domingo, 9 de novembro de 2008

Ainda sobre Educação

Publico e-mail e imagem enviados pela professora Cristina.



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Atualizando as informações sobre o Projeto “Estímulo À Leitura”


Durante o ano de 2008, este projeto cumpriu seu papel. Na brincadeira da leitura prazerosa, ele atingiu sua meta, estimulando seus alunos recém-chegados, para o 6º ano do Ensino Fundamental, à prática de uma leitura agradável.
Sem perceber que estavam adquirindo o gosto pela leitura estes alunos chegavam à Oficina, liam e interpretavam o que era proposto, participavam de concursos, promoções de resenhas e redações. Como os alunos levavam livros para ler em casa, eu encontrei na promoção: “Troque sua resenha por uma folha decorada ou material escolar”, uma forma de avaliá-los, sem aquela cobrança habitual. Depois da leitura, quem quisesse ganhar uma folha ou material escolar, deveria me entregar uma resenha da obra lida.
Muito comum entre as meninas de 11 anos é colecionar folhas de cadernos e fichários. Aquelas folhas enfeitadas com motivos variados, de flores, corações, personagens de filmes e desenhos entre outros. Comecei oferecendo folhas de meus cadernos, alguns lápis e borrachas.
Virou festa esta promoção... E no final, formei alguns “apreciadores de obras literárias”. Outra forma de avaliação foram os concursos de redações e resenhas, oferecendo para o primeiro lugar um prêmio, (cadernos, dinossauros, kits, etc.)
Com isso, estarão aptos a continuar suas leituras no próximo ano, tenho certeza!
Na medida em que meus alunos foram se envolvendo nestas promoções e concursos, que para eles era somente divertida, fui aumentando as idéias e dificuldades na elaboração de novas redações e histórias.
No decorrer de 2008 solicitei a autores e editores livros destinados a esta faixa etária. Eu queria um acervo diferente, deixando para a biblioteca da escola a divulgação de livros clássicos. Acredito que o aluno lerá Dom Casmurro, por exemplo, de livre e espontânea vontade, se estimularmos primeiramente, de uma forma lúdica. Daí então minha busca entre autores de histórias para adolescentes.
Agradeço a estes maravilhosos magos da fantasia literária, que doaram suas obras no decorrer do ano, juntamente com suas editoras:

