sábado, 27 de setembro de 2008

O Gavião


Não era dos grandes. Nem dos mais vistosos. Já os vira maiores e mais garbosos. Não tão de perto talvez, mas lembrava-se dos grandes que passavam perseguidos por dezenas de outros passarinhos menores, enquanto eles descansavam sentados no cabo da enxada e o pai enrolava um palheiro.

Seu irmão, Fernando, ia buscar água nessa hora. Era o mais novo. O que menos rendia no eito. Então era dele a tarefa de encher os dois porongos na sanga mais próxima. Ás vezes demorava, talvez como ele, ficasse a assistir ao gavião, tentando se safar da perseguição dos passarinhos que o tentavam afastar o mais possível dos seus ninhos, ou então, como dizia o pai, “era um vadio mesmo!"

Este não era dos grandes, não! - parecia mais o Pinhé-Pinhé que a sua mãe tanto temia. Já o tinha visto de longe um dia, em cima do palanque de concreto da cerca farpada que havia acima do muro. Seria o mesmo?

Sim! Era mesmo um Pinhé-Pinhé! Parecia maior porque estava perto, logo acima do muro.
Parava no ar por uns minutos, antes de mergulhar como uma flecha desaparecendo atrás do muro. Depois, voltava a pairar. No mesmo lugar, parecia.

Não havia conseguido apanhar sua presa?... Ou se conseguira, não lhe teria bastado para matar sua fome?
Que presa seria? Uma cobra? Um rato? Um grilo? Ou seria um pintinho, como sua mãe temia?
As galinhas do terreiro ficavam apavoradas quando um Pinhé-Pinhé estava por perto. Cacarejavam preocupadas e paravam de ciscar, escutando.
Então, como um raio ele vinha, sem se saber de onde e desaparecia adiante, levando mais um pintinho nas garras
As galinhas se alvoroçavam mais e o galo cacarejava grosso. Depois voltavam a ciscar normalmente, como se soubessem que naquele dia ele não voltaria mais. Já haviam pagado o seu tributo diário.

Os mais antigos diziam que gavião Pinhé não come pinto, só carrapato e berne. Que só o Carijó come pinto e cobra. Mas ele vira muitas vezes, um Pinhé-Pinhé sumir com um pintinho novo. Seria falta de carrapatos?
No entanto, este, olhando bem, não levava no bico nenhum pintinho, nem uma cobra, nem um rato. Um grilo, talvez, mas grilo é pequeno. De onde estava não dava para divulgar, ainda mais agora, que o sol o atrapalhava. Ardiam-lhe os olhos. Cegava.
Mário chama-o para o jogo de bola. Não vai. É melhor olhar o gavião.
Mário é quieto. Gosta de jogar bola. No jogo não é quieto. Grita. Pede o passe. Depois do jogo pouco fala. Só uma vez falou da filha Beatriz, e do mal que o patrão lhe havia feito.

Está demorando...
Já faz uns dois minutos que o gavião mergulhou atrás do muro. Será que caçou? Pegou a cobra? O rato? Um pintinho? Grilo não. Grilo é pequeno. Já teria tido tempo de tê-lo comido. Carrapato?

Esperou... Esperou...
Já não havia mais gritos de jogo de bola.
Olhou para trás. Mário estava sentado a um canto do pátio, fumando sozinho. Mais adiante, na sombra, mais uns cinco conversavam.
A sombra do muro já cobria meio pátio. Seria melhor entrar. Logo viria a janta.
Encaminhou-se para a porta principal e entrou.
Sorria ainda, pensando no gavião que vira e desta vez nem prestou atenção ao som metálico do ferrolho que fechava a grade da cela 118 do Pavilhão 9. A sua cela.

Quasímodo – 20/07/08

(Postado por sugestão de Lu. Agradecimentos a ela e à lusa Luzia)


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A REVISTA NOVA ÁGUIA E O MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO


A Revista A Águia foi uma das mais importantes revistas do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da Cultura Portuguesa, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.

A NOVA ÁGUIA pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da (nossa) História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado ao século XXI, conforme se pode ler no seu Manifesto.

Tal como n’ A Águia, procura-se o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a refletir sobre determinados temas. O primeiro número, já lançado, tem como tema: A idéia de Pátria: sua atualidade. O segundo, a ser lançado em Novembro, terá como tema: António Vieira e o futuro da Lusofonia.
O terceiro, a sair no 1º semestre de 2009, será dedicado a: O legado de Agostinho da Silva, 15 anos após a sua morte.

