de tudo para que ele parasse. O outro, porém, respondeu-lhe que tinha percebido a necessidade dos dois e se propunha ajudar. Dito isso, embrenhou-se em direção à floresta. Depois de algum tempo retornou com várias caças.

- Vocês merecem muito mais! explicou o homem. Ninguém já me acolheu com tanta hospitalidade, me dando tudo o que possuíam. Falou também que tinha sido enviado por Tupã, que encontrava-se muito preocupado com a sorte dos dois.

- Pela acolhida que recebi, lhes reservo o direito de atender a um pedido. Diga o que deseja! O pobre velho queria um amigo que lhe fizesse companhia até o findar de seus dias, para que pudesse deixar de ser um fardo para sua doce e jovem filha.

O estranho levou-lhe então até uma erva mais estranha ainda dizendo: - Esta é a erva-mate. Plante-a e deixa que ela cresça e faça-a multiplicar-se. Deve arrancar-lhe as folhas, fervê-las e tomar como chá. Suas forças se renovarão e poderá voltar a caçar e fazer o que quiser. Sua filha poderá então retornar a sua tribo.

Yari resolveu que de qualquer jeito jamais partiria. Ficaria para fazer companhia ao pai. Pela sua dedicação e zelo, o enviado do tupã sorriu emocionado e disse: - Por ser tão boa filha, a partir deste momento passará a ser conhecida como Caá-Yari, a deusa protetora dos ervais. Cuidará para que o mate jamais deixe de existir e fará com que os outros o conheçam e bebam a fim de serem fortes e felizes.

Logo depois o estranho partiu, mas deixou na cabeça de Yari uma grande dúvida: como poderia ela, vivendo afastada das demais tribos divulgar o uso da tal erva? E o tempo foi passando...

Em uma tribo não muito distante dali, os índios estavam contentes com a fartura das caçadas. Organizaram uma grande festa para comemorar, não faltava comida e muita bebida. Mas a bebida demais levou dois jovens índios a começaram a discutir. Tratava-se de Piraúna e Jaguaretê. Da discussão ao enfrentamento foi um passo. No furor da briga Jaguaretê empunha um tacape e dá violento golpe na cabeça de Piraúna, matando-o. Jaguaretê foi então detido e amarrado ao poste das torturas. Pelas leis da tribo, os parentes do morto deveriam executar o assassino. Trouxeram imediatamente o pai de Piraúna para que ordenasse a execução. Muito consciente que a tragédia só aconteceu por estarem os jovens sob o efeito da bebida, liberou o Jaguaretê, que foi então expulso da tribo e foi buscar sua sorte no seio da floresta e quem sabe nos braços de Anhangá, espírito mau da mata.

Conforme caminhava e o efeito do álcool era amenizado, mais se arrependia do mal que fizera. Passadas muitas décadas, alguns índios daquela tribo, aventuravam-se na mata fechada em busca de caça que já estava rara no local em que viviam. Entrando no sertão, no meio da floresta, encontraram uma cabana e foram aproximando-se com cuidado, mas mesmo assim foram pressentidos e saiu da cabana um homem muito forte e sorridente.

Muito embora seus cabelos fossem totalmente brancos, sua fisionomia era de um jovem e ofereceu-lhes uma bebida desconhecida. Identificou-se então como sendo Jaguaretê, o índio expulso de sua tribo e que a bebida desconhecida era o mate.

Contou que quando foi abandonado a sua sorte, muito andou e quando estava apertado de cansaço e remorso, jogou-se ao chão e pediu para morrer. Acordou-se com a visão de uma índia de rara beleza que apiedando-se dele disse-lhe: - Meu nome é Caá-Yari e sou a deusa dos ervais. Tenho pena de você, pois não matou por gosto e agora arrepende-se amargamente pelo que fez.

Para suportar seu exílio, eis aqui uma bebida que o deixará forte e lhe esclarecerá as idéias. Levou-o até uma estranha planta e voltou a dizer: - Esta é a erva-mate. Cultive-a e a faça multiplicar. Depois prepare uma infusão com suas folhas e beba o chá. Seu corpo permanecerá forte e sua mente clara por muitos anos. Não deixe de transmitir a quem encontrar o que aprendeu com o mate. - Por tanto, jovens guerreiros, quero que leve alguns pés da erva-mate para a sua tribo e que nunca deixem de transmitir aos outros o que aprenderam.

Aqueles índios voltaram e contaram aos outros o que haviam ouvido. O mate foi plantado e multiplicou-se. Outras tribos apreenderam e foi desta forma que seu uso chegou até nós.




Há porém, uma outra tradição assaz diversa sobre a aplicação e uso da erva-mate. Ela foi também um veículo dos mais eficazes usados na feitiçaria ou magia guaranítica. Narra-se que um feiticeiro foi ensinado por Anhangá como deveria beber a erva, quando quisesse consultá-lo. O pajé seguiu a risca as instruções e desde então fazia maravilhas. Passou a usá-la também como ingrediente nas suas feitiçarias.

