domingo, 18 de janeiro de 2009

Balseiros - V


Apesar dos perigos... finalmente a viagem


A viagem era um misto de perigo e aventura. Em média, eram necessários de dez a doze homens para conduzir uma balsa, cada qual com funções determinadas. Segundo Angeli:
“Geralmente eram utilizados cinco homens para cada remo, dois para levantar e três para puxar a remada. Em poucas passadas a balsa obedecia e rumava para o lado desejado; em cada extremidade da balsa eram colocados dois remos” 9

Segundo o dicionário Globo, remo é uma “peça comprida de madeira, achatada num dos lados, que serve para fazer avançar na água embarcações pequenas”. Angeli assim o descreve:
“[...] esses remos de uns oito metros de comprimento eram feitos de madeira menos propensa a quebrar. A preferência era para o guatambu10 e a gramixinga marfim11 [...] eram muito bem falquejados e alisados para dar maior conforto e melhores condições de remar”.12

Um dos trabalhadores era o responsável pela alimentação que, ao que parece, não era considerada uma tarefa prazerosa. Exemplo disso foi Aloísio Lauxen: “Eu fui umas quantas vezes o cozinheiro. Então quando tinha uma defesa braba, eu ajudava a remar, senão eu ficava na cozinha. Pra mim o pior trabalho era fazer comida, eu não gostava muito”.

Os mantimentos eram fornecidos pelo patrão, o dono da balsa. Eles levavam feijão, arroz, farinha de milho, carne suína e frango, charque, pão, erva para o chimarrão, banha, água, e aguardente. A popular ‘pinga’ tinha boa utilidade. José Martins de Oliveira13 comenta: “[a gente] levava cinco até seis garrafões. De noite, naquele frio do inverno, ou lá para baixo, onde tinha vento de dia e à noite frio; a solução era tomar uma pinga”.

O fogão era um caixão com terra, com uma chapa de ferro, coberto com folhas e galhos de taquara, sendo que mais tarde foram utilizadas tábuas. Fazia-se um estaleiro para pendurar as panelas, também de ferro. Além disso, era necessário ter sempre a lenha seca para fazer o fogo, por isso era mantida em lugar protegido. Quando necessário, o cozinheiro também deveria ajudar no controle dos remos, enquanto os demais balseiros faziam suas refeições.

Quando iniciava a época das chuvas torrenciais, que provocavam as enchentes, o rio Uruguai, mesmo não navegável oportunizava o transporte das balsas pelo seu leito. Os balseiros, geralmente agricultores, aceleravam a colheita, recolhiam a lenha para a família e guardavam o pasto para os animais, procurando deixar a família abastecida em sua ausência devido à viagem pelo rio. Além desses, outras categorias de profissionais viajavam com as balsas, conforme Tedesco:
“Havia, em meio aos peões (que se deduz serem, em grande parte, caboclos), os cortadores, os arrastadores, o rolador, os armadores, os buscadores de cipó, os fazedores de roça, o pescador, o cozinheiro e o ajudante. A balsa era uma atividade que exigia precisão, perspicácia, previsão, projeção (das condições do tempo, do tempo e da maneira de chegar ao destino), coordenação, aventura e paixão.” 14

A maior responsabilidade pelo bom andamento da viagem e pela segurança dos trabalhadores era do prático. Para chegar a esse posto, era necessário fazer algumas viagens, conhecer bem o rio e seus perigos. Ele tinha a melhor remuneração, em função do cargo que ocupava. Recebia de três a quatro vezes mais que os outros profissionais.Bellani assim o descreve: “O prático era o elemento indispensável para o manejo da balsa. Homem que tinha grande esperteza e vivacidade, conhecia tudo, desde a formação da balsa, a época certa para o início da viagem, o nível do rio, os perigos das corredeiras, ressorjos15, ilhas e os chamados chefadores que são as pontas de mata que avançam sobre o rio.”16

Todos viajavam em cima das madeiras. Quando o trajeto estava tranqüilo, após alguns dias de viagem, a balsa era amarrada às margens do rio, para que seus tripulantes pudessem dormir e descansar. Às vezes, o patrão acompanhava os balseiros. Porém, mais costumeiramente, ele seguia por terra, livrando-se dos perigos e dos trabalhos, aguardando seus empregados em São Borja.

