segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Mangrulho

Dia destes, em uma conversa com um grupo de amigos, citei o termo “mangrulho” para espanto de uns, desconhecimento de outros e desaprovação dos demais, que deram ao termo uma conotação pornográfica e grosseira. Quando sugeri a uma moça, feroz crítica do termo, que ela deveria de vez em quando subir num mangrulho para ampliar seus horizontes, o caldo entornou. Saiu da roda, batendo os calcanhares, me olhando de soslaio e, temerosa, pisava com passos curtos.
Não é nada disso. Explico:

mangrulho (man-gru-lho)
m. Bras.
Posto militar de observação, em sítio elevado, e formado de madeiras toscas, acima das quais se sobe, para observar: «foram inaugurados quatro mangrulhos na Lagoa dos Patos». Jornal do Comm., do Rio, de 6-I-909.
(T. procedente do Paraguai)
[Dicionário Candido de Figueiredo, 1913]
Mangrulho

O mangrulho é uma torre de atalaia feita com troncos altos e aproximadamente com cinco metros de altura. O homem que está de vigia sobe por uma escadinha rústica e lá em cima tem uma plataforma, às vezes com cobertura de palha para proteção. Mangrullo é uma palavra hispano-americana, popularíssima na Argentina e no Uruguai, que passou a fronteira e se abrasileirou como mangrulho. Vale lembrar que no município de São Borja, quase dentro do núcleo urbano, existe uma localidade chamada exatamente Mangrulho.

Qual era a função do mangrulho? Na pampa argentina, na chamada "guerra del desierto" entre os soldados do exército argentino e os índios hostis na fronteira entre a civilização e a barbárie, o mangrulho facilitava a visão muito ampla (360º) do pampa. Ao menor sinal de perigo, o soldado que estava no mangrulho dava o sinal.
O índio pampiano era exímio na arte de se aproximar sorrateiramente, disfarçando-se na própria natureza. Aos olhos do vigia do mangrulho, pastava pacificamente uma tropilha clinuda, sem sinais de contato com o homem: de repente se erguiam de trás dos cavalos, onde se escondiam com grande habilidade, 50 ou cem conas de lanza que já vinham ao ataque flechados no rumo do fortim que o mangrulho vigiava.
Martin Fierro, a obra imortal de José Hernandez, dá uma adequada visão desses tempos, e o cinema argentino em mais de uma oportunidade retratou essa luta.
Civilização e barbárie? A expressão é equívoca, embora tenha sido gasta por autores. A civilização não era tanto "civilização" e a barbárie também não era tanto "barbárie". Civilizados aqueles soldados dos fortins da fronteira caçados a mango e a boleadeira nas pulperias dos arrabaldes? Não. Improvisados a força como militares, tratados a manotaços pelos superiores, roubados do soldo muitas vezes e tendo que enfrentar a brilhante cavalaria pampiana, o soldado de fronteira não era nem perto de civilizado. E nem era soldado - apenas um pobre paisano caçado como fera no qual empurravam à força uma farda azul, uma espada e um mosquetão.
E bárbaro, selvagem, o ranquel, o araucano? Menos. Ele tinha sua vida organizada. A sua família, o seu modus vivendi, seu vasto território era cobiçado pelos brancos que não pensaram jamais em respeitar os direitos dos índios. Não. Foi uma guerra de extermínio, e o governo argentino terminou por conquistar a pampa. Para quê? Para nada: aí está até hoje, em pleno século 21, o mapa da Argentina. Da província de Buenos Aires para baixo, até a Patagônia, lá estão imensas solidões geladas, desérticas.
O mangrulho foi parte dessa luta genocida, cruel. Não tivemos no Rio Grande do Sul uma cousa assim, embora a Guerra das Missões (1750-1756) dos nossos antepassados não nos encha de orgulho. Mas tivemos muitas guerras civis, e por isso importamos o mangrulho. A prova está em São Borja, ali no que sai do cemitério, da Vila Alegre.

Fonte: coluna do Nico Fagundes em ZH do dia 19/03/2007, publicada em http://www.chasquepampeano.com.br/materia.php?id=9

Tem até uma música gaúcha, cuja letra está abaixo:

O MANGRULHO

LETRA: Kenelmo Amado Alves
MÚSICA: Marco Aurélio Vasconcelos
INTERPRETAÇÃO: Jorge André e Grupo Uruchês



NO DISTANTE PASSADO
AS LUTAS DA POSSE
RAIZES DA RAÇA
QUE AQUI FICARIA

UM RANCHO PERDIDO
E SOLITO NO PAMPA
E ATENTO MANGRULHO
BOMBEANDO DISTÂNCIAS

MANGRULHO, MIRANTE
CUIDOU DESTA TERRA
DE ASSALTOS COBIÇAS
E SANHAS DE GUERRA

O QUE ERA DO DONO
COM O DONO FICOU
E O VELHO MANGRULHO
NO TEMPO PASSOU

A COBIÇA ESTRANGEIRA
PORÉM NUNCA PASSA
EU A VEJO TENTANDO
DOBRAR ESTA RAÇA

MAS CAVANDO RAÍZES
ME EMPONCHO DE ORGULHO
POIS EM CADA GAÚCHO
EU VEJO UM MANGRULHO

Na Guerra da Tríplice Aliança – Campanha do Paraguai – o Exército Imperial Brasileiro defrontou-se com um grave problema operacional, decorrente da ausência de cartas, esboços e informações sobre o Teatro de Operações .

