sexta-feira, 2 de março de 2012

Gerúndios, Gauchismos e Calopsitas

Desde que aprendi a acolherar as primeiras letras sempre gostei de ler e, por conseqüência, de escrever.

É preciso, no entanto, distinguir entre gostar e saber fazer. Tenho, ainda hoje, dificuldades com algumas palavras, figuras de linguagem, onomatopéias, metáforas e paradoxos. As formas nominais são, para mim, as mais problemáticas.

O Gerúndio, especialmente, causa-me pavor. Só o nome me arrepia: Ge-rún-dio!... Não te parece, caro leitor, que dito assim, compassado, em tom ameaçador, que estamos tratando (ôpa) de um ser cavernoso, mitológico, maltrapilho, ameaçador, com uma cimitarra nas mãos, pronto a decepar as nossas melhores intenções literárias? Eu nunca sei em que lugar da frase hospedar esse monstro.

O professor Fidélis Dalcin Barbosa, de saudosa memória, certa vez chamou-me gerundista e tentou ensinar: “O gerúndio constitui uma oração subordinada de caráter adverbial e, de certo modo, também possui uma função adjetiva. Para ter um emprego claro, o gerúndio deve estar o mais perto possível do sujeito ao qual se refere.”

Diante da minha estupefação, complementou: “o gerúndio se caracteriza como uma forma nominal aplicável em várias circunstâncias, desde que condizente como tal, ou seja, para expressar uma ação em curso ou uma ação simultânea a outra, ou para exprimir a idéia de progressão indefinida.”

Sei... Entendi!...

Para evitar problemas maiores, passei a substituir os gerúndios (éca) decompondo-o. Assim, caminhando passou a ser “a caminhar”; fazendo passou a ser “a fazer” dormindo, “a dormir”, e assim por diante.

Novamente o saudoso mestre deu-me um pito: - Que pedantismo é esse? Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Não só pode como se deve usar os gerúndios.

Hoje em dia uso os gerúndios com moderação, como está escrito nas latinhas de cerveja.

Sei que cometo, ainda, esse e outros erros, mas me conformo quando ouço a moça do meu banco informar ao telefone: “Você precisa estar aguardando que vou estar transferindo o senhor para outro setor”.

No final de semana do carnaval, recebemos a família de meu sobrinho Sidnei, vinda de São Paulo, Capital.

Enquanto o churrasco assava, conversávamos animadamente. Ele riu-se a valer quando eu disse: - Separei esta costela para ti...

Ora, não está errado dizer assim, mas soa estranho para quem não está acostumado. O gaúcho utiliza muito essa forma de pronome pessoal, em vez de “você”. A partir de então ele passou a repetir a frase de forma jocosa para tudo o que falava e a rir-se de qualquer outra expressão que eu utilizasse e que tivesse a mais leve suspeita de sotaque sulino.

Marco André, no seu livro “A Arte de Escrever Bem” (Editora Betânia, 2000) recomenda evitar o uso de conceitos culturais, regionalismos, usos e costumes que são próprios de uma etnia ou grupo específico, cujos princípios não podem ser generalizados, sob pena de criar situações até mesmo constrangedoras. (pg. 89)

Ocorre que a nossa maneira de falar (e de escrever) está tão entranhada em nós que não percebemos quando pronunciamos alguma palavra de uso incomum naquele grupo em que estamos momentaneamente inseridos.

É uma situação diferente quando o autor deliberadamente emprega palavras de uso restrito a uma região ou cultura, como forma de evidenciar essas características.

Cito, como exemplo, João Simões Lopes Neto, escritor regionalista do Rio Grande do Sul, nascido em Pelotas, em 9 de março de 1865 e falecido em 1916 na mesma cidade. Suas obras são todas eivadas de expressões regionais de difícil entendimento para o leitor de outros estados. Veja o trecho a seguir, sobre a noite sem ventos no início da lenda da Mboitatá em “Lendas do Sul”:

FOI ASSIM:

num tempo muito antigo, muito, houve uma noite tão comprida que pareceu que nunca mais haveria luz do dia.