Devido à instabilidade do clima da região, não havia uma época certa para realizar as viagens, bastava muita chuva. Segundo depoimentos, nos anos de 1942 e 1943 não ocorreram enchentes; já no ano seguinte, em 1943, choveu o ano inteiro e o rio permaneceu com o nível de água elevado. Neste último, foram preparadas e levadas balsas praticamente o ano inteiro.

A viagem de Itá/SC a São Borja/RS durava em média sete dias, dependendo do volume d’água, pois, como assinalado, quanto mais cheio o rio, mais rápida. Cada trabalhador recebia o pagamento por dia trabalhado. Os primeiros dias, depois que saíam de Itá, eram os mais atribulados, pois haviam muitas corredeiras e ilhas, que exigiam mais atenção e destreza dos profissionais. Os balseiros deveriam continuar remando, independente das condições de tempo.

Angeli assim descreve o caminho seguido:
“O percurso da viagem
1. Rio Dourado e sua Ilha
2. Empresa do Velho Balseiro [em Mariano Moro – RS]
3. Porto de Jorge Lucas
4. Rio Jacutinga - SC, a conhecida Volta Fechada e Ilha
5. Rio Novo [Aratiba – RS] e Ilha, Almoço
6. Itá, Porto e Vila
7. Barra do Rio Uvá e Ilha
8. Rio Paloma e Ilha
9. Remanso do Tigre
10. Enseada da Pedra
11. Rio Irani
12. Porto Reiúno, atualmente Goio-Em
13. Ilha Cerne
14. Ilha Dom José
15. Ilha da Luzia
16. Rio Chapecó
17. Corredeira Comprida
18. Ilha Redonda
19. Ilhas Farinhas
20. Irai
21. Ilha do Mel
22. Porto Feliz, atual Mondai
23. Ilha das Ervas
24. Barra do Rio Pardo
25. Capelas
26. Ilha da Fortaleza ou Pedra
27. Itapiranga
28. Bananeiras
29. Macaco Branco
30. Salto Grande
31. Ilha do Alto Uruguai
32. Nove Voltas
33. Alba Posse
34. Ilha Roncador
35. Canal Torto
36. Ilha do Biguá
37. Cancha dos Ingleses
38. Porto Lucena
39. San Javier
40. Cordão do Silva
41. Ilha do Ijuí
42. Ilha de Santa Marta
43. Ilha San Isidoro
44. Tragador do Mercedes (no lado Argentino)
45. Gartruchos
46. Saladero
47. Barra do Macuco, conhecido como Porto do Geraldo
48. San Tomé
49. São Borja”17

O sucesso da viagem era medido pelo mínimo de toras que se perdia. Isso acontecia quando a balsa batia nas pedreiras, nas ilhas ou em uma corredeira, quebrando-se o cipó que a prendia e as madeiras se soltavam. Cilfredo Klein18 assim descreve:
“[...] o remanso do Uvá fazia um ressorjo muito grande [...] A balsa entrava lá, chupava e saia todas as toras soltas, debulhava tudo, [...] dava umas três voltas e virava um funil até que, por fim, ela ia retornando até fechava em cima e as toras saltavam fora , hoje não tem mais nada disso . O passo do Uvá encheu de terra e de madeira é hoje um poço só”.

Muitas vezes já havia, próximo a esses locais, homens esperando para pegar essas madeiras e vender clandestinamente, conforme comentário de Severino Aigner19; “eles [os ladrões] cortavam a marca a das toras e roubavam as madeiras [...]. Ficavam nos rios que entram no Uruguai. A madeira ficava represada e era levada para dentro do rio onde eles estavam, aí eles a escondiam. E depois mais tarde, vendiam”.