Lutando numa planície, o problema de dominância de vistas para observações sobre o campo adversário tornou-se crucial para possibilitar a localização de obstáculos, de fortificações e acompanhar-se a localização e movimentação das tropas inimigas.

Para compensar esta deficiência recorria-se aos mangrulhos, postos de observações artificiais, com o formato de torres, para elevar-se os observadores a alguns metros do solo.

http://www.ahimtb.org.br/caxiasaerost.htm

À esquerda da gravura um mangrulho no acampamento de Caxias de Tuyu –Cuê , proximo de Humaitá .(Fonte: História do Exército Brasileiro...(Rio de Janeiro:EME,1972.v.2,p.644).
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8 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Corcundinha de Notre Dame

Konkentão mangrulho... Compreendo perfeitamente a moça saindo de fininho e muito chateada e os amigos, de cenho franzido, mas okékeste tipo quer?

Realmente, o termo, à primeira vista é... no mínimo suspeitoso. Em Portugal temos uma palavra que começa também por mang... que é um símbolo de virilidade. Mas termina em alho, sem cebola.

Depois, vai-se a ver e é uma torre de observação que ganhou batalhas. Muito bem. Por aqui, não sabia o que era; agora já sei.

Um destes dias vou dizer a uma prima, com 68 e picos, e que tem propriedades no Alentejo, que pode arranjar um mangrulho para observar Espanha. Se eu levar uma murraça no trombil, palavra que ta envio por imeile.

E quando voltas com cumentários, com o, ao meu covil?????

Abs

fá__ disse...

___ah!! que interessante, esse posto, mangrulho, lembrou-me meu sentinela...rs*
a nossa língua é mesmo bárbara, e nos leva a cada situação, não?
acho lindo isso, e essa coisa de abrasileirar me encanta.
gostoso vir e ler você,e aprender, meu camaradinha querido.
tou aqui em boa companhia, você e um bom café...rs*
beijos*
.

Quasímodo disse...

Pois então, meu caro amigo Henrique.

Sua prima poderia ser uma ótima observadora da Extremadura, numa eventual campanha de recuperação de Olivença.

Creio que, encarregada de tão alta e nobre missão, a força da murraça no trombil seja amenizada. Se não der certo, envia-me, que aqui tem trombil suficiente e acostumado a levar murraças da vida.

Estou mesmo em débito com a Travessa, quanto à cumentários, com o, mas prometo que logo o farei.

Grande abraço, também à Raquel e aos miúdos.

Quasímodo disse...

Fá, camaradinha.

Pois saibas que foi a partir do Sentinela que me veio a idéia de escrever sobre o mangrulho.

Coincidência, né?

A propósito de "abrasileirar" alguns termos e grafias, me levou a um ponto de desacordo com os defensores do Novo Acordo Ortográfico, (reduntante eu), infelizmente com algumas seqüelas (com trema) incuráveis. Mas esse é outro assunto.

Teremos, eu prometo, a oportunidade de tomarmos esse café de corpo, alma e coração presentes...

Beijos.

krika disse...

Sempre cultura a vista por aqui...E eu sabia lá o que é mangulho? To meia apressada meu afilhado...Logo que puder fico mais um pouco. Beijos

uns olhos... disse...

do mangrulho eu já sei.
que será que vou aprender com você agora?
estou aguardando curiosa.
beijão, querido!

Lu disse...

Mas bah! Gostei do vivente de bigode, mirando lá longe...rss

Cumadre, esse homê é cheio dos saberes e coisa e tal...

Beijos, nos dois!

Quasímodo disse...

Krikita... Tu tens todo o tempo do mundo, desde que venhas sempre dar o ar de sua graça.

Uns... Não é comigo que aprendes. Só repasso o que aprendi. Beijo, também.

Lu... Esse desenho já fez parte de uma canção gaúcha. Você se lembra de uma parte que diz... "Pinta um quadro do Berega"?... Pois é, se referia à essas pinturas. Esta, especialmete, é de um calendário antigo.

Andei recortando um pouco.

Mas que o gaúcho mirante é cheio de entojo, não dá pra negar...

Beijo, amiga.

 
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