sexta-feira, 3 de junho de 2011

A Travessa do Ferreira e José Jorge Letria

 Novíssimo Testamento (fragmentos)



Não fui eu que envelheci, juro,
foi a esperança que apodreceu em mim,
corpo desenterrado à espera da mortalha da lua
como num macilento soneto ultra-romântico.
...

Desconfiem dos poetas pudicos, sempre,
pois foram os únicos que saborearam
a nudez inclemente da morte e nunca a confessaram.
...

Eu cansei de simular a bondade,
igual à dos santos de barro dos altares da pobreza.
...

Somos estupidamente mortais, desde sempre,
e imaginamo-nos artífices de eternidades,
ensinando aos velhos o caminho do abismo
e aos outros o que sobra da ciência dos livros.
...


Quando quiserem saber de mim, não hesitem,
abram o livro na página que eu nunca escreverei.
José Jorge Letria
Produto Interno Lírico
Oficina do Livro – Sociedade Editorial Ltda.
Lisboa – Janeiro de 2010.

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Sou forçado a admitir publicamente e envergonhado o meu completo analfabetismo literário. Não conhecia José Jorge Letria, autor dos versos acima, (que pincei aleatoriamente temendo ferir direitos autorais) até que o amigo Henrique Antunes Ferreira, guardião-mor de “A Minha Travessa do Ferreira” - blog que já aqui referi e recomendei – me presenteasse com um belíssimo livro, a que fiz jus, diga-se a bem da verdade, por ter respondido corretamente a um passatempo/concurso que ele, o Henrique, periodicamente realiza, patrocina e... premia.

O livro é dois-em-um, ou flex como estamos nos acostumando por aqui com os carros bi-combustíveis. Ao pegá-lo por um lado, tem-se a prosa “Coração Sem Abrigo”, que conta a história de um mendigo e seu cachorro (aliás, o autor é bastante comprometido com a vida e salvaguarda dos animais, como poderão ler mais abaixo). Virando o livro, inicia-se uma série de 34 poesias compiladas sob o título de “Produto Interno Lírico” cuja primeira é a transcrita parcialmente acima. Veja a (s) capa (s) na imagem inicial desta postagem.

Junto com o livro, veio um cartão manuscrito pelo próprio Henrique, dando conta de que o autor José Jorge é um grande amigo seu, o que ainda mais valoriza o presente.

Não fosse isso o bastante, a surpresa de ler em uma das contracapas do livro de prosa o seguinte: “Todos estamos sós no coração da Terra trespassado por um raio de sol: e de repente anoitece” escrito por... Salvatore Quasimodo. Não sei se o amigo Henrique se deu conta disso ou se foi proposital!...

Mas não é sobre o poeta italiano Salvatore Quasimodo (1901-1968) que escrevo hoje. Transcrevo abaixo o que encontrei sobre José Jorge Letria na Wikipédia, a enciclopédia livre (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Jorge_Letria), não sem antes recomendar novamente a visita à Travessa do Ferreira (http://aminhatravessadoferreira.blogspot.com/). Há um novo passatempo/concurso transcorrendo por lá.

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José Jorge Alves Letria (n. Cascais, 8 de junho de 1951 é um jornalista, político, poeta e escritor português.

Estudou Direito, História e História de Arte na Universidade de Lisboa, sendo Pós-Graduado em Jornalismo Internacional e Mestre em "Estudos da Paz e da Guerra nas Relações Internacionais" pela Universidade Autónoma de Lisboa.

Jornalista desde 1970 até dezembro de 2003, começou por colaborar nos suplementos Juvenil e A Mosca do Diário de Lisboa.

Seguidamente, foi redactor e editor de jornais como o República, Diário de Notícias, O Diário e Jornal de Letras, foi ainda chefe da redacção do semanário Musicalíssimo e correspondente do diário de Barcelona, Tele-Express, e da revista Delibros do Ministério da Cultura de Espanha.

Tendo sido, igualmente, professor de jornalismo, experiência da qual resultou a publicação de três livros sobre a matéria.

Foi autor de programas de rádio e de televisão, destacando-se, a esse nível, a sua participação, durante vários anos, na equipa de criadores da “Rua Sésamo”, em Portugal e autor dos textos do programa "Pastéis de Belém", na TSF.

Iniciou o seu percurso político como membro do PCP em 1972, tendo-se desvinculado deste partido em 1991.

Foi um dos poucos civis que se encontravam ao corrente do levantamento militar de 25 de abril de 1974, tendo colaborado com os militares na Direcção da Emissora Nacional desde 27 de abril desse ano e foi responsável pela programação musical da Estação oficial até meados de 1975.

Aderiu ao PS em 1995 e foi entre 1994 e 2001 vereador da Cultura da Câmara Municipal de Cascais, onde criou a revista Boca do Inferno.

Integrou durante seis anos o Bureau Executivo da Associação dos Eleitos Locais e Regionais da Grande Europa para a Cultura, tendo sido membro da Comissão de Redacção do Livro Branco sobre as Políticas Culturais na Europa.