Havia trechos bastante perigosos como o Salto Grande, a iIlha Comprida, as Nove Voltas, as ilhas Gêmeas. Esses locais exigiam toda a atenção possível dos balseiros, por isso eles passavam dia e noite sem dormir.Tedesco narra:
“[...] os perigos maiores eram, em ordem crescente: as pequenas ilhotas, o saltinho do Lameu, a Rapadura, a Ilha do Chapecó, a Corredeira Comprida, Passarinhos; adiante vinham as Ervas, a Fortaliza, Macaco Branco, Salto de Macunã; aí então vinha o ressorjo do Cipó, as Nove Voltas, o Saltinho do Sertão, a Corredeira do Santo Ezídio, a Cancha de Santa Maria; seguindo o Salto Grande, que era muito perigoso, totalizando dezesseis quilômetros com uma caída e uma velocidade intensa de água.”20

Para proteger a balsa no Salto Grande, era necessário colocá-la na entrada do canal. Para tal, o prático ordenava o recolhimento dos remos. Quando a balsa chocava-se com as marretas, que eram altas ondas, o primeiro pelotão subia e cortava o fundo. Então, os balseiros permaneciam todos no meio da balsa, pois nas pontas era perigoso. Ninguém estava protegido. Para Cilfredo Klein, “a segurança era a coragem”. Em alguns locais, como no Uvá, em Itá – SC, tinham os ressorjos. O risco foi assim descrito por Barbosa: “Aqui os balseiros novatos ou distraídos, por vezes, passavam horas rodopiando, rodopiando, sem poder sair”21. Esses eram alguns dos motivos pelos quais era necessário esperar para que o nível do rio se elevasse ao máximo, pois assim diminuiria o risco de encontrar esses perigos pela frente.

Outro cuidado que o prático deveria tomar, era com a neblina no rio Uruguai, pois ficavam sem visão e a balsa poderia chocar-se no barranco. Valentini diz que a “neblina dificultava a localização da altura da viagem. O relógio e o eco dos gritos ou assobio dos balseiros permitiam que os mesmos pudessem orientar-se e determinar mais ou menos em que ponto do trajeto se encontravam”22 . Acrescente a isso, o fato de que próximo a esses locais de perigo, em algum afluente do rio Uruguai, estavam os ‘ladrões’, conforme mencionado, esperando que alguma balsa se desfizesse.

Para evitar o saque das toras, cada patrão possuía uma espécie de martelo, com uma marca, que geralmente era uma palavra ou sigla que o identificasse. Severino Aigner explica:
“Cada balseiro ou empresário tinha marca. Por exemplo, a nossa marca era Uva, porque era um martelo escrito Uvá. Então batia aquele martelo, cravado, batia na tora então ficava em cima ‘Uvá’, que era marca da firma. Então se extraviasse a madeira pelo rio, a gente recuperava. Umas era ‘Bósio’, era tudo assim, a nossa marca era Uvá..”
Sobre isso, Barbosa também assinala: “André chegou. Distribuiu ordens. Trepou na pilha de tábuas que traziam as letras R + C, iniciais de Reinaldo Cherubini, fabricante e proprietário.”23