A Revista resulta de uma parceria entre a Editora Zéfiro, a Associação Marânus/Teixeira de Pascoaes, que será a sua sede a Norte de Portugal, e a Associação Agostinho da Silva, que será a sua sede a Sul (Rua do Jasmim, 11, 2º andar – 1200-228 Lisboa.

Concomitantemente, foi também criado um Movimento cultural e cívico, o MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO, a que poderá aderir, caso se reconheça na sua Declaração de Princípios e Objetivos.

Para maior conhecimento, acesse o que “Da Torre Vejo”, ao lado, ou
http://novaaguia.blogspot.com/


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DIVULGUEM

Uma bela biblioteca digital, desenvolvida em software livre, mas que está prestes a ser desativada por falta de acessos. Imaginem um lugar onde você pode gratuitamente:
Ver as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci;
Escutar músicas em MP3 de alta qualidade;
Ler obras de Machado de Assis Ou a Divina Comédia; ter acesso às melhores historinhas infantis e vídeos da TV ESCOLA e muito mais....
Esse lugar existe!
O Ministério da Educação disponibiliza tudo isso,basta acessar o site:
http://www.dominiopublico.gov.br/

Só de literatura portuguesa são 732 obras!

Estamos em vias de perder tudo isso, pois vão desativar o projeto por desuso, já que o número de acesso é muito pequeno. Vamos tentar reverter esta situação, divulgando e incentivando amigos, parentes e conhecidos, a utilizarem essa fantástica ferramenta de disseminação da cultura e do gosto pela leitura. Divulgue para o máximo de pessoas.

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UM MATE POR TI

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Na bomba do mate ficaram teus lábios

E o gosto maduro de mel de mirim

E se não mateio depois que partiste

É que ando triste perdido de ti

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A bomba é uma pomba de penas cansadas

E a cuia morena seu ninho vazio

E agora que foste chegou o inverno

E as águas do mate tiritam de frio

.

Às vezes teus lábios recordam os beijos

Que a bomba trazia de ti para mim

E o mate de ontem me lembra tudo

Que é doce a princípio se amarga no fim

.

Por outras me indago se não vale a pena

Trocar um capricho por um chimarrão

Tomar mais um mate por ti que levaste

Meus restos de doce da palma da mão

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(Composição de Vinivius Brum, Beto Bollo e Aparício Silva Rillo)

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Abraço a todos os visitantes da Torre. Sejam bem vindos.

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13 comentários:

Luzia disse...

Isto é que foi produção!

Passo um dia sem vir aqui e eis que quando chego, a Torre está repleta de novidades!

Vamos então por partes:

Quanto ao texto: que saudades, lembra-me as minhas férias, rs... ficou muito bom! Grata pelos momentos que partilhámos!

Quanto à revista: Eu prometo que antes de sair a terceira vc vai estar com os dois primeiros volumes na mão! rs

Quanto ao site: interessante que quando a cultura é disponibilizada de forma acessível, quase nunca suscita interesse... será a cultura algo que se tem de pagar? Ou ser grátis é sinónimo de acultura?

Quanto ao mate: cada vez mais tenho vontade de experimentar esse gosto amargo mais doce dos gaúchos, vou ver se descubro onde comprar uma cuia e o tal mate e depois perguntar aos gaúchos como se prepara! rs

Amigo Quasímodo, embora passe por aqui algumas vezes, não tinha ainda sido pródiga nas palavras... ficam estas como aperitivo, rs... olhe que eu quando engato o problema depois é fazer-me calar...

Grata pela partilha, é sempre um deleite ir beber água nas fontes!

Lusos os meus beijos para você

Gata de Rua disse...

corpo em ferrolhos e alma de gavião...não te leio, amigo querido, eu te absorvo...

Milly disse...

Te conheci um pouco mais,hoje...
Cada dia uma surpresa...uma sutil surpresa...
Belo texto!!
.
Beijos!!
.

lili disse...

Cada vez que passo aqui me delicio mais e mais..........amo suas letrinhas

krika disse...