Diziam os feiticeiros: - "A erva me disse isso ou aquilo..", quando davam seus oráculos. Os feiticeiros comunicaram seu mistério a outros e, pouco a pouco, o uso se tornou geral. Diziam que não havia coisa que se prestasse mais para causar dano.

Esta bebida também servia de filtros e muitas mulheres fizeram deste negócio um comércio. Ainda hoje se tem o costume, de quando se oferecer a cuia a um amigo, o dono da casa deve sugar os primeiros goles e jogá-los fora, pois por herança deste costume antigo, acredita-se que os primeiros sorvos não são bons. A alegação para tal feito é que o demônio Anhangá contamina a erva com seu maléfico influxo.

Deve-se atirar os primeiros goles da boca para as costas, um por cima do ombro direito e o outro por cima do esquerdo.






HORÓSCOPO DO CHIMARRÃO, nossa Poção Mágica:

Te aconselho a tomar o chimarrão no início do teu dia, mesmo que ele comece às quatro da tarde.

Os índios, seus inventores, o tomavam antes de ir para as batalhas. 0 Chimarrão te dá força e pique para ires à luta no dia a dia, e, ainda por cima, te deixa buenaço ou lindona, no más. Aproveita essa hora sagrada para abrir um livro, jogar um tarot, ou fazer uma meditação sobre a tua vida.

Aí, ficarás bonito ou bonita, por dentro e por fora! E vamos aos locos!

ÁRIES - Esse, acha que a cuia é dele! Tu tá recém pondo a chaleira no fogo, e ele já tá ali, perguntando se tá pronto. Esbaforido, sempre se queima, ou fica com a bomba entupida, pois que não tem paciência pra esperar que a erva assente. Dá-lhe um Trancaço, e diz que no Natal ele vai ganhar uma cuia só pra ele. Não te preocupa, que é loco manso.

TOURO - ele primeiro vê se a cuia é linda, no más, e depois, fica ali, acariciando a dita, com cara de libidinoso. Como em geral, é guloso pra caraco, te passa o mate, mas fica te olhando atravessado, e ruminando... como é do seu feitio. Não vale a pena discutir com o bagual, pois além de cabeçudo, quase sempre é o dono da cuia e da bomba...

GÊMEOS - o vivente já entra no rancho falando e contando causo, trovando e matraqueando que é um inferno. Tudo com a cuia na mão. Até que o povaréu começa a ficar nervoso. Conselho: antes que esfrie até a água da térmica, saiam de fininho e vão tomar mate em outro lugar. Ele nem vai notar.

CÂNCER - esse já pega a cuia com ar de desolado, pois que a cuia lhe lembra a mãe. De tão sentimental, às vezes, ate chora, lembrando do primeiro chimarrão (que a gauchada nunca esquece). Quando sente medo do escuro, dorme com a cuia embaixo do travesseiro. E tem pencas de cuias e bombas entupindo as gavetas... de recordação, ele diz.

LEÃO - loco o convicto, não é que me inventou de mandar gravar um brasão de família na cuia e outro na bomba? Só toma chimarrão, se tiver um povo em volta pra ficar lhe olhando, e aí, aproveita, e desata a trovar e a declamar, esperando que lhe aplaudam. Sempre é bom não contrariar.

VIRGEM - primeiro, ele lava as mãos e todos os apetrechos, depois, confere se a erva é ecológica, e por aí vai. Acha que, o certo mesmo, era cada um ter a sua própria cuia, bomba e mate. Mas, por via das dúvidas, carrega sempre um paninho que, discretamente, vai passando no bocal da bomba. Como é metido a botiqueiro, e conhece todo tipo de erva deste Rio Grande, enquanto mateia, vai dando receitas e curando, de lombriga a esquizofrenia.

LIBRA - flor de fresco, chega a pegar a bomba com o dedinho levantado. Mas compensa, pelo senso de justiça. Só toma o mate depois que todo mundo já se serviu. Pra ele, matear, também pode ser sinônimo de namorar; daí que, se prenda, só faz roda de mate com a indiada marmanja, e, se marmanjo, põe açúcar e mel na cuia, e vai, todo lampero, pro Brique, ver se atrai as mosca, quer dizer, as moça.

ESCORPIÃO - pega a cuia, e matreiro... sai de fininho para algum canto, remoendo traumas, encucações e toda a sorte de loucuras. Sem essa de que vingança é um prato que se come frio, pois que, na água quente do amargo, fica tramando seus planos de vingança (inclusive, e principalmente: Revolução Farroupilha, a revanche!). E, ai daquele que não lhe passar a cuia. Outro que tem fantasias sexuais com a cuia, com a bomba e com a térmica. Só não me pergunte quais.

SAGITÁRIO - em geral estrangeiro, pois sagitariano que é sagitariano, nunca está em seu país de origem; aqui, no Rio Grande, pode ser um carioca, paulista ou baiano que, sem entender nada de tradição, fica mexendo o mate, com a bomba como se o amargo fosse um milk-shake. Conheci um que queria misturar mate com fanta uva.

CAPRICÓRNIO - inventou o tele-chimarrão com pingo-boy e tudo, e o chimarrão de negócios, o qual pratica toda a sexta-feira na sua empresa, que, aliás, exporta cuia, bomba, erva e demais aparatos para a gringolândia. Diz que já tá fazendo até japuca largar o chá e pegar a cuia.