8 ANGELI, Heitor Lothieu. O Velho Balseiro. Porto Alegre: EST Edições, 2000, p. 58.
9 Id. ibidem. p. 57.
10 Madeira de coloração amarelada, com superfície lustrosa e lisa, pesada e dura. Encontrada desde o Rio de Janeiro
e Minas Gerais até Santa Catarina. Usada na construção civil (caibros, vigas e assoalhos); em obras externas, na confecção de móveis, peças torneadas e cabos de ferrramentas.
11 Madeira pesada; cerne branco-palha-amarelado; textura fina; superfície lisa ao tato e medianamente lustrosa; cheiro imperceptível; gosto levemente amargo. É indicada para fabricação de móveis, laminados decorativos, molduras, peças torneadas, peças para esporte e outros artefatos; em construção civil, como vigas, caibros, ripas, rodapés, tábuas e tacos para assoalhos, cabos de ferramentas, metro para medição, forma para calçados etc.
12 ANGELI, op. cit. p.57
13 José Martins de Oliveira foi balseiro. Entrevista concedida à autora em 01/07/2005. Atualmente reside em Linha Santa Catarina – Concórdia/SC
14 TEDESCO, João Carlos e SANDER, Roberto. Madeireiros, comerciantes e granjeiros: Lógicas e contradições no processo de desenvolvimento socioeconômico de Passo Fundo (1900-1960). Passo Fundo: UPF, 2002, p. 222.
15 Espécie de redemoinhos que sugavam as balsas, debulhando-as.
16 BELLANI, Op. Cit., p. 129.
17 ANGELI, op. Cit, p. 63
18 Cilfredo Klein foi balseiro. Entrevista concedida à autora em 13/08/2004.
19 Severino Aigner foi balseiro e filho de patrão. Entrevista concedida à autora em 01/10/2004.
20 TEDESCO, op.cit. p. 222.
21 BARBOSA, Fidélis Dalcin. Semblantes de Pioneiros. Porto Alegre: EST Edições, 1995, p. 71.
22 VALENTINI, op. Cit. P. 85.
23 BARBOSA, op. cit. p.69.

Fonte: Trabalhadores do Rio - Os Balseiros do Rio Uruguai - Noeli Woloszyn

-O-

Capítulo V - Natalício

Natalício encostou-se no balcão e pediu ao Moura que enchesse novamente o copo. A chuva amainara um pouco, poderia até voltar para casa. Seu pensamento, no entanto, estava em outro lugar, no rio que roncava logo ali, cheio, veloz.

Fulgêncio há pouco saíra chateado, brigado, chamando-o de frouxo, covarde. Nunca fora covarde, e o velho prático sabia disso. Tantas vezes o provara, em descidas sem conta. Será que o velho esquecera-se de quantas vezes, quantas, estiveram lado a lado jogando com coragem a balsa nos ressorjos?... Da primeira descida, quando ele e Vicente tiveram que dar uns tapas na cara de alguns dos remadores de primeira viagem que tremiam de medo quando entraram no canal de Yucumã e a balsa ameaçava virar de borco e jogar a todos na goela do Salto Grande?...

Não. O velho não poderia ter esquecido. Estava magoado, somente. Magoado por não ter conseguido encontrar ninguém mais para ajudá-lo a descer o rio na pequena balsa tosca, feita de galhos finos amarrados com cipós, tudo precário e perigoso. Naquela tarde foram ver a balsa, estaleirada numa sanga, a poucos metros do Uruguai, prá lá da roça de feijão. Duvidava que com aquele brinquedo, conseguissem chegar à ilha do Cerne, quanto mais passar o Yucumã. A balsa se desmancharia antes, se não fosse na Corredeira Comprida, seria nos restos da ponte velha do Iraí, que apontavam perigosamente para o céu, do lado de baixo da ponte nova, depois do rio do Mel. Se ainda fosse por precisão, como antes, vá lá... Mas era só por capricho. Mesmo que, por milagre conseguissem chegar à São Borja, de que valeria? Vender para quem aqueles gravetos? Nenhum patrão estaria esperando. E voltar como, sem dinheiro, e se o trem para Santa Maria nem existe mais? E se ainda existisse, como pagar o bilhete?

- Vancê é frouxo, negro velho, covarde, como os filhos do Céza, que deram risada. Como Florão que nem respondeu a carta que mandei. Se Vicente fosse vivo, garanto que ele ia...

- Vicente não ta vivo, compadre, e vancê sabe bem porque ele ficou no fundo do Yucumã...

A discussão fora em voz baixa, quase sussurrada, numa mesa de lata, perto da porta, de onde podiam ver o rio. Olharam-se com dureza, quase com raiva, em silêncio. Depois os olhos foram se enevoando e baixaram a cabeça, pesarosos, até que Fulgêncio soltou os braços conformado e levantou-se, pegando o chapéu.

- Amanhã solto a balsa no rio. Vou sozinho, então...

