domingo, 4 de outubro de 2009

No Espigão das Marrécas

A verde côma das arvores, mergulhada na tinta preta da noite, particularmente sob aquelle altaneiro tronco de peróba, onde acampáramos, ainda que o albor da aurora não tardasse muito, lembrava a monstruosa copa de gigantesco guarda-sol armado sobre nós. Havia, porém, um rasgo no panno e, pela fresta, a rutilar tremeluzindo, um brilhante solitario apparecia – a estrella-d`alva.


Ainda na rede, mas já acordado, como de costume, áquella hora matinal, eu tirava uma linha do acampamento, por sob a ponta do cobertor erguido um poucochicho.

De um lado, o foguinho – espantalho das onças – conservado acceso noite inteira, crepitava manhoso, agonisante, morre-não-morre, vae-não-vae!

- Tio Noé, bate os tições.

Um clarão opalino, qual o da refração nas forjas, espantou, de subito, o negror das trevas. A claridade, á medida que o lume se animava, ia suplantando, aos poucos, a escuridão em torno.

Parecendo ter sido anesthesiado pela treva, a virgem – Natureza, depois de prolongado lethargo em seu thálamo de verdura, dava os primeiros signaes de volver á vida novamente.

Com os afagos da brisa e os beijos da aurora, seus seios tumidos arfavam de prazer. E Ella, movendo-se, acordava. A escuridão e o somno, symbolos da morte, fugiam espavoridos ao approximar-se o anjo da ressurreição, o mensageiro da vida, encadernado na bemfazeja e doce, na risonha, alegre e esperançosa luz da madrugada.

De formas macabras, esquisitas, qual bando de phantasmas noctivagos, tórtos e direitos, nús e pelludos de musgo, fininhos e grossões, curtos e compridos, altos e baixos, - assim se destacavam das trevas fugidias, surgindo de perfil, de frente e por de trás, os troncos das arvores abatidos pelo clarão do fogo, então reanimado e vivo.

Pouco depois, as três notas agudas, sonoras e compassadas do piar do macuco annunciavam o amanhecer de mais um dia de vida, nesta vida de lutar perenne!... vida amarga de soffrer infindo.!

Notei para logo que uma sombra de desanimo, possivel abatimento, ou um quê de tristeza, anuviava o semblante dos companheiros, de ordinario tão expressivos e joviaes entre si, no viver familiar de cada dia.

Que seria ?! – interroguei-me.

Só a duvida, conclui, a incerteza de alcançar o ponto almejado, tão pertinazmente procurado havia dois longos meses de tremendo labutar por aquelle interminavel espigão, todo cheio de crócas e zigue-sagues sem fim, sobrepondo-lhe, como agravante, a falta de bóia, - seriam capazes de produzir abatimento de animo em homens daquella tempera – o aço batido verga, mas não quebra, - affeitos aos tão rudes quão penosos trabalhos de exploração nas matas.

Pallidos, rostos macilentos, orbitas encovadas devido a série de privações soffridas, cabelleira hirsuta e revolta, cobertos de andrajos, ali estavam elles, emquanto a panella fervia, num circulo, junto ao fogo. Um de pé, outros de cócoras, mas todos em completo silencio, - bussola que norteia os movimentos da alma no encapellado mar da vida – esperavam, pacientemente, sem proferir um queixume, uma palavra, sequer, de revolta, que o dia clareasse de todo, para reencetar a lide quotidiana.

Eram, na verdade, um pugilo de intrepidos heróes dos sertões; porque, se os ha no campo de batalha, empunhando a espada sob o fogo da metralha e o ribombar dos canhões, na defeza dos altos ideaes da Patria e da Humanidade, tambem os ha, posto que obscuros e humildes, por esses sertões adentro, na ingloria conquista do sólo patrio para os grandes da terra. Mas como é essa a ordem commum das coisas da vida, neste ingrato mundo dos mortaes, é contentar-se a gente com o rigor da sorte.
Demais, sendo facto inegavel que todo individuo vem á arena da vida para um fim certo e determinado pelo Creador Supremo, devem, portanto, se considerar mui felizes aquelles que, no desempenho de sua missão terrena, não só colhem alguns frutos dos seus esforços e se nobilitam, mas tambem são uteis á Patria e aos seus concidãos.

Taes foram as reflexões que me vieram ao espirito, identificando-me com o pessoal que compunha minha turma, naquella manhã.

Calado, recebe cada um o seu bocado, pondo-se a devorar, ávidamente, com fome já de dois dias, uma pouca de sôpa de coqueiro – oh! arvore bemdita!... – pintalgada por uns grãozinhos de feijão que sobrenadavam, esparços, aqui e acolá, no meio do caldo, como naufragos perdidos num pélago revolto.

- De tudo que num posso me ageitá é um isto, gente! Só arranjãno úa rede de tarráfa pra pescá estes feijão – disse, em tom de gracejo, um rapazóla.