Foi vice-presidente da Fundação D. Luís I., para a área da Cultura, em Cascais, e presidente da Fundação São Francisco de Assis, também sede em Cascais, destinada ao acolhimento e tratamento de animais abandonados.

Como dirigente associativo foi membro da direcção do Sindicato dos Músicos e da Associação Portuguesa de Escritores e Vice-Presidente da Direcção e da Administração da Casa da Imprensa.

É membro da World Literary Academy.

É, desde setembro de 2003, vice-presidente e administrador da Sociedade Portuguesa de Autores e, desde setembro de 2007, seu administrador-delegado e integra, desde abril de 2005, em representação da SPA, o Comité Executivo do Conselho Internacional de Autores Dramáticos, Literários e Audiovisuais.

Integra desde finais de Setembro de 2009 os corpos sociais da Fundação Paula Rego.

Recebeu em novembro de 2009 o Prémio Manuel de Arriaga, instituído pela Sociedade Protectora dos Animais para distinguir personalidades individuais ou colectivas que se destaquem anualmente pelo seu contributo para a defesa e divulgação dos direitos dos animais. Foi tida em conta a acção pública do distinguido ao longo dos anos, mas também a publicação de livros como "Amados Cães", "Amados Gatos" e do recente romance "Coração Sem Abrigo", que tem como personagens centrais um sem-abrigo e o seu cão de companhia num contexto de solidão urbana.

O essencial da sua obra poética encontra-se condensado nos dois volumes da antologia "O Fantasma da Obra", publicados respectivamente em 1994 e em 2003, ano em que completou três décadas de actividade literária em livro, e foi objecto de uma dissertação de Mestrado apresentada em 2003 na Universidade Aberta pela Drª Fátima Azóia.

O seu livro para crianças "O Homem que Tinha uma Árvore na Cabeça"… integrou, em 2002, a lista "Books and Reading for Intercultural Education", da União Europeia.

Autor de quase duas centenas de títulos publicados em cerca de cinquenta editoras diferentes, metade dos quais na área literatura infanto-juvenil, a sua obra para a infância foi o tema da dissertação de Mestrado da Drª Maria Teresa Macedo, na Universidade do Minho.

Sobre a sua experiência na madrugada do 25 de abril publicou, em 1999, o livro "Uma Noite Fez-se Abril".

Foi autor do ensaio "O Terrorismo e os Media - O Tempo de Antena do Terror".

Tem livros traduzidos em várias línguas (castelhano, francês, inglês, italiano, coreano, japonês, russo, búlgaro, romeno, húngaro e checo).

Está representado em numerosas antologias poéticas em Portugal e no estrangeiro, designadamente em França, onde o seu livro "Um Amor Português", com tradução de Séverine Rosset, foi publicado com a chancela das Edições Albin Michel.

A sua obra literária foi distinguida, até à data, com inúmeros prémios.

Como escritor distingue-se na poesia, no conto, no teatro e, sobretudo, na literatura para a infância e juventude.

Títulos Recentes do autor

Para Crianças e Jovens:

"A Minha Primeira República", Dom Quixote, ilustrações de Afonso Cruz, 2009

"Henriqueta, a Tartaruga de Darwin", Texto/Leya, ilustrações de Afonso Cruz, 2009

"Galileu à Luz de uma Estrela", Texto/Leya, ilustrações de Afonso Cruz, 2009

"O Dia em que o Homem Beijou a Lua", Portugália, ilustrações de Carla Nazareth, 2009

"A Alfabeto dos Países", Oficina do Livro, Ilustrações de Afonso Cruz, 2009

"Era Uma Vez um Rei Conquistador", Oficina do Livro, ilustrações de Afonso Cruz, 2009

"Machado dos Santos-Herói da Rotunda", Texto/Leya, ilustrações de Afonso Cruz, 2010

Para Adultos:

"Meu Portugal Brasileiro", Oficina do Livro, 2008

"O Que Darwin Escreveu a Deus", Oficina do Livro, 2009

"Coração Sem Abrigo", Oficina do Livro, 2009

"A Última Valsa de Chopin", Oficina do Livro, 2010

"O Vermelho e o Verde", sobre a implantação da República, ed. Planeta, 2010

Biografia Musical

Nos anos 70 foi um activo cantor de intervenção, ao lado de nomes como José Afonso, Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira e Francisco Fanhais, entre outros, tendo gravado entre 1968 e 1981, cerca de uma dezena de discos e realizou centenas de espectáculos, nomeadamente na Galiza e em Madrid entre 1972 e 1973.

Prémios e distinções

• 1992, foi agraciado com a medalha da International des Arts et des Lettres, de Paris, juntamente com os escritores Natália Correia e David Mourão-Ferreira

• condecorado, em 1997, pelo Presidente da República Jorge Sampaio com a Ordem da Liberdade.

• distinguido, em junho de 2002, com a Medalha de Honra do Município de Cascais, tendo sido atribuído o seu nome à Escola EB 1 da vila, por si frequentada na infância.