Thalita Rebouças e Angélica Lopes,com dedicatórias e beijos!
Estas duas “fofas” são fantásticas. Através delas, Cintia Borges da Editora Rocco, me enviou outros títulos de aventuras e suspense.
João Carlos Marinho, muito simpático solicitou à Editora Global que me enviassem seus livros da turma do gordo. Recebi alguns muito legais!
Ricardo Azevedo, numa riqueza de livros sobre o folclore, com dedicatória, amei todos!
Laura Bergallo, Flávio Carneiro e Roseana Murray que pessoalmente me enviaram algumas de suas obras.
Editora Cortez, através de Cesar Oliveira, do site futebol.com, livros sobre futebol.
Revista Ciência Hoje, através do Sr. Ricardo Madeira que atendeu um pedido de meu primo Nino Dastre.
Divulgação Clássica-Varginha, Sr Lucas-Editora Scipione e Àtica : desculpe-me pela insistência, mas “quem não chora não mama” e vocês têm obras maravilhosas( ainda quero mais!)
Editora RHJ com os livros de Tarsila do Amaral, sensacionais!
Editora Moderna/Salamandra, através do Sr Jailson T. da Costa e o consultor da região, Sr. Elvis. Muito obrigada! Livros super bacanas!
EDITORA FTD... Obrigada de novo, sempre: Tatyana, Stephanie e Àurea de Belo Horizonte. Vocês são maravilhosas para meu projeto!
Outra experiência positiva para motivar esta criançada a ler é dar-lhes revistinhas em quadrinhos, até aí, nada de novo!
Mas e as revistas de pensamentos, poemas e frases de amor? Outra novidade!
Temos muitas Editoras investindo neste tipo de revistas, entre elas a Escala e Minuano. Ah! Como gostaria que elas doassem alguns exemplares... Eu tenho comprado algumas e até fiz a assinatura da revista Atrevidinha.
Não estou maluca: esta revista é informativa, moderna, linguagem adequada, fashion... etc. recomendo para as meninas pré-adolescentes.
Com este sucesso, investi em revistinhas de beleza, maquiagem, cabelos, receitas culinárias, artesanato, etc. E a mais recente aquisição, a pedido dos meninos: revistas de carros.
Um mega obrigada especial ao anfitrião deste blog, que gentilmente faz suas doações para a Oficina, provando que a distância não é obstáculo algum entre pessoas de boa vontade.
Obrigada aos amigos da cidade pela contribuição!
Um obrigado especial a amiga Laís, de Porto Alegre, que me enviou via "Correios" 10 kg de revistinhas em quadrinhos.
O projeto continuará no próximo ano, com mais sonhos e realizações, pois sua meta é:
“Estimular os alunos para leitura como ação inteligente e reflexiva, garantindo o acesso aos saberes lingüísticos necessários para o exercício da cidadania, direito inabalável de todos.”
Para aqueles que puderem colaborar, esclareço que não necessito de exemplares de livros ou revistas iguais, um título é o suficiente, pois eu os atendo individualmente, tratando-se de um exercício de linguagem oral, treino da leitura e interpretação, como está explicitado no plano de ação.
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No decorrer da semana que passou esta Torre recebeu muitas manifestações de apoio, por conta da abordagem dada ao trabalho da professora Cristina. O texto também foi publicado integralmente no Blog da Nova Águia, uma revista e um movimento que busca resgatar os valores portugueses e dos países lusófonos e, através dessa integração, valorizar os países de língua portuguesa no cenário mundial.
Em alguns comentários ficou clara a convergência de pensamento e de esforços similares que se desenvolvem pelo país afora. Sugeri, em um comentário meu, que se criasse um espaço para unificar essa luta.
Enquanto esse espaço específico não surge, a Torre estará disponível para a publicação de artigos que tratem do tema.
Professora Cristina; a Torre tem portas, mas estarão sempre abertas para ti.
Ouso copiar uma frase inserida num comentário da postagem anterior e que resume bem o que penso.
"Fala-se tanto da necessidade de deixar um planeta melhor para os nossos filhos e, muitos se esquecem da urgência de deixar filhos melhores para o nosso planeta."

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Barbaridade, Tchê... Andas ainda envolto com esses pensamentos?... Teu caso é sério! Por quê não marcas uma consulta com meu outro compadre, o de Bagé? Ele entende dessas coisas afrescalhadas. Ou quem sabe com a dotôra Anne? Corre boato que ela também cura essas coisas de idéias mal postadas.
Mas bueno, te trouxe os causos dos bugres das Missões... mas me representa que não estás com cabeça prá coisa... Deixemos prá próxima, então...
Ainda tens da erva? Preparo o mate, então...
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domingo, 2 de novembro de 2008

É esta a realidade da nossa educação


É notório o descaso com a educação neste país. Por mais que os discursos oficias tentem encobrir a falência do atual sistema educacional, apresentando números e cantando loas às inaugurações de prédios pretensamente educativos, como se prédios fossem sinônimos de conhecimento, não são o bastante, os discursos, para mascarar a realidade.

Quem de vocês já não recebeu um desses e-mails que circulam pela internet tratando de “pérolas” de vestibulares ou outros concursos?... São risíveis?... Não. São trágicos. São esses mesmos que amanhã estarão a nos enfiar um bisturi no fígado, a nos defender nos tribunais, a reproduzir as suas mediocridades nas escolas para que nossos filhos se tornem tão ou mais ignorantes que eles próprios e a fazer as leis que seremos obrigados a cumprir.
É esse o círculo, ou melhor, a espiral que a cada volta mais nos leva para a profundeza do obscurantismo da ignorância tecnicista.

Ah, mas eu sei montar um computador em meia hora, sei fazer cálculos estruturais que economizarão alguns milhões para a construtora que me paga; se mais tarde houver infiltrações e o prédio ameace ruir, esse “mais tarde” sei também planejar. Será na justa medida em que tudo já esteja pago e as responsabilidades não mais existam.