AQUÁRIO - rebelde até a última cuia, acha que esse negócio de chimarrão tá superado. Só não sabe pelo quê. Doido, mas metido a bonzinho, adora um povaréu; daí que, convida todo o vivente que estiver passando, pra sua roda de mate. Acha que se o chimarrão fosse servido na ONU, o mundo seria outro.

PEIXES - inventou a leitura de cuia e "recebe" entidades durante a mateada. Se desconhece o tipo de ervas que usa... mas, diz que faz roda de chimarrão com os daqui e com os do além. Por isso, um conselho de amiga: se a roda de chimarrão for em outra estância, que volte de táxi.

Fonte: Livro "A Bruxa Gaudéria e o bando de loco!", de Rose de Portto Alegre. Martins Livreiro Editora, 2003.

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"E a cuia, seio moreno

que passa de mão em mão,

traduz no meu chimarrão,

em sua simplicidade,

a velha hospitalidade

da gente do meu rincão".

(Glaucus Saraiva)







Bibliografia consultada:

História do Chimarrão - Barbosa Lessa

Mitos e Lendas do RS - Antonio Augusto Fagundes

Lendas do Brasil - Gonçalves Ribeiro

Ilustrações J. Lanzellotti

O Livro do Mate - Romário Martins

Contos Gauchescos - João Simões Lopes Neto

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Obrigado a todos que vierem matear na torre. Perdoem-me se me alonguei em demasia. Faltou ainda uma receita de como se prepara o chimarrão. Juca promete-nos trazer esse assunto em sua próxima visita.

8 comentários:

Luzia disse...

Oi Corcundinha de Notre maté vert, rs

Fiz uma primeira leitura, meio na diagonal diga-se... mas repetirei garanto!
Fiquei a saber que até com fanta uva eu poderei misturar o chimarrão, com vinho funciona? rs

Venho trazer palavras com mais sentido noutra altura.

Entretanto vou fazer uma recolha das marcas de mate à venda em Portugal para que me diga a que devo comprar... rs

Beijoquinhas lusas!

retalhos disse...

Amigo dos mates à tardinha, sob jabuticabeiras.
Apenas você e tão somente você poderia discorrer tão poética e lindamente sobre essa maravilha.
Li e voltarei pra reler.
Em tempo, vou sorver do mate catarinense, com toda certeza.
Dizer mais, não consigo.
Te deixo meu abraço, neste domingo noturno.

Milly disse...

Ach!
(pensando o que dizer...)
.
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O amor que tens por tuas raízes me comove!
Sei,sei..todo gaúcho é bairrista,vais dizer.
Mas,sei lá,tens um jeito sereno de falar de tuas paixões...nada imposto,só oferecido...se delicia quem assim o desejar...
Isto me faz voltar...
.
Lindo texto!!
Beijos...muitos!
.
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Anne disse...

Bah, apesar de ser do sul e amar as tradições gauchas, o chimarrão é uma que nunca me atraiu... não gosto, não tomo, mas estou sempre sentada nas rodas de chimarrão proseando, é só pular a minha vez...rs.

GÊMEOS - o vivente já entra no rancho falando e contando causo, trovando e matraqueando que é um inferno. Tudo com a cuia na mão. Até que o povaréu começa a ficar nervoso. Conselho: antes que esfrie até a água da térmica, saiam de fininho e vão tomar mate em outro lugar. Ele nem vai notar.

Opa, até que isso parece comigo, mas ainda não me deixaram falando sozinha e eu não entro com a cuia...hahaha. Adorei isso, ri um monte lendo os do povo conhecido!

O Juca é sempre uma figura mesmo, manda ele lá no Chá pra ver a perereca...ahsuahsuhsuhaus

Beijos, meu querido!

Gata de Rua disse...

Imagina!!!!Nem faço discursos, na hora do chima. Nem filosofo as discordâncias do dia a dia...que desafôro...e nem ouse discordar!!!Leoas , tem garras!!!
Rs...bjoss

Gata de Rua disse...

têm....afinal, vão ou não vão aposentar esse bendito chapéu?

rose porto alegre disse...

Olá
como vejo q vcs têm meu texto aí,vou convidá-los para conhecer e divulgar os blogs: amagicadeoz barradosnoeden cineipanema nasquebradasdavida bruxagauderia
abraços a todos/

Quasímodo disse...

Mas que barbaridade, Rose, andei passeando pelos teus blogs. São por demais de lindos. Tentei lá, te mandar um chasque, mas me representa que o carreiro está meio estreito, ou este gaudério está muito largo e desajeitado.
Agradeço a sua visita na Torre, e também ao texto que aqui postei, dando aliás, os devidos créditos.
Por certo que indicarei os endereços dos teus ranchos, para que o povo de outras estâncias conheçam mais da nossa cultura, tão invugar e tão nossa.
Te aproxegues sempre que quiseres. Aqui na Torre sempre terá uma erva buena da Palmeira, e uns pelegos de Bagé.

 
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