Havia um gato cego na varanda.
Nascera ali, numa ninhada de mais quatro gatinhos que se foram logo. Primeiro um, o que pelo tato do focinho percebera que era o mais peludo. Depois foram outros dois de uma vez só. Por último a gatinha magra com quem brincava de morder o rabo.
Ele ficou na varanda, imaginando o mundo e vivendo no mundo imaginário que inventara. No começo o calor do corpo da gata-mãe e o leite quentinho que ela lhe dava pareciam ser tudo o que existia. Logo percebeu que a sua teta era a segunda, contando na fileira de baixo a partir do ronronar audível da mãe. Notou que ao seu lado, na primeira teta mamava um irmãozinho peludo e a sua direita dois outros, que não sabia bem distinguir o pelo. Acima dele, na teta do meio da carreira de cima, apoiando-se nele com as perninhas finas, mamava uma gatinha. Ele sabia que era uma gatinha pelo seu cheiro e seus modos diferentes dos modos dos gatos que mamavam ao seu lado; suaves, delicados, femininos.
Depois eles se foram. Levaram eles. Escutou dizerem:
- Olhe este é bonitinho, todo raiado.
– Não, eu prefiro aquele, peludinho.
Depois levaram os outros dois. Falaram:
- Só temos este raiado e aquele, mourisco. Tem também a gatinha e o gatinho cego.
- Levamos os dois, então. Não queremos a gata e o gatinho cego, de que nos servirá? Não saberá interagir com as crianças...
A gatinha que mamava na teta de cima não escutou levarem. Ele acordou numa noite, porque para ele sempre fora noite, e não mais a encontrou para brincar de morder o rabo.
Depois a gata-mãe rareou as lambidas de carinho, até que sumiu de vez. Ele ficou na varanda conhecendo que seu mundo se limitava a uma parede de um lado e um abismo pressentido do outro. O limite concreto da parede e seu medo abstrato do abismo não o impediam de ser alegre e brincalhão como todo gatinho sabe ser. Aprendeu que, ao sentir o cheiro de frituras e o burburinho de vozes, logo viria a comida apetitosa que alguém lhe lançava no pratinho, e que comia com voracidade.
Um dia, em que ouvira vozes infantis, deixaram esquecidos na varanda um chocalho quebrado e uma bolinha de plástico. Tateou até encontrá-los e passou a brincar com eles. Adorava ouvir os sons dos guizos e rolar a bolinha junto à parede, cuidando para que não lhe fugisse para além do limite do abismo.
Aprendeu a encontrar o sol pelo calor de seus raios e ali ficava deitado a aquecer o corpo. Quando esfriava, dormia sobre o pano de lã que estava a um canto da parede.
Ouvia o rufar de asas e pressentia o movimento alegre de passarinhos bem próximos, que disputavam os farelos da ração que sobrara no pratinho.
Então ontem, no meio da tarde, quando brincava com a bolinha de plástico, escorregou no piso da varanda e não podendo parar a tempo, chocou-se com a parede. Bateu a cabeça e ficou tonto, aturdido. Quando, aos poucos, foi recuperando os sentidos, notou que já não era o mesmo. Uma luz forte lhe ardia os olhos. Imagens que antes só eram imaginadas foram se formando. Viu que a parede era apenas um muro que se poderia alcançar o topo com um pequeno salto. Viu que acima brilhava um céu de azul intenso e que no meio dele ardia uma bola de fogo cujo amarelo dos raios lhe aquecia. Viu que o abismo imaginado era mesmo real e que estava cercado por uma tela de malhas finas e que não era mais alta que o muro em que batera a cabeça. Havia um vaso de flores sobre a tela, lá, na outra extremidade.
Ainda aturdido e confuso, passou o resto da tarde a explorar a varanda. Encontrou o velho chocalho que há tempos não brincava, e notou que ele estava quebrado.
Então escureceu e ele teve medo, pois nunca havia escurecido em sua vida depois de ter visto a luz. Aninhou-se no pano de lã e viu que ele era roto e sujo.