Não preciso saber escrever. O corretor ortográfico do Word resolve isso. E nem preciso pensar muito. As fórmulas prontas do Excel calculam para mim. Não tenho que pensar no caráter social do que faço, o governo tem pessoas para fazer isso, e tabularem, e discursarem e se elegerem.

A mim me basta saber que esta venda vai me render uma boa comissão, pois a máquina que estou vendendo é já obsoleta, mas quem se importa?... É a Prefeitura quem vai pagar. Amanhã será outro prefeito, outro secretário, aí vendo outras máquinas, superfaturada também, por certo. Sou esperto, não sabes? Ensinaram-me a sê-lo. Preciso do dinheiro para pagar o Audi, para a reforma da cobertura, para o colégio particular dos meninos, afinal, eles precisam ficar espertos como o pai.

Desde quanto isso vem? Não sei. Talvez desde remotas eras, mas com substancial agravamento a partir do desenvolvimento capitalista, quando o “ter” é muito mais importante do que “ser”. Então era importante formar autômatos técnicos que saibam determinar a mais valia para alimentar o sistema.

E paguem mal aos professores. E não os incentivem. Afinal, eles nem precisam pensar e é bom que assim seja para não contaminar com vagas idéias de pensamentos aos alunos que só queremos para reproduzir a roda-viva do consumo em massa.

E rasguem-se os livros de filosofia e sepultem-se de vez os pensadores...

Mas há luz, ou pelo menos uma réstia, como no texto que transcrevo abaixo, escrito por uma professora do sul de Minas Gerais para um jornal de circulação regional. Embora publicado em 2007 este texto e o projeto nele referido continuam atuais e em desenvolvimento, tal como a necessidade de apoio de todos aqueles que ainda possuem alguma esperança no futuro do nosso país. Os nomes próprios constantes no texto original foram suprimidos, pois não possuo autorização para citá-los.

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Projeto “Estímulo À Leitura”

Sou professora excedente na Escola Estadual (...). Excedente significa que eu não sou habilitada em conteúdos específicos para lecionar nas turmas de 5ª à 8ª séries do ensino fundamental. Eu me formei em Pedagogia e algumas especializações, além do Lato Sensu em Docência no Ensino Superior.

Sendo excedente, estou fora da sala de aula. A Secretaria Estadual da Educação, a cada ano têm nos colocado em situações difíceis e até constrangedoras, desde a municipalização do ensino de Pré à 4ª séries. Disse no plural, porque não sou a única excedente em minha cidade.
Mas não vou entrar nesta seara ... pois quero falar do meu projeto de leitura.

Sendo assim, como recuperadora de alunos, resgatei a leitura na porta da sala. As antigas professoras alfabetizadoras lembrarão-se disso. Era comum “tomar leitura” dos alunos de 1ª série recém - alfabetizados.

Somando a necessidade de inserir os alunos de 4ª séries, recém-chegados da rede municipal para as 5 ª séries no novo ambiente escolar, elaborei o “Projeto Estímulo À Leitura”.
Primeiramente consultei os professores de Língua Portuguesa de 5ª séries, e também a direção da escola. Propus o trabalho, que era basicamente treinar a linguagem oral dos alunos.
Neste ano de 2007, no terceiro ano desta experiência, tanta coisa mudou... O estímulo à leitura cresceu, e as idéias também... Comecei a recortar leituras de livros didáticos velhos, fotocopiar histórias de revistas pedagógicas e emprestar para os alunos. Nasceu daí o “Levando uma história para casa”. Parti para revistas em quadrinhos, e alguns livrinhos das lojas de 1,99.
Percebi que os alunos que liam duas folhas no início, liam uma revista inteira mais adiante e também os pequenos livros... Não podia parar por aí e comecei a comprar livros de literatura infantil, faixa etária de 11 a 12 anos. Obviamente que a escola possui uma biblioteca com um bom acervo. Mas os alunos não têm o hábito da leitura e para convidá-los a visitar nossa biblioteca, eles precisavam de uma motivação mais específica. O aluno-leitor, que deixa a fase de leitor em processo, para leitor fluente interessa-se ainda pelo repertório anterior, somado às curiosidades pertinentes à idade.