Agora no balcão, enquanto bebia a pinga em pequenos goles, a imagem de Vicente não saia de sua retina, mesmo quando olhava o cartaz da moça nua na propaganda de cerveja.

Vicente. Moço bonito e alegre. Veio do Rio Grande e ainda menino descia as balsas que saiam de Itá. Encontraram-se um dia, na foz do Chapecó, quando esperavam o rio receber mais águas do Passo Fundo e do Irani, para dar ponto de balsa. Tinham errado os práticos, pensando que o rio daria vau até São Borja. Mas a chuva tinha parado e a enchente veio fraca. Então ficaram ali por dois dias, assando os quatis e os jacus que caçavam nos matos.

Em São Borja encontraram-se novamente e vieram juntos no mesmo trem até Santa Maria, e depois de ônibus até Erexim. Foi quando, nessa viagem de volta, comentaram o sucedido.

- Eu, por mim, não soltava a balsa antes das formigas corredeiras botarem asas - disse Fulgêncio, então remador.

- Soltaram, viu no que deu?... Prejuízo pro patrão e perda de tempo prá nós... Foram dois dias no mato.

- É verdade. Lá no Itá já deve ter outra balsa pronta. Se já não desceu, porque o rio ta alto.

- E lá no Reiúno também. O coronel não perde tempo...

Nessa viagem de volta combinaram conversar com o Patrão, o homem do Coronel que cuidava dos negócios das madeiras e das balsas. Convidaram Vicente.

E foram os três conversar com Manuel Pereira num começo de noite. Fulgêncio fez a proposta. Eles, os três, poderiam levar as balsas até São Borja. E na primeira descida cobrariam a metade do que era pago para os outros práticos. Se não perdessem nenhuma tora, nas próximas viagens o preço seria o acordado; paga de prático para Fulgêncio, paga de dois remadores para Natalício e Vicente, e aos demais o preço normal que o Coronel pagava para todos os outros.

Reuniram em dois dias os remadores, alguns filhos de roceiros, um que era juntador de cipó, Céza que pescava no rio e que mandava os filhos para a vila vender os peixes. De Itá Vicente trouxe Florão, cozinheiro afamado e mais dois remadores.

A primeira descida foi difícil. Tirando Fulgêncio, ele Natalício, Vicente, Florão e os remadores de Itá, todos os outros eram de primeira viagem... Chegaram bem em São Borja, apesar do espanto dos novatos no Salto Grande... Nenhuma tora foi perdida.
Nessa viagem, quando a balsa ia lenta nos remansos, falavam da bugra, filha do patrão. Era bonita por demais a criatura. Vicente brincava: Vou casar com a filha do patrão... Vou mandar em vocês tudo. Eu que vou dar a paga. E ria, debochado.

Em São Borja receberam de um enviado do Coronel o pagamento. Fulgêncio comprou um corte de seda. Vicente comprou um perfume. Ele, Natalício gastou a metade com as francesas de Bento.

Na volta, Fulgêncio levou a seda primeiro. Vicente jogou o perfume no rio.

Quando Fulgêncio casou com a bugra Elvira, Vicente foi morar na casinha deles no Goio-En, num quartinho dos fundos ainda sem porta ou janela, para ajudar na construção, enquanto a enchente não vinha para soltar outra balsa.

E assim foi até a última descida. Os caminhões do Coronel já levavam a madeira serrada, e já existiam estradas. Os pinheiros, as canjeranas e os cedros escasseavam e os poucos que haviam iam direto para a Argentina embarcados nos FNMs, já serrados e em forma de taboas, lá dos lados do Paraná, ao sul do rio Iguaçu, onde há muito tempo havia uma aldeia de selvagens botocudos que, pelo que contam, foram civilizados pelas pregações do Evangelho.

Restaram no Goio-En algumas toras dispersas que o Coronel não queria perder. Reuniram e formaram uma balsa, a última a descer o rio. A última dos balseiros. Eram toras finas, e leves porque secaram pelo tempo de espera. Flutuavam fácil, mesmo as de pinheiros.

Céza não foi desta vez porque estava envolvido nas lidas da lavoura. Os outros foram todos.