Noite escura como breu, sem lume no céu, sem vento, sem serenada e sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das flores da mataria.

Os homens viveram abichornados, na tristeza dura; e porque churrasco não havia, não mais sopravam labaredas nos fogões e passavam comendo canjica insossa; os borra¬lhos estavam se apagando e era preciso poupar os tições...

Os olhos andavam tão enfarados da noite, que ficavam parados, horas e horas, olhando, sem ver as brasas vermelhas do nhanduvai... as brasas somente, porque as faíscas, que alegram, não saltavam, por falta do sopro forte de bocas contentes.

Naquela escuridão fechada nenhum tapejara seria capaz de cruzar pelos trilhos do campo, nenhum flete crioulo teria faro nem ouvido nem vista para bater na querência; até nem sorro daria no seu próprio rastro!

E a noite velha ia andando... ia andando...

II

Minto:

...

Para utilizarmos termos e expressões regionais é preciso ter conhecimento e vivência com essa cultura, tradições e costumes, do contrário correremos o risco das situações constrangedoras, referidas por Marco André, e cairmos em alguma armadilha.

Foi isso o que ocorreu com um tio meu. Egocentrista ao extremo, nenhum de nós podia ter um cachorro melhor que o dele, um cavalo melhor, e, nem mesmo acertar mais questões na prova que ele, sob pena de apanharmos na volta da escola.
Um prepúcio colorado...

Certo dia ele virou poeta. Escrevia e recitava versos repletos de palavras de difícil entendimento para nós, ignorantes.

Lembro-me bem de um trecho de uma poesia em que ele enaltecia a beleza do entardecer nos pampas. Dizia assim: “...o sol se recolhe nas coxilhas, num prepúcio colorado...” Passei longo tempo tentando entender os seus versos. Qual a relação que tinha o lenço vermelho dos maragatos com o entardecer? E com o Sport Club Internacional?

Só quando fui para a cidade estudar, e que, na biblioteca da escola caiu-me nas mãos um livro de anatomia humana foi que entendi que o que ele queria dizer era um crepúsculo avermelhado, rubro.

Em suma, preciso ainda de muita leitura, estudo, prática, para me tornar escritor.

Já as calopsitas... Ora, bem. As simpáticas avezinhas australianas não têm nada a ver com esta crônica. Considero a palavra bonita, científica, culta, sonora e ao mesmo tempo delicada. Não é pedante como os gerúndios nem tampouco regionalista e excludente como os gauchismos.

Eu só a utilizei para enfeitar o título.

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6 comentários:

krika disse...

Ara...então propaganda enganosa sobre calopsitas...
Mas meu caro Clóvis, orgulha-te de teu sotaque e "tus" afins. Gaúchos falam corretamente e com conhecimento de causas.
O povo do sudeste tem é inveja e nem sabem conjugar verbos na segunda pessoa...Aliás é dificil...
Outra coisa: sumiste pq? Mandes notícias chtê!
Um beijo pra ti e Marttita,da madrinha mineirinha uái

Quasímodo disse...

Bença, Dinda...

Não sumi. Estava sem idéias para escrever e com ocupações outras.

O sotaque não é uma questão de orgulho. É natural.

Falo contigo por outros meios.

Beijo, amiga.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Adoro e aceito todos os sotaques, com ou sem gerúndios. Na questão do tu e do você, uso mais o você, pela conjugação. Prefiro o "você vai?" do que o "tu vais?...acho, a segunda pessoa, muito "pedante"...
Já as calopsitas foi um "toque" lindo no título, realmente.

Resumo da ópera! gostei do texto aliado à sua volta, ao nosso reino.
Amém!

Obrigada, pela ida à Cadeirinha.
Boa e produtiva semana, meu amigo.

Um beijo.

José Maurício Guimarães disse...

Ótimo!!!
(eu ia dizer "vivendo e aprendendo", mas resolvi dizer só entre parênteses!)
Abraços do
Jota

Loulou disse...

Ahhh corcundita krido! Q delicia ler o texto. Fartei-me de rire....baijos

Loulou disse...

Ahhh corcundita krido! Q delicia ler o texto. Fartei-me de rire....baijos

 
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