Procurei então, comprar livros que eles chamam “da hora”. Ou seja, livros atraentes, com ilustrações, coloridos, etc..

Com o passar dos meses, estes leitores já não queriam mais somente as historinhas recortadas. Transformaram-se em leitores críticos, na busca de mais informações e novas leituras. O “Levando uma história para casa” tornou-se uma “Oficina de Leitura”, necessitada de patrocinadores, pois obviamente não poderia comprar tudo que pediam só com o patrocínio familiar, em especial, da minha querida irmã, (...). Enviei e-mails para editoras, encaminhando meu projeto junto ao pedido de doações de livros infanto-juvenis.

Daí vem meu mais profundo agradecimento a EDITORA FTD.
Foi a única editora que atendeu meu pedido de socorro, sem me perguntar se a escola iria comprar livros de literatura. Recebi telefonema de uma outra editora, ela só me mandaria uns três livros de literatura para apreciação se eu ou a escola nos comprometêssemos a fazer um pedido grande. Fiz um teste... mandei outro e-mail perguntando se eu comprasse alguns livros, se me enviariam sem gastar frete (para testar a sensibilidade e solidariedade deles). Sabem a resposta? Outro telefonema sugerindo-me para procurar as livrarias da cidade e encomendar através delas...

Gratíssima à Editora FTD de Belo Horizonte, através da visita exclusiva do divulgador (...) à escola.
(...)
Meu agradecimento profundo às colegas, professoras de Língua Portuguesa e direção da escola, que acreditaram neste projeto.

Minha decepção em não conseguir meu famoso “Pó de giz” (benefício de 20% no salário, exclusivo para regentes de sala de aula e projetos aprovados pela SEE, que me tiraria da excedência).

Minha profunda tristeza em não conseguir sensibilizar colegas da (...) SRE de minha cidade, onde trabalhei por mais de 15 anos, com relação à aprovação de meu projeto, isto poderia ser feito naturalmente pela equipe local, pois possuem autonomia suficiente para bem mais que isso. E além do que, 20% não cobre o que investi, de meu salário pessoal, para executar um projeto de leitura, de sucesso, visando retomar no aluno o prazer de ler, além de atender a carência literária, a caridade, enfim, o bem comum de uma comunidade escolar, sem fins lucrativos.

Se depender de mim, das professoras de Língua Portuguesa, dos alunos e da diretora com certeza estaremos no próximo ano dando continuidade ao projeto. Aguardemos, portanto, a chegada de 2008, quem sabe poderemos contar com uma doação sua, caro leitor do Jornal (...).
Revistas em quadrinhos e livros de literatura infanto-juvenil serão bem-vindos!
Professora Cristina
Outubro de 2007

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Esta Torre disponibiliza-se a ser um entreposto de contato. É o mínimo. São livros e revistas que ela pede. E nem precisam ser novos.

Contatos com a professora Cristina: knascha@hotmail.com
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sábado, 25 de outubro de 2008

A M´Boitatá

Buenas... Tem bóia?... Vim prá pousar!
Quê puxa, baita mormaço. Até nem aquente a água pro mate, desta feita. Calorão!...
Ai do campeiro que se pegar longe do rancho, pastoreando. Hoje é noite da Boitatá. Já vistes uma?... Já?.. Então... Mas garanto que não sabes como ela nasceu. Pois lhes conto:





I
FOI ASSIM:
num tempo muito antigo, muito, houve uma noite tão comprida que pareceu que nunca mais haveria luz do dia.
Noite escura como breu, sem lume no céu, sem vento, sem serenada e sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das flores da mataria.
Os homens viveram abichornados, na tristeza dura; e porque churrasco não havia, não mais sopravam labaredas nos fogões e passavam comendo canjica insossa; os borra­lhos estavam se apagando e era preciso poupar os tições...
Os olhos andavam tão enfarados da noite, que ficavam parados, horas e horas, olhando, sem ver as brasas vermelhas do nhanduvai... as brasas somente, porque as faíscas, que alegram, não saltavam, por falta do sopro forte de bocas contentes.
Naquela escuridão fechada nenhum tapejara seria capaz de cruzar pelos trilhos do campo, nenhum flete crioulo teria faro nem ouvido nem vista para bater na querência; até nem sorro daria no seu próprio rastro!
E a noite velha ia andando... ia andando...