- E é tomá o gôsto pra certa, proque é o derradêro cozinhadinho que tava no canto do sacco – observou-lhe o cozinheiro.

- É mêmo pras divéra, Chefe? Num me conte o resto!

E acrescentou:
- Logo aqui, neste arto de serra, onde nem macaco se tópa! Desta feita, levo quem trôxe: tãmo no mato sem cachorro!...


- Sem cachorro e sem gato! – emendou o outro dando uma risadinha de troça.

E continuaram a commentar nesse diapasão, a seu modo, o tragicomico da angustiosa situação que, de resto, no momento, não era mesmo lá das muito agradaveis.

Eram chegados os dias das “vaccas magras”!...Tinhamos pela frente este ultimo dilemma: - vencer, não obstante todos os obices, ou morrer.
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Trechos do Livro "Na Trilha do Grillo (... Através das Selvas), de Horácio Nogueira publicado em 1927 pelos Irmãos Ferraz - Editores, e que estou redigitando pacientemente nas horas vagas, cuidando para manter a ortografia original, tarefa nada fácil, visto o meu costume de grafar as palavras automaticamente segundo a ortografia atual.


Alguém poderia perguntar: e porque não o escaneia? Seria tão fácil!... Tentei. Mas como se trata de uma obra rara, antiga e de alto valor sentimental para a pessoa que a emprestou, temi danificá-la no processo.


Horácio Nogueira, pelo pouco que sei, foi um sertanista, desbravador dos sertões brasileiros, além de missionário cristão.


Sabemos da existência de um outro livro dele, cujo título é "O ÍNDIO PENHÁI". Envidamos os maiores esforços para encontrá-lo, infelizmente sem sucesso. Um sinal nos veio de Montevidéu, no Uruguai através de uma Editora de lá. No entanto temos razões para acreditar não ter a autenticidade necessária que buscamos, quanto aos termos e palavras usadas na época.


Apelamos a quem visita a Torre e que, por ventura saiba de alguém que o tenha, que entre em contato conosco. Asseguro que o livro será tão bem cuidado como cuido do "Na Trilha do Grillo" caso alguém se dispuser a emprestar-nos para a sua transcrição. Maiores informações sobre o autor também serão benvindas.


O objetivo é o de resgatar essa obra, antes que definitivamente se perca. E num segundo passo, quem sabe, disponibilizá-la em alguma biblioteca pública e gratuita como o Site "Domínio Público" que pode ser acessado através da coluna ao lado.
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9 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Quasimodo

Excelente trabalho este que estás a empreender. A Cultura Lusíada merece que tarefas deste tipo e valor sejam difundidas da forma mais ampla possível.

Sendo Português, deslumbro-mecom iniciativas como a tua. Vocês, no Brasil, precisam de saber mais dos percursos da Cultura Portuguesa. Nós, em Portugal, precisamos de saber mais dos caminhos da Cultura Brasileira.

Muito se tem feito já. Mas, é preciso multiplicar esse muito por muitos algarismos. Ambos o merecemos.

E com esse feito notável (ao qual dou os meus mais entusiásticos parabéns e aplusos) que foi a conquista dos Jogos Olímpicos de 2016 para o Rio de Janeiro [que tem de continuar lindo, alô, alô moreninha, aquele abraço] - temos todos de melhorar tudo o que é possível e exigível, e mais, temos todos os lusofalantes de colaborar nessa tarefa ciclópica.

Porque ter os JO pela primeira vez na América Latina é um feito que também é cultural, além de desportivo e outros.

Por isso tudo, os meus parabéns pela tua iniciativa. E se quiseresalguma colaboração, aqui me tens.

Abs

Quasímodo disse...

Amigo Ferreira.

Tua visita à Torre enobrece e valoriza este espaço.

Os comentários de incentivo e de apoio, principalmente vindo de ti, sabidamente um homem das letras, mais ainda me anima a continuar.

Quanto às Olimpíadas de 2016, ainda não sei se fico contente ou temeroso. Recentemente por ocasião dos Jogos Panamericanos, quintuplicaram o valor de investimentos inicialmente orçados. E ninguém explica nada.

Meu temor se justifica por isso... De que servirá de cortina para alguns poucos encherem as burras, enquanto outras prioridades ficam em segundo plano, como salários justos para os professores, investimentos na saúde, principalmente em hospitais que vivem abarrotados, sem falar em saneamento básico. Ainda morrem muitos em nosso país por doenças diretamente relacionadas às condições precárias em que (sobre)vivem.

Mas será certamente uma vitrine para o mundo. E haverá também geração de empregos e renda, não só para os habitantes do Rio de Janeiro, mas também no ramo industrial. Cimento, siderurgia, construção civil, rede hoteleira.

É esperar, torcer e ficar vigilante.

Grande abraço, amigo.

Francisco de disse...