O rio estava bonito. A enchente tinha sido das melhores. As formigas tinham soltado as asas na tarde anterior, quase ao anoitecer, sinal de boas águas.

Pela manhã cedinho soltaram a balsa e em dois dias estavam no Salto Grande. Então, ao contrário de tantas outras vezes quando procuravam jogar a balsa no meio do canal, Fulgêncio mandou remarem para a esquerda, para o lado do Rio Grande, até quase enroscar a balsa nas galhadas dos chefadores.

Vicente chegou encharcado ao seu lado gritando:
– Tá louco, homem!.. Quer levar a balsa por terra, que nem o Garibaldi? Sempre descemos pelo meio. Por que isso agora?...

Natalício chegou a tempo de ver Fulgêncio empurrar o Vicente para fora da balsa. Viu quando ele caiu entre a balsa e o barranco, até sumir, esmagado pelas toras. Muito pouco conversaram até chegarem à São Borja.

Ainda com esses pensamentos, Natalício pagou a pinga e seguiu para a ponte, rumando para o seu rancho, do outro lado do rio.

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O HÁBITO SAUDÁVEL DA LEITURA


Formação do Leitor


“Saber ler não é suficiente para transformar uma nação. É preciso ler mais. E leitores são formados, basicamente, com literatura. Isso porque a literatura é a palavra expressa em arte, alimento essencial do imaginário.” Elizabeth Serra

Transcrevo a seguir um depoimento de Ana Paula Maranhão, do site “Construir Notícias”.
http://www.construirnoticias.com.br

No nível lingüístico, a audição de livros permite esclarecer um conjunto variado de relações entre a linguagem escrita e a linguagem falada; o sentido da leitura; as fronteiras entre as palavras; e a recorrência das letras, dos sons e da pontuação utilizada, aumentando a estrutura de seu repertório e desenvolvendo estruturas de frases e textos. A criança leitora habitua-se a parafrasear, a dizer de outro modo, a compreender e a utilizar figuras de estilo.

Essas capacidades lhe serão particularmente úteis após os dois primeiros anos de aprendizagem da leitura, durante os quais os textos a serem lidos são ainda relativamente simples. Com efeito, os conhecimentos lingüísticos adquiridos durante a audição de livros (histórias) proporcionam-lhe um trunfo considerável para enfrentar uma leitura progressivamente mais sofisticada.

No nível afetivo, descobre-se o universo da leitura pela voz, pela entonação e pela significação daqueles em que a criança tem mais confiança e com quem ela mais se identifica. Através de suas histórias favoritas, seus pais e professores desempenham um papel importante com seus comentários e suas explicações. Frutificando os subsídios cognitivos e lingüísticos, sendo através deles que o leitor descarrega todas as suas emoções e seus sentimentos, sempre lhes dando um novo significado. Desse modo, ele irá perceber a função social da leitura.

Formar um leitor é algo sutil e democrático, exigindo a única pedagogia possível: a do afeto e da liberdade (Maria Dinorah,1996).

Segundo estatísticas internacionais, forma-se um leitor mais ou menos até os quatorze anos de idade, num processo que tem raízes no lar, onde a criança, desde os primeiros anos de vida, convive com a magia das histórias, lendas, poesias... Especialistas chegam a afirmar que esse processo tem início no ventre materno. Aprendendo a gostar de ler, antes mesmo de saber ler.

José Morais, em seu livro A arte de Ler, afirma que “Os prazeres da leitura são múltiplos. Lemos para saber, para compreender, para refletir. Lemos também pela beleza da linguagem, para nossa emoção, para nossa perturbação. Lemos para compartilhar. Lemos para sonhar e para aprender a sonhar (há várias maneiras de sonhar...).

A melhor maneira de começar a sonhar é por meio dos livros...

