domingo, 7 de dezembro de 2008

A Invenção do Amor


Em todas as esquinas da cidade, nas paredes dos bares, à porta dos edifícios públicos, nas janelas dos autocarros, mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes, na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém, no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga, um cartaz denuncia o nosso amor.

Em letras enormes do tamanho do medo, da solidão, da angústia, um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel numa tarde de chuva entre zunidos de conversa e inventaram o amor com caracter de urgência, deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana.
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura e souberam entender-se sem palavras inúteis.


Apenas o silêncio. A descoberta. A estranheza de um sorriso natural e inesperado. Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna. Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente, embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta de um amor subitamente imperativo.
Um homem e uma mulher, um cartaz denuncia colado em todas as esquinas da cidade. A rádio já falou. A TV anuncia iminente a captura. A policia de costumes, avisada, procura os dois amantes nos becos e nas avenidas.


Onde houver uma flor rubra e essencial é possível que se escondam, tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo.

É preciso encontrá-los antes que seja tarde. Antes que o exemplo frutifique. Antes que a invenção do amor se processe em cadeia. Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos. Chamem as tropas aquarteladas na província. Convoquem os reservistas, os bombeiros, os elementos da defesa passiva!...

Todos, decrete-se a lei marcial com todas as consequências. O perigo justifica-o!...

Um homem e uma mulher conheceram-se, amaram-se, perderam-se no labirinto da cidade;

É indispensável encontrá-los, dominá-los, convencê-los, antes que seja tarde e a memória da infância nos jardins escondidos acorde a tolerância no coração das pessoas.

Fechem as escolas! Sobretudo protejam as crianças da contaminação. Uma agência comunica que algures ao sul do rio, um menino pediu uma rosa vermelha e chorou nervosamente porque lha recusaram. Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente, dado aos longos silêncios e aos choros sem razão. Aplicado no entanto. Respeitador da disciplina. Um caso típico de inadaptação congénita, disseram os psicólogos.

Ainda bem que se revelou a tempo! Vai ser internado e submetido a um tratamento especial de recuperação. Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital que o diagnóstico se faça no período primário da doença. E também que se evite o contágio com o homem e a mulher de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade. Está em jogo o destino da civilização que construímos, o destino das máquinas, das bombas de hidrogénio, das normas de discriminação racial, o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos, a verdade incontroversa das declarações políticas...

É possível que cantem, mas defendam-se de entender a sua voz. Alguém que os escutou deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas. E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra, respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz, lhe lembravam a infância. Campos verdes floridos. Água simples correndo. A brisa das montanhas.

Foi condenado à morte, é evidente. É preciso evitar um mal maior. Mas caminhou cantando para o muro da execução; foi necessário amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele um misterioso halo de uma felicidade incorrupta...

Procurem a mulher e o homem que num bar de hotel se encontraram numa tarde de chuva. Se tanto for preciso estabeleçam barricadas, senhas, salvo-condutos, horas de recolher, censura prévia à Imprensa, tribunais de excepção.

Para bem da cidade, do país, da cultura, é preciso encontrar o casal fugitivo que inventou o amor com carácter de urgência...

Os jornais da manhã publicam a notíciade que os viram passar de mãos dadas sorrindo numa rua serena, debruada de acácias. Um velho sem família, a testemunha, diz ter sentido de súbito uma estranha paz interior, uma voz desprendendo um cheiro a primavera, o doce bafo quente da adolescência longínqua.

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Daniel Filipe, Poeta esquecido em Cabo Verde


Em 1925 nasceu Daniel Damásio Ascensão Filipe na ilha da Boavista, em Cabo Verde. Ainda criança, foi para Portugal onde fez os estudos liceais. Poeta, foi colaborador nas revistas Seara Nova e Távola Redonda, entre outras publicações literárias. Combateu a ditadura salazarista, sendo perseguido e torturado pela PIDE.
Num curto espaço de tempo, a sua poesia evoluiu desde a temática africana aos valores neo-realistas e a um intimismo original que versa o indivíduo e a cidade, o amor e a solidão.

Faleceu em 1964 em Cabo Verde.

Este poema/crônica é dele. Foi publicado no blog da Nova Águia

http://novaaguia.blogspot.com pela direção da revista e do Movimento Internacional Lusófono Paulo Borges, Celeste Natário e Renato Epifânio.
A grafia original lusa/cabo-verdiana foi mantida.

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A segunda edição da Revista Nova Águia já está a circular. Ela é publicada pela Editora Zéfiro. http://www.zefiro.pt/catalogo_novaaguia_net.htm

Tem muito mais coisas boas lá.










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O MIL: MOVIMENTO INTERNACIONAL LUSÓFONO é um movimento cultural e cívico recentemente criado, em associação com a NOVA ÁGUIA: REVISTA DE CULTURA PARA O SÉCULO XXI, projeto que conta já com mais de sete centenas de adesões, de todos os países lusófonos.
A Comissão Coordenadora do MIL é presidida pelo Professor Doutor Paulo Borges (Universidade de Lisboa), Presidente da Associação Agostinho da Silva (sede do MIL).
A lista de adesões é pública – como se pode confirmar publicamente (http://www.novaaguia.blogspot.com/), são pessoas das mais diversas orientações políticas e religiosas.
Caso se reconheça na nossa Declaração de Princípios e Objectivos (http://movimentolusofono.wordpress.com/declaracao-de-principios-e-objectivos/), pode juntar-se a nós. Para tal, basta enviar um e-mail para http://afmail.uol.com.br/compose?to=adesao@movimentolusofono.org (indique a área de residência).