Juca Melena está fazendo a tarefa direitinho...
Quanta riqueza...quanta informação.
Ainda aguardo um "dossiê" sobre Quasímodo.
Òh! Cherazade passou por aqui,está bela e formosa..!

retalhos disse...

Esse texto traz infância, cheiro de mato, cheiro de saudades e me parece um grito de gavião.
Bom o teu compartilhar.
.
Teu mate me cheirou saudades.
Carinho pati.
.

Anne disse...

Opa, quanta coisa nova pra ver aqui da torre!!!

Lindo o texto, impressionante o que se pode fazer com a mente, não? Viajar, visitar lugares, voltar a momentos doces ou amargos, imaginar o futuro, sonhar...ahhh, que verdadeiro presente de Deus a nossa capacidade de imaginar, de sonhar. Liberta a nossa alma, mesmo que seja por alguns minutos!

Já fui conferir o site e achei coisas interessantes lá, adorei! A música é linda demais, mto fofinha. Tudo a ver com o nosso amigo Juca, até pensei que ele quem tivesse escrito...rs

Gostando de ver o conteúdo e vc caprichando na beleza aqui da torre! Fica bem, querido amigo!

Beijos pra vc e pro Juca!
Até breve

Quasímodo disse...

Luzia, de Alma Lusa.
Foi também para mim um momento único de intercâmbio e de compartilhamento numa época bem difícil, como sabes.
Comecei ali a dar-me conta de que as diferenças linguisticas existentes muito mais nos une do que nos afasta.
Quanto ao Domínio Público há uma tendência à reversão das expectativas, e, por hora, parece estar à salvo, graças também à divulgação que o mundo nético faz desde meados de maio. Algumas escolas estão a recomendá-lo para alunos e professores.

Se não encontrares a erva-mate em Portugal, avise-me que providenciarei a remessa (se isso for legalmente possível) da verdadeira Ilex Paraguayensis e dos apetrechos necessários, juntamente com um manual de operações. Recomendo, para encontrá-la em Lisboa, a refazer os passos do Felipão Scolari, pois ele, como bom conterrâneo de Passo Fundo, certamente sabia onde obtê-la.

Já me manifestei lá, no Alma Lusa mas faço-o aqui também: muito elucidativa a sequência de postagens sobre a Festa Brava.

Beijos, lusa menina.

Quasímodo disse...

Amiga insanamente coesa,
Obrigado pela visita e pelas palavras, neste e nas páginas anteriores.
Aquela frase, escrita nas poeiras estelares faz-nos pensar se somos nós os insanos ou se seriam as teclas e os botões...

Milly;
Obrigado. Guardamos na alma mais mistérios do que podem sonhar nossa vã filosofia. (Alguém ja disse isso?... Disse-o de forma diferente!)

Lili;
Obrigado pela visita, amiga de longa data. Datas de Anjos e Demônios. Beijosssss...

Krika;
No devido tempo Quasímodo falará de si. Por enquanto ele vive uma fase introspectiva. Está ainda em busca de seu próprio entendimento.

Lu;
Tua constante presença e apoio muito me animaram, já sabes disso.
Bem sabes também que gaviões são formados por muitas penas.
Ainda bem que tratastes o gavião com a denominação correta. Ele já estava com crise de identidade por chamá-lo de águia.
Beijo, amiga querida.

Anne:
O Juca já perguntou, com propriedade: "Tem mãos de china nestes caprichos?"...
Obrigado pelo apoio e carinho.

Quasímodo disse...

Menina dos Retalhos;

É sempre muito bom tua visita à Torre.

Sabemos que as coisas nem sempre são como parecem ser. Elas podem discorrer de uma determinada forma para preparar a surpresa mais adiante.

Como na vida, estamos sempre em preparação para o que há de vir.

E não há como sermos o que somos se não superarmos o que fomos ontem.

Tem cheiro de saudades no mate, sim... Mas ela, a saudade, também faz parte do nosso hoje.

Somos nós. Contraditórios e humanos..

Beijo, amiga querida.

retalhos disse...

"Saudades, estação constante, parada obrigatória"
.
"Melhor ainda , se nessa parada, houver o compartilhar"
.

Anônimo disse...

muito gratificante entrar na torre...
suas letrinhas me levam sempre a pensar e me deliciar...
Parabéns!
um bj*

Anônimo disse...

de volta...
prá saber que fui eu que fiz o
13ºcomentário rs
bj*

 
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