Estava procurando o livro "A Trilha do Grilo" de Horacio Nogueira para meu pai de 95 anos que é sobrinho de Horacio Nogueira e me deparei com seu blog. Gostaria de uma cópia deste livro. Eu possdo tentar encontrar o livro O Indio Penhai, junto aos meus parentes
Vovô Horácio como era conhecido por mim, viajava para medir terras para o governo, na região onde nasci - noroeste de São Paulo - Andradina. Ele esteve em minha casa e ainda ganhei dele um presente. Meu nome veio de uma neta dele. Eu fui visitá-lo no Hospital Santa Cruz em Vila Mariana em São Paulo quando ele morreu. Fui vê-lo. A mamãe com papai se hospedaram na casa dele na Praça da Árvore quando minha mãe veio tratar-se em São Paulo. Mamãe admirava muito a esposa dele. Lídia Franco.
A casa deles ainda estava ém pé até poucos anos e depois eu a via com uma placa de vende-se e agora construiram um prédio no local.

uns olhos... disse...

olá, francisco!
como você, também sou filha de uma sobrinha de horácio nogueira. seria muito bom se pudéssemos entrar em contato. eu tenho o livro - trilha do grilo - original. aliás, foi este que se prestou à transcrição feita por quasímodo. também já consegui o índio penhái, porém, estão faltando algumas páginas... talvez uma só... não sei, pois é no final do livro.
estou deixando meu e-mail. assim, se puder, escreva p mim. ficarei muito feliz se pudermos conversar.
abraços,
martanmartins@hotmail.com

Anônimo disse...

Olá meu nome é Thais e estou a procura de pessoas da familia nogueira , sou tataraneta do Rev Cetano Nogueira, irmão de Horacio Nogueira, gostaria de ter contato com familiares e compartilhar as histórias. também tenho interesse em conseguir os livros "Na Trilha do Grilo" e "Índio Penhái.

Aguardo contato. meu e-mail: tthaisnogueira@hotmai
l.com

Grata

Anônimo disse...

Oi, gente, eu tenho o livro: O índio Penhaí do Nogueira.
Foi herança de meu sogro.Está em bom estado.Abraços

Quasímodo disse...

Amigo Anônimo...

Já conseguimos o livro, aliás, foi preciso conseguir 3 para podermos digitalizar um por completo. Veja a última postagem aqui na Torre.
Mesmo assim agradeço muito. Entre em contato pelo e-mail que que está ali em cima: letrasdatorre@hotmail.com para estabelecermos referências, pois há interesse en elaborar a árvore genealógica da família Nogueira.

Um abraço.

Celso do Lago Paiva disse...


Prezado colega "Quasímodo":

Conheço desde criança os dois extraordinários livros de meu primo Horácio Nogueira (família Pereira do Lago), um dos pioneiros do presbiterianismo no sul de Minas Gerais.

A influência do presbiterianismo em Minas Gerais não foi pequena. Graças a ele, milhares de pessoas se esforçaram para aprender a ler, para conhecer a Bíblia, numa época (década de 1890) em que poucas pessoas eram alfabetizadas em cada localidade.
Lembre-se que, nessa época, a leitura da Bíblia era proibida aos católicos.

"Na trilha do grillo" descreve de forma lírica, mas realista, a realidade das matas nos sertões do oeste paulista e do noroeste paranaense, bem como do extremo sudeste de Mato Grosso do Sul, ainda praticamente inexplorado.
Além dele, temos apenas o relato do rio-clarense Cornélio Schmidt, muito distinto, publicado mais de trinta anos depois, pelo Museu Paulista.

O engenheiro agrimensor Horácio, formado no Mackenzie, trabalhou no desbravamento do oeste paulista, cuja destruição ele, mais tarde, em conversa com parentes, lamentaria profundamente.
Era muito culto, o que se pode perceber pela leitura de suas obras.

Horácio foi uma das poucas pessoas de sua época que admirou, entendeu e, corajosamente, defendeu os índios Kaingangs, quando o normal era participar das "dadas", as expedições genocidas apoiadas pela sociedade civil e religiosa, e toleradas (quando não incentivadas) pelos governos estaduais e federal.

Gostaria muito de receber o arquivo digital de "O índio Penhai" (parabéns pelo trabalho magnífico e desinteressado!).
Precisamos de mais iniciativas altruístas e generosas como a sua!

Quantos clássicos regionais, publicados em edições do autor, com tiragens reduzidíssimas, não estão quase desaparecidas?
Quantos relatos e diários de enorme interesse morrem em gavetas e arquivos informais de famílias, quando seriam do maior interesse para a história regional e mesmo nacional?

Pode me enviar o arquivo digital?
Pode me escrever para trocarmos mais idéias?

Grande abraço,

Celso

Celso do Lago Paiva
Curvelo, Minas Gerais
celsodolago@hotmail.com

Pesquisador de Ecologia e Botânica
Instituto Pró-Endêmicas
instituto_proendemicas@hotmail.com

http://br.groups.yahoo.com/group/proendemicas/


Quasímodo disse...

Celso;

Já encaminhei o solicitado através do endereço hotmail acima.

Abraços.

 
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