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O HÁBITO SAUDÁVEL DA LEITURA

“Estimular a leitura por meio do gozo literário, quer dizer, por ela mesma.” José Rufino Santos- Nova Escola 04/08

LEVANDO UMA HISTÓRIA PARA CASA


Para que chegassem aos livros da biblioteca, comecei a emprestar-lhes pequenas doses de histórias.
Recortei algumas de livros didáticos usados, fotocopiei contos de revistas infantis e pedagógicas.
Gradativamente os alunos estavam acostumando-se a ler em casa. Fui comprando revistas em quadrinhos e livrinhos, observando qual a preferência deles. Com o passar do tempo, a procura foi aumentando, comecei, então, a solicitar ajuda da família, amigos e editoras.

Para que adquiram o hábito da leitura é conveniente que comecem com leituras mais lúdicas, fantasiosas, da geração deles.
As clássicas, eles lerão quando este hábito estiver mais apurado.

De nada adianta forçar-lhes a ler Dom Casmurro sem antes não folhearem uma revistinha do Bem 10!

Portanto o acervo da Oficina é essencialmente “moderno”.

Desde revistinhas da Turma da Mônica, Super Homem, até livros para adolescentes, cujo tema principal é o amor.

Existem nas bancas, revistinhas de pensamentos de amor, poesias e frases que as meninas adoram até copiar em seus cadernos.

Até os meninos aproveitam as poesias para enviar cartinhas para as meninas...

Outro sucesso: livros de namoros, dicas e histórias de amor.

Com isto, tenho pesquisado livros deste gênero, pois acredito que lendo acontecimentos próximos de sua realidade, eles estarão no caminho certo para serem grandes leitores mais tarde.

Os sites de revistas teen na internet ajudam bastante. Eu costumo imprimir matérias, contos, histórias, curiosidades, (não imaginam meu consumo de tinta e papel...)

Gostaria até de indicar a revista Atrevidinha para as meninas de 12 anos. Uma graça de revista! Muito bem elaborada.

E outra dica, não é uma revista cara... Existem outras excelentes, como a Recreio, porém seu preço não é nada animador.

Com a rotina dos empréstimos precisei criar algumas normas para não perder o acervo. Alguns alunos não cuidam direito,amassam , rasgam e até perdem.

Vindo ao encontro, o resgate à responsabilidade, o cuidado ao transportar e manusear livros, revistas juntamente com o compromisso de devolver no tempo estabelecido. A pena máxima é quando o aluno fica “impedido” de levar mais histórias para casa.

Se ele levou uma vez e infringiu o estabelecido com relação ao prazo de entrega ou cuidado no manuseio, ele terá mais uma chance. Caso perca uma revista, deverá trazer outra. No início aceitava outras revistas similares. Mas, precisei exigir outra igual, pois acontecia do “cliente” gostar tanto daquelas revistas, que “perdiam”, sabe? Tipo: “Vou ficar com estas e levo outras para Oficina”...

Isto também é uma questão de observação, creiam, ainda existem crianças sem má fé. Simplesmente gostam do “Homem Aranha” e querem ficar com aquele exemplar...

Naturalmente algumas revistas foram “encontradas” em baixo da cama ou em gavetas misteriosas que a mamãe guardou e não avisou... Acontecia muito com as revistas de poesias, frases de amor e heróis.

Além do acervo de periódicos, Oficina tem livros infanto- juvenis.

Procuro sites de autores, assim, como comentei na primeira postagem, onde fiz os agradecimentos de doações.

Ainda queria muito que a autora Inês Stanisiere e/ou a Editora Planeta atendessem meu pedido. Os livros dela são tão lidos , que precisei encaderná-los, não com as capas duras, porque ficam muito caros... Se eles me doassem um exemplar de cada...

Ah! Não sabem como as meninas ficariam felizes. E ainda tem o lançamento novo...Não pude comprar ainda, e infelizmente não recebo retorno dos emails.
Drica Pinotti, outra escritora fantástica. Seus livros “Cinco Coisas” de relacionamento ou amizade , De Menina A Mulher, entre outros, são bem adequados, as meninas se divertem e ao mesmo tempo se informam.

Enfim, são tantas as propostas de leituras variadas com textos que fazem sentido a estes alunos.
Seria imperdoável que eu, como educadora, não os levassem a adquirir o HÁBITO SAUDÁVEL DA LEITURA.

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2 comentários:

sherazade disse...

"um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura e souberam entender-se sem palavras inúteis.
apenas o silêncio. a descoberta. a estranheza de um sorriso natural e inesperado."
como comentar um algo tão profundo?
tudo que consigo é me embriagar com as palavras lidas e relidas por diversas vezes.
parabéns mais uma vez!

Mariza disse...

Oi Passei aqui pra te abraçar.

 
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