II
Minto:
no meio do escuro e do silêncio morto, de vez em quando, ora duma banda ora doutra, de vez em quando uma cantiga forte, de bicho vivente, furava o ar; era o téu-téu ativo, que não dormia desde o entrar do último sol e que vigiava sempre, esperando a volta do sol novo, que devia vir e que tardava tanto já…
Só o téu-téu de vez em quando cantava; o seu - quero-quero! - tão claro, vindo de lá do fundo da escuridão, ia agüentando a esperança dos homens, amontoados no redor avermelhado das brasas.
Fora disto, tudo o mais era silêncio; e de movimento, então, nem nada.

III
Minto:
na última tarde em que houve sol, quando o sol ia descambando para o outro lado das coxilhas, rumo do minuano, e de onde sobe a estrela-d'alva, nessa última tarde também desabou uma chuvarada tremenda; foi uma manga d'água que levou um tempão a cair, e durou… e durou...
Os campos foram inundados; as lagoas subiram e se largaram em fitas coleando pelos tacuruzais e banhados, que se juntaram, todos num; os passos cresceram e todo aquele peso d'água correu para as sangas e das sangas para os arroios, que ficaram bufando, campo fora, campo fora, afogando as canhadas, batendo no lombo das coxilhas. E nessas coroas é que ficou sendo o paradouro da animalada, tudo misturado, no assombro. E era terneiros e pumas, tourada e potrilhos, perdizes e guaraxains, tudo amigo, de puro medo. E então!...
Nas copas dos butiás vinham encostar-se bolos de formigas; as cobras se enroscavam na enrediça dos aguapés; e nas estivas do santa-fé e das tiriricas, boiavam os ratões e outros miúdos.
E, como a água encheu todas as tocas, entrou também na da cobra-grande, a - boiguaçu - que, havia já muitas mãos de luas, dormia quieta, entanguida. Ela então acordou-se e saiu, rabeando.
Começou depois a mortandade dos bichos e a boiguaçu pegou a comer as carniças. Mas só comia os olhos e nada, nada mais.
A água foi baixando, a carniça foi cada vez engrossando, e a cada hora mais olhos a cobra-grande comia.

IV
Cada bicho guarda no corpo o sumo do que comeu.
A tambeira que só come trevo maduro dá no leite o cheiro do milho verde; o cerdo que come carne de bagual nem alqueires de mandioca o limpam bem; e o socó tristonho e o biguá matreiro até no sangue têm cheiro de pescado. Assim também, nos homens, que até sem comer nada, dão nos olhos a cor de seus arrancos. O homem de olhos limpos guapo e mão-aberta; cuidado com os vermelhos; mais cuidados ­com os amarelos; e, toma tenência doble com os raiados e baços!…
Assim foi também, mas doutro jeito, com a boiguaçu, que tantos olhos comeu.

V
Todos - tantos, tantos! que a cobra-grande comeu -, levam, entranhado e luzindo, um rastilho da última luz que eles viram do último sol, antes da noite grande que caiu...
E os olhos - tantos, tantos! - com um pingo de luz cada um, foram sendo devorados; no principio um punhado, ao depois uma porção, depois um bocadão, depois, como uma braçada…

VI
E vai,
como a boiguaçu não tinha pêlos como o boi, nem escamas como o dourado, nem penas como o avestruz, nem casca como o tatu, nem couro grosso como a anta, vai, o seu corpo foi ficando transparente, transparente, clareado pelos miles de luzezinhas, dos tantos olhos que foram esmagados dentro dele, deixando cada qual sua pequena réstia de luz. E vai, afinal, a boiguaçu toda já era uma luzerna, um clarão sem chamas, já era um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria, saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam vivos…