• Premiado com dois Grandes Prémios da Associação Portuguesa de Escritores em conto e em teatro.

• Prémio Internacional Unesco atribuído em França.

• Prémio Aula de Poesia de Barcelona.

• Prémio Plural do México.

• Prémio da Associação Paulista de Críticos de Arte atribuído em São Paulo.

• Prémio Gulbenkian.

• Grande Prémio Garrett da Secretaria de Estado da Cultural.

• Prémiado duas vezes com o Prémio Eça de Queirós-Município de Lisboa.

• Prémio Ferreira de Castro de Literatura Infantil que ganhou três vezes, tal como o Prémio "O Ambiente na Literatura Infantil"

• Prémio Garrett.

• Prémio José Régio de teatro.

• Prémio Camilo Pessanha do IPOR.

• Prémio Maria Rosa Colaço, em 2006, para o texto inédito "A Fala das Coisas" (conto infanto-juvenil)

• Prémio Nacional de Poesia Nuno Júdice, de 2007, para a colectânea inédita "Sobre Retratos".

• Prémio Manuel d'Arriaga da Sociedade Protectora dos Animais em 2009, pela solidariedade manifestada para com as organizações de apoio aos animais abandonados e pela publicação regular de livros em que os animais e os seus direitos se encontram em destaque, caso de "Amados Gatos" , "Amados Cães" e "Coração Sem Abrigo", todos da Oficina do Livro.


(Não é mesmo para sentir-se envergonhado?...)

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9 comentários:

Luzia disse...

Venho ler o post depois!!!

Tenho esse livrinho de prosa e poesia do Letria e tenho estórinhas para contar acerca desse senhor... os nossos caminhos cruzaram-se algumas vezes!

Volto depois!

Beijinhos!

..
.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

...díssimo (eu, envergonhadíssima! Já vi parecida, mas vida rica, igual a de Letria, está pra nascer. A gente já começa a se encantar com o primeiro poema,aí postado,vai crescendo, no tamanho e na qualidade, que é mesmo de causar inveja (com bom senso) a qualquer mortal.Não o conhecia...

Gostei tambem do seu gesto, de parceiro/amigo, do nosso Ferreiramigo.Eu, ao ter ganho também, no Concurso anterior da Travessa, fiz um "post marqueteiro", ao comum amigo. Recebi dele,o livro de Alexandre Herculano,"Eurico, o Presbítero", que já havia lido há bastante tempo.
No momento, delicio-me na releitura.
Bom domingo,Clóvis,e produtiva semana...
Beijo

krika disse...

Amigo,não conhecia Letria.Afinal nós somos apenas humanos...não damos conta da poesia....

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Clóvisamigo

(O Corcundamigo fica para outras núpcias, salvo seja)

Mutíssimérrimo obrigadérrimíssimo, mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra... O Jotajota Letria é um gajo bué da fixe e o irmão, que também é jornalista, o Joaquim também é. Boas praças, ambos.

Felizmente, sou amigo dos dois (que politicamente são diferentes, o que não me rala nada) e tenho muito prazer e honra em sê-lo. E ainda - se tal é possível - aumento a minha auto-estima, pelo que de mim escreves. E que eu não mereço.

Porém, só o facto de ter dado a conhecer o Jotajota a esta boa gente, é suficiente para poder dizer que é muito bom estar convosco, ter-vos como Amigas e Amigos.

Vou continuar a fazer PASSATEMPOS/CONCURSOS e a atribuir prémios-mistério aos que me (per)seguem. Estão quase a chegar aos 700. Então se verá o que vai acontecer...

Abç

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Então, Clóvis, quando sairá uma nova "fornada"?.
Aqui no Ceará, na penúltima década dos anos 1800, houve um movimento literário que se chamou "Padaria Eapiritual". Os intelectuais, membros, eram chamados de "padeiros". As publicações eram "fornadas".

Passei para lhe desejar boa semana e um carinhos abraço.
Lúcia

Quasímodo disse...

Volte sempre, amiga Luzia. E me conte sobre o Letria.

Abraço.

Quasímodo disse...

Lúcia... Em resposta (extemporânea) aos dois comentários: Quanto ao nosso amigo, creio estar tudo dito, aqui e também lá.
Quanto à "fornada" dá a impressão de que o fermento estava airado e o pão "abatumou". Um pouco de ocupações e outro tanto de "desinspiração". Mas logo sai...

Beijo.

Quasímodo disse...

Krika... É verdade, somos apenas humanos. Poetas são diferentes, como bem disse Pessoa.

"O poeta é um fingidor,
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente."

Há uma referência ao Letria no Linguagem e Afins, quando tratas das pinturas de Klee.(09/06/11)

Sempre bom saber-te aqui por perto.

Beijo.

Quasímodo disse...

Então, Henrique...

O bom desse mundo cibernético é sabermos que não estamos falando com máquinas.

E deixes dessas modéstias da muléstia.

Quanto aos concursos, que venha de lá. Parece que amealhei mais um...

Abraços.

 
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