Deduzimos então, como Maria Dinorah, professora e escritora, que “Uma criança sem livros é um prenúncio de um tempo sem idéias”. Para ela, o livro tem o poder de desenvolver na criança leitora a criatividade, a sensibilidade, o senso crítico, a sociabilidade e a imaginação; e leva a criança a aprender. É lendo que se aprende a ler, a escrever e a interpretar, formando assim um verdadeiro leitor, leitor no mundo que o rodeia. Numa palestra, Emília Ferreira falava: “Contem muitas histórias para as crianças, desde pequeninas”. Bill Gates, o papa da computação, em entrevista ao Jornal do Brasil de 15 de dezembro de 1996, revelou: “Computadores não substituem livros”. Cecília Meireles citava: “A literatura melhor é a que as crianças lêem com prazer”.

Assim falava Fanny Abramovich: “Ah, como é importante para a formação de qualquer criança ouvir muitas, muitas histórias”. Monteiro Lobato, que desejava muito fazer “um livro onde as crianças pudessem morar”, também comentava: “Um país é feito de homens e livros”. Percebemos em todas as citações o quanto é encantador proporcionar o prazer pela leitura.

Para formarmos leitores, precisamos ter prazer; o prazer da audição, de se encontrar consigo mesmo, de ser ator e espectador, mesmo que ela ainda não saiba ler. Daniel Pennac, em seu livro Como Um Romance, revela-nos os dez direitos imprescritíveis de um leitor:

01. O direito de não ler.

02. O direito de pular páginas.

03. O direito de não terminar um livro.

04. O direito de reler.

05. O direito de ler qualquer coisa.

06. O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível).

07. O direito de ler em qualquer lugar.

08. O direito de ler uma frase aqui e outra ali.

09. O direito de ler em voz alta.

10. O direito de calar.

É importante que esses direitos estejam incorporados às práticas cotidianas do leitor, propiciando-lhe informações culturais e oportunidade de se apaixonar pelas leituras e pelos livros, dando alimento à sua imaginação. Proporcionando o máximo de conforto e liberdade, pretende-se despertar o desejo e o prazer de ser um verdadeiro leitor.

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(Gostou da cor, amiga?... Era essa mesma que querias?...)

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4 comentários:

uma xirua disse...

quatis e jacus...

na barra do turvo, no caminho p/ a sanga, onde buscávamos água e agrião, havia também uma trilha que, segundo o seu lourenço, chegava do lado oposto à estradinha jamais percorrida.

certa vez, vi ali um animal que me pareceu um rato enorme de rabo listrado. assustou-me o bichinho.

relatando o fato ao seu lourenço, ele concluiu:
- você viu um quati. amanhã vou caçar.

foi o que ele fez.

no final do dia seguinte, além do quati, trouxe também um jacu, uma ave de penas escuras e que me lembravam o urubu.

seu lourenço teve o cuidado de tirar a pele do quadrúpede, de forma a fazer um minúsculo tapete, que serviu p/ minhas brincadeiras de casinha por muito tempo.

recordações. boas recordações.

os quatis e jacus de natalício e vicente fizeram-me viajar no tempo...

tempo em que havia uma casinha branca de madeira, coberta de zinco, perto de uma bica de água cristalina, puríssima, gelada...

algumas flores por perto...

tempo em que os ponteiros dos relógios moviam-se lentamente...

tempo em que o barulho da chuva caindo no zinco, soava como uma melodia suave embalando sonos e sonhos...

tempo em que havia uma janela de onde eu avistava a mata do outro lado da estrada, local em que construí um mundo só meu.

naquele meu mundo estava você.

disse...

Ótimo texto acerca da leitura e de como podemos estimular desde a mais tenra idade nossos futuros leitores. É disso que precisamos cada dia mais! Adorei! Bjins e até!

sueli disse...

Meu pai é meu avô tbem eram baladeiros no Rio Uruguai, mesmo trajeto, meu avô se chamava Helmut Jacob Bennemann (falecido), e meu pai é Pedro Luiz Bennemann, hoje com 75 anos ainda conta as histórias, desde os 10 anos já era balseiro com meu avô, tem muitas fotos, enfim, ele amava essa profissão, hoje mora em Sorriso -MT

sueli disse...

*balseiros

 
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