VII
Foi assim e foi por isso que os homens, quando pela vez primeira viram a boiguaçu tão demudada, não a conheceram mais. Não conheceram e julgando que era outra, muito outra, chamam-na desde então, de boitatá, cobra de fogo, boitatá, a boitatá!
E muitas vezes a boitatá rondou as rancherias, faminta, sempre que nem chimarrão. Era então que o téu-téu cantava, como bombeiro.
E os homens, por curiosos, olhavam pasmados, para aquele grande corpo de serpente, transparente - tatá, de fogo - que media mais braças que três laços de conta e ia alumiando baçamente as carquejas... E depois, choravam. Choravam, desatinados do perigo, pois as suas lágrimas também guardavam tanta ou mais luz que só os olhos e a boitatá ainda cobiçava os olhos vivos dos homens, que já os das carniças a enfaravam...

VIII
Mas, como dizia:
na escuridão só avultava o clarão baço do corpo da boitatá, e era por ela que o téu-téu cantava de vigia, em todos os flancos da noite.
Passado um tempo, a boitatá morreu; de pura fraqueza morreu, porque os olhos comidos encheram-lhe o corpo mas não lhe deram sustância, pois que sustância não tem a luz que os olhos em si entranhados tiveram quando vivos…
Depois de rebolar-se rabiosa nos montes de carniça, sobre os couros pelados, sobre as carnes desfeitas, sobre as cabelamas soltas, sobre as ossamentas desparramadas, o corpo dela desmanchou-se, também como cousa da terra, que se estraga de vez.
E foi então, que a luz que estava presa se desatou por aí. E até pareceu cousa mandada: o sol apareceu de novo!

IX
Minto:
apareceu sim, mas não veio de supetão. Primeiro foi-se adelgaçando o negrume, foram despontando as estrelas; e estas se foram sumindo no cobreado do céu; depois foi sendo mais claro, mais claro, e logo, na lonjura, começou a subir uma lista de luz… depois a metade de uma cambota de fogo… e já foi o sol que subiu, subiu, subiu, até vir a pino e descambar, como dantes, e desta feita, para igualar o dia e a noite, em metades, para sempre.

X
Tudo o que morre no mundo se junta à semente de onde nasceu, para nascer de novo: só a luz da boitatá ficou sozinha, nunca mais se juntou com a outra luz de que saiu.
Anda sempre arisca e só, nos lugares onde quanta mais carniça houve, mais se infesta. E no inverno, de entanguida, não aparece e dorme, talvez entocada.
Mas de verão, depois da quentura dos mormaços, começa então o seu fadário.
A boitatá, toda enroscada, como uma bola - tatá, de fogo! - empeça a correr o campo, coxilha abaixo, lomba acima, até que horas da noite!...
É um fogo amarelo azulado, que não queima a macega seca nem aquenta a água dos manantiais; e rola, gira, corre, corcoveia e se despenca e arrebenta-se, apagando... e quando um menos espera, aparece, outra vez, do mesmo jeito!
Maldito! Tesconjuro!

XI
Quem encontra a boitatá pode até ficar cego... Quando alguém topa com ela só tem dois meios de se livrar: ou ficar parado, muito quieto, de olhos fechados apertados e sem respirar, até ir-se ela embora, ou, se anda a cavalo, desenrodilhar o laço, fazer uma armada grande e atirar-lha em cima, e tocar a galope, trazendo o laço de arrasto, todo solto, até a ilhapa!
A boitatá vem acompanhando o ferro da argola... mas de repente, batendo numa macega, toda se desmancha, e vai esfarinhando a luz, para emulitar-se de novo, com vagar, na aragem que ajuda.

XII
Campeiro precatado! reponte o seu gado da querência da boitatá: o pastiçal, aí, faz peste...
Tenho visto!

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Esta lenda, contada por Juca, foi resgatada por João Simões Lopes Neto, em “Lendas do Sul”, obra publicada em 1913.