Ali ficou, observando a escuridão e os pequenos pontos luminosos que apareceram no céu, antes azul. Dormiu pouco e no pouco que dormiu pesadelos o atormentaram. Ora era a bola de fogo que lhe devorava, ora era a folhagem do vaso que ao balançar com o vento, raspava na tela e fazia ruídos horripilantes.
Viu que voltava, aos poucos a clarear, e que o burburinho de vozes se tornava audível novamente. O medo já não era tanto. Sentiu o cheiro gostoso e percebeu que tinha fome. Seguiu o cheiro e pela porta entreaberta viu uma mesa onde fumegavam xícaras de café e reluziam nos pratos apetitosos nacos de presunto. Quis entrar mas lhe enxotaram com rispidez. Jogaram pela janela uma porção de ração no seu pratinho. E então ele percebeu que a ração não era saborosa como antes, e que o cheiro gostoso que sentia não era dela, mas da mesa que vira pela porta. Não teve vontade de comer daquela ração, mas do que vira sobre a mesa.
Um pardal chegou do ar por sobre a tela e veio bicar os nacos de ração, a seu lado. Quis brincar com ele, mas ele fugiu assustado por sobre o parapeito da tela de onde viera, e sumiu no horizonte. Então o gatinho percebeu que havia montanhas azuis no horizonte e que antes delas subia um balão colorido de faixas amarelas, verdes, vermelhas... e sua bolinha de plástico ali, tão desbotada e murcha!...
De um salto, galgou o parapeito da tela e sentiu as montanhas tão próximas que quase daria para tocá-las com o focinho. Tomou um novo impulso e saltou para elas.
E caiu no asfalto da rua, quatorze andares abaixo.
O pardal, que ainda esvoaçava pela praça, comentou pesaroso:
- Gato doido!... Parecia tão feliz lá na varanda. Será que pensou que tinha asas como eu?...

- Não, amigo pardal. Ele abriu os olhos e viu que o mundo era maior que a sua varanda.
Fotos:
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6 comentários:
Estes contos com animais dão-me cá uma tristeza! Assim ao jeito do Bernardim Ribeiro com o seu pardalito. Acho que é um sentir português.
Mas está muito bonito.
Verdade, Carol. É um sentir universal. Porém desde La Fontaine contos com animais trazem, subliminarmente, alguma mensagem, não necessariamente moral.
Obrigado pela visita e fica o convite para voltares sempre.
Eu imaginei até a cor do piso da varanda, concordo com a Carol sobre contos com animais, mas este em especial teve momentos que me senti o principal personagem na história...Será porque?... só um psicólogo para informar..rs
Quasímodo um super abraço.
Amigo, há muito não passava por aqui. Porque, não sei , resposta não tenho.
Mas a cada volta, sempre uma riqueza.
Riqueza melancólica, que me induz a rever "cegueiras".
Ainda me situando.
Deixo meu carinho de sempre.
Corcundamigo
Desde o Paleolítico Superior que não nos encontramos; não pode ser. Ainda morro de saudades e não há Esmeralda que me valha...
Não conhecia Horácio Nogueira e creio que não está publicado em Portugal. Mas, depois do que me (nos) ensinas sobre ele, vou tentar comprar O Índio Penhái. Pensas que o poderei fazer pela Internet? Dá-me uma informação, sff. Obrigado
Abç
PS - A Travessa continua viva...; pelo menos, mexe-se...
Oi,Quasímodo!
Venho agradecer, ainda que com atraso, os votos de Feliz Páscoa e antecipar um Feliz Dia das Mães (não sei se ainda tens a sua, porém, mãe será sempre parte de nós...).
Falando em mãe,este texto conta um pouco da mãe-gata e, mesmo que ela tenha dado o carinho necessário, foi por um tempo finito, logo o filhote precisou descobrir o mundo por si. Que bom tê-lo arriscado, pois, ainda que o mundo nos meta medo, é preciso crescer, descobrir, ganhar "asas", só assim é possível saber o limite que podemos cruzar.
Boa reflexão!
Bjins e até!
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