João Simões Lopes Neto foi, segundo estudiosos e críticos de literatura, o maior escritor regionalista do Rio Grande do Sul. Nasceu em Pelotas, em 9 de março de 1865, filho de família abastada da região.
Publicou apenas três livros em sua vida: Cancioneiro Guasca (1910), Contos Gauchescos (1912), e Lendas do Sul (1913).
Morreu em 14 de junho de 1916, em Pelotas, aos cinqüenta e um anos, de uma úlcera perfurada.
Sua literatura ultrapassou fronteiras e hoje pertence à literatura universal, tendo sido traduzido para diversas línguas.



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Eu vi uma Boitatá. Corria o ano de 1963 ou 64, não lembro bem. Morávamos nos fundos de uma fazenda, um pequeno pedaço de terras cedido pelo meu avô materno. Ainda lá, mais no fundo havia um alagadiço, banhado – como chamávamos, onde se plantava arroz. Um pequeno riacho, de águas mansas, quase paradas, alimentava lentamente as valas que irrigavam o arrozal.

Numa noite quente, abafada, fomos, eu e um irmão mais velho pescar bagres nesse riacho, poucos metros dele se bifurcar em pequenas valas e alagar a lavoura de arroz.

Havíamos pescado alguns pequenos peixes redondos e lisos, que enfiávamos pela guerla numa forquilha de vara fina.

Ela surgiu ao lado do meu irmão que pescava a uns 5 metros abaixo de onde eu estava. Eu ouvi um pequeno barulho abafado e ela estava lá, no meio do riacho, mais próximo da margem de onde estava meu irmão, como uma cobra verdadeiramente, amarela azulada, primeiro apontando para o céu, depois pareceu rastejar sobre a água. Fiquei petrificado de medo, paralisado.

Ao contrário, meu irmão debandou para o lado da casa e ela o seguiu de perto, quase tocando em seus calcanhares. Ainda lembro quando dobraram por detrás de uma corticeira – marrequinha – e desapareceram numa ponta de mato de guamirim.

Não me lembro de ter voltado para casa. Mais tarde soube que os adultos tinham vindo me resgatar, diante do escarcéu que meu irmão havia feito ao chegar à casa. Ele ficou gago por uns tempos. Depois sarou.

Alguns anos mais tarde, quando eu já estava na cidade estudando, vim a desvendar a assombração, e entender que se tratava de um fogo fátuo.
A explicação é que são produtos da combustão do gás metano gerados pela decomposição de substâncias orgânicas encontradas em cemitérios, pântanos, brejos, etc., ou a fosforescência natural dos sais de cálcio presentes nos ossos enterrados.
Muitos que avistam o fenômeno tendem a evacuar o local rapidamente, o que, devido ao deslocamento do ar, faz com que o fogo fátuo mova-se na mesma direção da pessoa. Tal fato leva muitos a crer que o fenômeno se trata de um evento sobrenatural, tais como espíritos, fantasmas, dentre outros.
Quando um corpo orgânico começa a entrar em putrefação, ocorre a emissão do gás metano (CH4). O metano, em condições especiais de pressão e temperatura, em local não ventilado, começa a sair do solo e se misturar com o oxigênio do ar. Em uma porcentagem de aproximadamente 28%, o metano se inflama espontaneamente, sem necessidade de uma faísca. Forma uma chama azulada, de curta duração, gerando um pequeno ruído. Se a pessoa estiver perto e sair correndo, devido ao deslocamento do ar a chama "irá atrás.

Isso explica também o motivo de se jogar o laço em direção a ela e galopar arrastando-o. Ao arrastá-lo a argola do laço enrosca nas macegas e vassouras do caminho, movimentando-as e conseqüentemente movimentando o ar ao seu redor, enganando a cobra de fogo, que se dissipa fragmentada pelo movimento ou pelo esgotamento do gás, combustível que a mantinha acesa.
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Sinceramente, gostaria de não ter aprendido isso. Gostaria de ter ainda o mesmo medo ingênuo dos campeiros simples.

Abraço a todos que vierem à Torre.
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